A evolução do estatuto da mulher na literatura moderna e contemporânea

Orlando Braga

Quem leu “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, escrito em finais do século XVIII; ou por exemplo e já em pleno século XIX, quem leu “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, do nosso Júlio Dinis, ou a “Morgadinha dos Canaviais” — podemos encontrar nessas obras uma crítica social a uma sociedade estratificada, crítica essa que coincidiu com a ascensão da burguesia que era já anterior à revolução francesa.

No caso inglês, a influência da burguesia na cultura vinha já da Glorious Revolution inglesa de 1668, ano em que Hobbes publicou o “Leviatão”. Os romances “Pamela”, e “Clarissa”, de Samuel Richardson, contam a história do assédio sexual a uma rapariga burguesa por parte de um nobre moralmente degenerado e decadente. A burguesia era assim retratada como a classe social revolucionária e moralmente íntegra, em contraste com uma nobreza decadente e imoral. Podemos encontrar o mesmo padrão cultural nos romances de Charlotte Brontë (por exemplo, em “Jane Eyre”, já no século XIX): uma mulher burguesa, movida pela virtude, resiste às invectivas do homem aristocrata até ao ponto de este, perfeitamente desmoralizado, aprender a respeitar a sua sensibilidade e os seus desejos, e propor-lhe casamento.

À primeira vista, a crítica social expressa na obra de Jane Austen, de Richardson, de Brontë, ou na do nosso Júlio Dinis, parecia pertinente, na medida em que, em princípio, uma crítica social deve ser interpretada como um apontar de caminhos alternativos para a cultura antropológica, caminhos esses considerados mais adequados à felicidade individual e colectiva.

Por exemplo, em “Orgulho e Preconceito”, Jane Austen retrata de um modo subrepticiamente satírico a condição feminina no século XVIII: conta a história de uma mãe “casamenteira”, pertencente à classe social popular, que pretende “acomodar” na vida as suas cinco filhas através de casamentos com varões membros da nobreza rica; e as peripécias do enredo da novela andam à volta do choque cultural entre estatutos sociais diferenciados, em que a estratificação social é quebrada por via do amor entre jovens de classes sociais distintas e pelo casamento.

Podemos encontrar este mesmo tipo de narrativa crítica à estratificação da sociedade, em Júlio Dinis, por exemplo, n’ “Os Fidalgos da Casa Mourisca”: um lavrador abastado vê a sua filha casar-se com um membro da nobreza decadente. Tanto no caso de Austen como em Júlio Dinis, o clero — anglicano em Inglaterra, e católico em Portugal — foi objecto de sátira: no primeiro caso, surge o personagem de um pastor anglicano minúsculo e desajeitado, primo das meninas Bennett, que procurava um casamento de conveniência; no segundo caso, o deão católico que vivia no palácio da família nobre e cuja única preocupação era a chegada da hora das refeições…

No decorrer do século XIX, este romantismo de crítica social acentuou-se por exemplo com “Vermelho e Negro”, de Henri Stendhal. Aqui, o romantismo amoroso do século XVIII é transformado em um romantismo permissivo e a caminho da validação da depravação moral; a nobreza e a burguesia passam a ser intermutáveis: o burguês Julien consegue um título nobiliárquico mas é derrubado por uma antiga amante, a mulher do Burgomestre de Verrières. O romantismo amoroso e quase platónico do século XVIII desaparece para dar lugar a um romantismo violento e amoral.

Com “Madame de Bovary”, de Flaubert, o adultério e a celebração da tragédia passou a estar definitivamente na moda: longe iam já os tempos das virtudes da mulher burguesa do século XVIII de Jane Austen, que se impunham ao amoral varão da nobreza : com “Madame de Bovary”, a mulher adúltera acaba por se suicidar, em vez de ter um casamento “feliz para sempre”, como acontecia com Jane Austen ou com Júlio Dinis.

Com Marcel Proust, já no século XX, a novela descambou definitivamente para a promoção da amoralidade ou do relativismo moral; o romantismo tornou-se psicológico e subjectivista, e divorciado da realidade concreta e objectiva.

Chegados à actualidade, podemos perguntar-nos: a crítica displicente de Jane Austen à sociedade do seu tempo, e a evolução das relações entre o homem e a mulher até hoje, trouxeram finalmente a felicidade à mulher? Se encararmos hoje de frente, e de forma objectiva, o estatuto da mulher na nossa sociedade que é espelhado nas novelas contemporâneas, podemos dizer que a mulher é hoje mais feliz [e respeitada] do que a mulher do século XVIII? Tenho muitas dúvidas.

Fonte: perspectivas