Resposta a Vladimir Safatle

João Pereira Coutinho

Nada tenho contra a ignorância. Na melhor tradição socrática, sei que a ignorância é a base de qualquer conhecimento válido.

Coisa diferente é a ignorância atrevida; ou a má-fé intelectual de quem falsifica os factos para construir uma narrativa “apropriada”.

Vladimir Safatle é um caso: dias atrás, escrevi nesta Folha que o seu texto sobre o conflito israelense-palestino revelava desconhecimento sobre aspectos básicos do problema, que qualquer um dos meus alunos aprende no 1º ano de faculdade.

Lendo a resposta de Safatle à minha resposta, vejo que me enganei –e devo um pedido de desculpa aos leitores.

Safatle não revela apenas desconhecimento; revela desconhecimento, desonestidade e um desagradável traço de grosseria.

Sobre a grosseria, digo apenas isto: no meu texto, em nenhum momento teço considerações pessoais sobre Safatle. Não há uma linha sobre a sua ascendência cultural; e nunca me passaria pela cabeça atribuir-lhe qualquer maleita psiquiátrica.

Que Safatle tenha evocado a minha condição de português para, alegadamente, eu não entender certas palavras (no fundo, um velho clichê racista) e levantado suspeitas sobre as minhas “alucinações negativas”, eis uma postura que define a criatura.

Em condições normais, não haveria resposta ao texto de Safatle. Mas, por respeito aos leitores da Folha, gostaria de esclarecer alguns pontos sobre a “polêmica”.

Em primeiro lugar, Safatle afirma que um “muro” é um muro e que eu, de forma demente, teria transformado o Muro (com maiúscula) em “barreira de segurança”. Para que não restem dúvidas, mantenho o que disse: a parte em cimento da “barreira de segurança” da Cisjordânia constitui apenas 5% da totalidade dessa barreira (que, na verdade, é mais uma cerca que outra coisa).

Isto não é um pormenor; é uma forma de tratar as palavras (e a realidade) com um mínimo de decência. Bem sei que é mais dramático afirmar que Israel construiu um Muro (“o Muro da vergonha”, “um novo Muro de Berlim” etc. etc.) para separar os israelenses dos palestinos. Lamento: Israel apenas construiu esse Muro quilométrico na retórica de Vladimir Safatle.

Uma vez estabelecidos os factos, convém lidar com as implicações: a “barreira de segurança” vai além das fronteiras pré-1967 e anexa território alocado aos palestinos? Verdade.
Mas não é a “barreira de segurança” (ou os assentamentos na Cisjordânia, já agora) que impede uma solução para o conflito e a existência de um estado palestino que inclua a totalidade de Gaza e a (quase) totalidade da Cisjordânia (já lá iremos).

Israel retirou de Gaza em 2005 e, para o efeito, evacuou povoações inteiras (Netzarim, Morag, Dugit etc.). Aliás, a evacuação não se limitou a Gaza; incluiu também outras povoações na Cisjordânia, como Ganim ou Homesh.

Nenhuma novidade. O mesmo já sucedera depois dos acordos de Camp David (em 1979) quando a paz com o Egito levou Israel a desmantelar a totalidade dos assentamentos no Sinai.
Dito de outra forma: nem os assentamentos, nem a “barreira de segurança”, ambos removíveis por definição, são os verdadeiros obstáculos da paz.

E quando, mais acima, escrevi sobre a possibilidade de um estado palestino que inclua a totalidade de Gaza e a (quase) totalidade da Cisjordânia, nem esse “quase” é um obstáculo real: o

Plano Clinton já previa que os 94%-96% da Cisjordânia palestina seriam completados por 6%-4% de território israelense anexado a Gaza. Mas nem isso levou Arafat a aceitar um acordo histórico para os palestinos.

E Arafat não aceitou o acordo porque exigiu o regresso dos 4 milhões de refugiados palestinos (tradução: o regresso dos filhos dos filhos dos filhos dos refugiados originais) a Israel, e não ao novo estado palestino, como seria lógico.

Com imensa bondade, Safatle concorda que esse regresso em massa seria um suicídio demográfico e cultural para Israel. Mas depois pergunta por que motivo não se tenta encontrar uma solução de compromisso que passe pela “absorção de uma parte e a compensação financeira dos demais”.

Se Safatle tivesse lido alguma coisa a respeito, ele saberia que “absorção de uma parte” e “compensação financeira dos demais” foi precisamente o que foi proposto por Ehud Barak em Camp David.

Para sermos precisos, Barak propôs absorver uma parte dos refugiados palestinos ao abrigo de um programa de reunificação familiar; e propôs também compensações no valor de 30 bilhões de dólares. Arafat recusou na mesma.

Por último, Safatle horroriza-se com a minha frase: “a existência de um Estado autônomo e respeitoso das fronteiras de 1967 tem sido sucessivamente proposto pelas lideranças israelenses desde 1967”.

Não entendo o horror. Se esquecermos que, antes da Guerra dos Seis Dias, foram sempre os árabes a recusar a existência de um estado palestino junto a um estado israelense (1917, 1937, 1948), o que dizer depois da Guerra?

Depois da Guerra, ainda em 1967, quando Israel estava disposto a trocar a terra conquistada por paz, reconhecimento e negociação, a resposta árabe ficou célebre na Cúpula de Cartum, que a história registou para a posteridade como a “Cúpula dos Três Nãos”: não à paz com Israel; não ao reconhecimento de Israel; e não à negociação com Israel.

Apesar de tudo, um estado palestino respeitoso das fronteiras de 1967 (embora, como referi, implicando “trocas de terra” em que Israel cederia parcelas do seu território para compensar perdas na Cisjordânia) voltou a ser oferecido em 2000, em Camp David; e retomado por Ehud Olmert, em 2008. A resposta árabe foi sempre a mesma: não, não e não.

É pena. Os palestinos, que Safatle me acusa de ignorar em tom melodramático, mereciam melhor destino.

Mereciam, por exemplo, que as lideranças palestinas não tivessem desperdiçado as várias oportunidades de alcançarem um estado palestino independente depois de 1967.

E mereciam que, antes de 1967, quando Gaza e a Cisjordânia estavam sob domínio egípcio e jordano, respectivamente, os “irmãos árabes” tivessem integrado os refugiados palestinos nas suas sociedades.

Exatamente como Israel integrou os milhares de refugiados judeus que, durante a Guerra da Independência de 1948, partiram ou foram expulsos dos países árabes da região.

Discutir o conflito israelense-palestino, ao contrário do que pensa Vladimir Safatle, é um pouco mais complexo do que soltar umas interjeições adolescentes (“um muro é um muro!”, “há situações inaceitáveis sob quaisquer circunstâncias!” etc.) que talvez impressionem alguns alunos pós-púberes.

Infelizmente, senhor professor Safatle, não me impressionam a mim.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/

Israel nasceu da compra, e não do roubo de terras na Palestina

Daniel Pipes

Os sionistas roubaram as terras da Palestina: este é o mantra que tanto a Autoridade Palestina quanto o Hamas ensinam a seus filhos e propagam em seus meios de comunicação. Essa afirmação tem enorme importância, tal como explica o Palestinian Media Watch: “Ao apresentar a criação do estado israelense como um roubo e a sua existência como uma injustiça histórica, a Autoridade Palestina tem a base de sua justificativa para o não-reconhecimento do direito de Israel existir”. A acusação de roubo também enfraquece a posição de Israel internacionalmente.

Mas esta acusação é uma verdade?

Não, não é. Ironicamente, a construção de Israel foi o mais tranquilo e pacífico processo de imigração e criação de um estado na história. Para entender o porquê é preciso examinar o sionismo no seu devido contexto. De maneira direta e resumida: a conquista de territórios é a norma histórica; por todo o mundo, governos foram estabelecidos através da invasão de territórios e quase todos os estados surgiram à custa do estado de outros. Ninguém está permanentemente no topo, no comando e as raízes de todos os povos estabelecidos têm origem em algum outro lugar.

As tribos germânicas, a hordas da Ásia central, os czares russos e os conquistadores espanhóis e portugueses redesenharam os mapas. Os gregos modernos têm apenas uma tênue ligação com os gregos da antiguidade. Quem é capaz de contar quantas vezes a Bélgica foi invadida? Os estados Unidos originaram-se nas derrotas impostas aos indígenas. Reis perambularam e saquearam por toda a África; tribos arianas invadiram a Índia. No Japão, as tribos de língua Yamato eliminaram todas as outras, exceto por alguns pequenos grupos, tais como os Ainu.

O Oriente Médio, em função de sua centralidade e geografia, experimentou uma grande e talvez desproporcional quantidade de invasões, incluindo a dos gregos, romanos, cruzados, seljúcidas, timúridas, mongóis e as dos europeus modernos. No interior da região, frivolidades dinásticas causaram a conquista e a reconquista do mesmo terrtório— tal como o Egito, p.ex.

A terra que hoje forma Israel não foi exceção. No livro Jerusalem Besieged: From Ancient Canaan to Modern Israel, Eric H. Cline escreve sobre Jerusalém “Nenhuma outra cidade foi mais amargamente disputada ao longo da história”. Ele respalda essa afirmação contando “pelo menos cento e dezoito (118) conflitos distintos, em ou por Jerusalém nos últimos quatro milênios”. Cline calcula que Jerusalém foi completamente destruída pelo menos duas vezes, sitiada vinte e três vezes, capturada quarenta e quatro vezes a atacada cinquenta e duas vezes. A Autoridade Palestina proclama a fantasia de que os palestinos de hoje são descendentes de uma antiga tribo de Canaã, os jebusitas; de fato, mas por sua vez, esses eram descendentes de invasores e de imigrantes em busca de oportunidade econômicas.

Em contraste com esse quadro de conquistas incessantes, violência, golpes e destruição, até 1948, os esforços sionistas para erigir sua presença na Terra Santa destacam-se por suas características espantosamente suaves, como atividades mercantis, e não militares. Dois grandes impérios, o otomano e o britânico, governavam a Eretz Yisrael, enquanto os sionistas não dispunham de poder militar. Para eles, não havia nenhuma possibilidade de atingir a condição de estado através da conquista.

Em vez de conquistar, eles compravam terra. Adquirir propriedades, dunam por dunam[*], fazenda por fazenda, casa por casa, era o cerne do empreendimento sionista até 1948. O Fundo Nacional Judaico, criado em 1901 para comprar terras na Palestina a fim de “auxiliar na fundação de uma nova comunidade de judeus livres e engajados em atividades pacíficas”, era a instituição chave — e não o Haganah, a organização clandestina de defesa fundada em 1920.

Os sionistas também se concentraram na recuperação daquilo que era árido e considerado inutilizável. Eles não só fizeram o deserto florescer como também drenaram pântanos, limparam canais, recuperaram terras devolutas, arborizaram colinas nuas, retiraram rochas e removeram o sal do solo. O trabalho judaico de recuperação e saneamento reduziu drasticamente o número de mortes por moléstias contagiosas.

Foi somente quando o poder mandatário britânico desistiu da Palestina em 1948, seguido de uma tentativa geral dos estados árabes de esmagar e expulsar os sionistas é que estes tomaram a espada em autodefesa e continuaram a obter terras através da conquista militar. Mesmo assim, conforme demonstra o historiador Efraim Karsh no livro Palestine Betrayed, a maioria dos árabes abandonou suas terras; muito poucos foram forçados a sair.

Esta história contradiz o relato palestino, segundo o qual “gangues sionistas roubaram a Palestina e dela expulsaram seu povo”, o que teria levado a uma catástrofe “sem precedentes na história” (de acordo com um livro-texto fornecido pela Autoridade Palestina aos alunos do último ano do ensino médio). Ou ainda: que os sionistas “saquearam a terra palestina e seus interesses nacionais, estabelecendo o seu estado sobre as ruínas do povo árabe palestino”, (como escreve um colunista no jornal diário da AP).  Organizações internacionais, editoriais de grande jornais e petições de corpos docentes reiteram essa falsidade por todo o mundo.

Os israelenses deveriam manter suas cabeças erguidas e chamar a atenção para o fato de que a construção de seu país foi baseada num movimento menos violento e mais civilizado do que de qualquer outro povo na história. Gangues não roubaram a Palestina; comerciantes compraram a terra de Israel.

Fonte: www.midiaamais.com.br

Tradução: Henrique Dmyterko

Publicado originalmente na National Review Online, em 21.06.2011. Também disponível no site do autor.

Cresce o antissemitismo em cidade sueca

Israelenses param em memória a vítimas do Holocausto

Israelenses param em memória a vítimas do Holocausto

Donald Snyder 

Os gritos de “Heil Hitler” que eram dirigidos com frequência para Marcus Eilenberg quando ele ia para a sinagoga foram demais. Temendo pela segurança de sua família, Eilenberg mudou-se com a mulher e dois filhos para Israel.

“Eu não queria que meus filhos crescessem nesse ambiente”, disse ele. “Não seria justo para eles ficar em Malmo.”

A Suécia, um país há muito tempo considerado um modelo de tolerância, tinha sido um refúgio para a família de Eilenberg. Seus avós paternos estabeleceram um lar em Malmo em 1945, depois de sobreviver ao Holocausto. Os pais de sua mulher chegaram à cidade portuária em 1968, vindos da Polônia, depois que o governo comunista de lá lançou um expurgo antissemita.

Mas a combinação de uma população muçulmana em rápido crescimento, vivendo em condições segregadas, com a raiva disseminada contra as políticas e os atos de Israel foi tóxica para os judeus locais. Como em muitas outras cidades europeias, os judeus de Malmo dizem que foram submetidos a crescentes ameaças, intimidação e violência como representantes de Israel.

Malmo, a terceira cidade da Suécia, com uma população de aproximadamente 294 mil habitantes e que inclui menos de 800 judeus, atingiu uma espécie de ponto de virada em janeiro de 2009 durante a campanha militar israelense em Gaza. Um pequeno grupo de maioria judia realizou uma demonstração chamada de marcha pela paz, mas considerada um sinal de apoio a Israel.

Os manifestantes foram atacados por um grupo muito maior de muçulmanos e esquerdistas suecos. A polícia pareceu incapaz de conter a violência.

“Fiquei realmente assustado”, lembrou o doutor Jehoshua Kaufman, um líder comunitário judeu. “Assustado porque havia muita gente irada diante de nós, gritando insultos e atirando garrafas e soltando fogos ao mesmo tempo. O ruído era muito alto. E fiquei irritado porque realmente queríamos seguir com aquela demonstração, mas não pudemos terminá-la.”

Alan Widman, um parlamentar de Malmo que não é judeu e pertence ao Partido Liberal, disse simplesmente: “Eu nunca senti tanto medo na minha vida”. Os manifestantes acabaram sendo evacuados pela polícia.

Uma bomba explodiu na escada diante da sinagoga de Malmo pouco depois das 2 da manhã de 23 de julho. A polícia classificou a explosão como um ato de vandalismo, crime que recebe baixa prioridade e raramente é solucionado, segundo um policial sueco. O superintendente da polícia de Malmo, Mats Atten, disse ao semanário judeu “Forward”: “Se ninguém viu nada e não temos pistas, não podemos fazer nada e a investigação será encerrada. Não somos mágicos”.

O antissemitismo na Europa foi historicamente associado à extrema-direita, mas os judeus entrevistados para esta reportagem dizem que a ameaça na Suécia hoje vem dos muçulmanos e da mudança de atitude sobre os judeus na sociedade em geral. Existem aproximadamente 45 mil muçulmanos em Malmo, cerca de 15% da população da cidade. Muitos deles são palestinos, iraquianos e somalis, enquanto outros vieram da antiga Iugoslávia.

Mas o problema não são apenas os muçulmanos, nem acontece só em Malmo.

Um estudo continental realizado pelo Instituto para Pesquisa Interdisciplinar sobre Conflito e Violência, da Universidade de Bielefeld, Alemanha, divulgado em dezembro passado, revelou que 45,7% dos europeus entrevistados concordam de alguma forma ou fortemente com a seguinte declaração: “Israel está conduzindo uma guerra de extermínio contra os palestinos”. E 37,4% concordaram com esta declaração: “Considerando a política de Israel, posso entender por que as pessoas não gostam dos judeus”.

“Existe um nível muito alto de antissemitismo oculto sob as críticas às políticas de Israel”, disse Beate Kupper, uma das principais pesquisadoras do estudo, em entrevista por telefone, citando uma tendência a “culpar os judeus em geral pelas políticas de Israel”.

Kupper disse que nos lugares onde há um forte tabu contra expressões de antissemitismo, como na Alemanha, “criticar Israel é uma ótima maneira de expressar o antissemitismo de forma indireta”.

Segundo Bassam Tibi, professor emérito de relações internacionais na Universidade de Gottingen, na Alemanha, e autor de vários livros sobre o crescimento do islamismo na Europa, os muçulmanos formam um importante subconjunto desse problema. “O crescimento da diáspora muçulmana na Europa está afetando os judeus”, disse Tibi. Segundo ele, muitos muçulmanos europeus pensam que “todo judeu é responsável pelo que Israel está fazendo e pode ser um alvo”.

Em Malmo, o papel dessa população é considerado especialmente significativo. A maioria dos muçulmanos de Malmo vive em Rosengard, a zona leste da cidade, onde o índice de desemprego é de 80%. Antenas de satélite salpicam os arranha-céus para receber programas da Al Jazira e outras redes a cabo em língua árabe, que mantêm os muçulmanos de Malmo em permanente contato com os acontecimentos árabe-israelenses.

Sylvia Morfradakis, uma autoridade da União Europeia que trabalha com os desempregados crônicos, os que estão sem trabalho há dez ou 15 anos, disse que o principal motivo pelo qual 80 a 90% dos muçulmanos entre 18 e 34 anos não conseguem arranjar emprego é que eles não falam sueco.

“Os empregadores suecos insistem que os trabalhadores falem bem a língua, mesmo para os empregos mais simples”, disse Morfradakis. Ela acrescentou: “O conceito de bem-estar social de ajuda sem fim não incentiva as pessoas a fazer algo para melhorar suas vidas”.

Mas Per Gudmunson, editorialista chefe do “Svenska Dagbladet”, um importante jornal sueco, é crítico dos políticos que põem a culpa pelos atos antissemíticos nas condições de vida dos muçulmanos. Esses políticos oferecem “desculpas frágeis” para os adolescentes muçulmanos acusados de crimes de antissemitismo, ele disse. “Os políticos dizem que esses garotos são pobres e oprimidos, e nós os fizemos ter ódio. Na verdade, eles estão dizendo que o comportamento deles é de certa forma nossa culpa.”

O problema dos judeus preocupa Annelie Enochson, uma parlamentar sueca democrata-cristã. “Se os judeus se sentem ameaçados na Suécia, fico muito assustada com o futuro do meu país”, ela disse em uma entrevista.

Por ser o judeu mais visível em Malmo, com seu chapéu de feltro preto e sua longa barba, o único rabino da cidade, Shneur Kesselman, 31, é um dos principais alvos do sentimento antissemítico muçulmano. Em seus seis anos na cidade, o rabino ortodoxo, que é americano, foi vítima de mais de 50 incidentes antissemíticos. Ele é um homem delicado, com uma determinação de aço a continuar em Malmo apesar do perigo.

Dois membros da embaixada americana em Estocolmo o visitaram em abril para conversar sobre sua segurança. Eles tinham bons motivos para preocupar-se.

O rabino lembrou o dia em que estava atravessando a rua com sua mulher, perto de casa, quando um carro subitamente deu marcha a ré e acelerou na direção deles. Os dois escaparam do veículo por pouco e conseguiram chegar ao outro lado da rua. “Minha mulher estava aos gritos”, disse o rabino. “Foi um acontecimento traumático.”

Os jornais locais relatam que o número de incidentes antissemíticos em Malmo duplicou de 2008 para 2009. Enquanto isso, Fredrik Sieradzki, porta-voz da comunidade judia de Malmo, estima que a pequena população judia está encolhendo 5% ao ano. “Malmo é um lugar para nos afastarmos”, ele disse, citando o antissemitismo como principal motivo. “A comunidade tinha o dobro do tamanho atual duas décadas atrás.”

A sinagoga em estilo mourisco, de 107 anos de idade, tem uma segurança elaborada. Seu vidro não é apenas à prova de balas, dizem as autoridades comunitárias judias; é à prova de foguetes. Guardas verificam os estranhos que tentam entrar no edifício.

Alguns pais judeus tentam proteger seus filhos mudando-se para bairros onde há menos muçulmanos nas escolas, para reduzir os confrontos.

Seis adolescentes judeus entrevistados mencionaram agressões antissemíticas por parte de colegas muçulmanos. Segundo as vítimas, nenhum dos agressores foi detido, muito menos punido.

Uma vítima foi Jonathan Tsubarah, 19, filho de um judeu israelense que se estabeleceu na Suécia. Enquanto ele passeava pela Praça Gustav Adolphe em 21 de agosto de 2009, três jovens – um palestino e dois somalis – o pararam e perguntaram de onde ele era, lembra Tsubarah.

“Sou de Israel”, ele respondeu.

Um dos agressores retrucou: “Eu sou da Palestina e vou matá-lo”.

Os três o derrubaram com socos e pontapés, disse Tsubarah. “Mate o judeu”, eles gritavam. “Agora você se orgulha de ser judeu?”

O adolescente, de compleição frágil, respondeu: “Não, não me orgulho”. Ele disse que só fez isso para que parassem de lhe bater. Tsubarah disse que pretende ir para Israel e entrar no exército.

Muitos judeus culpam a polícia sueca por não reprimir o antissemitismo. A maioria dos crimes de ódio em Malmo são atos de vandalismo, disse Susanne Gosenius, diretora da recém-criada unidade de crimes de ódio do Departamento de Polícia de Malmo. Estes incluem a pintura de suásticas em edifícios. Segundo Gosenius, a polícia não dá prioridade a esse tipo de crime. “É muito raro a polícia encontrar os perpetradores”, ela disse. “Os suecos não entendem por que as suásticas são ruins e como elas ofendem os judeus.”

Parlamentares participaram de manifestações anti-israelenses em que a bandeira de Israel foi queimada enquanto bandeiras do Hamas e do Hizbollah eram hasteadas, e a retórica era com frequência antissemítica, não apenas anti-Israel. Mas essa retórica pública não é considerada odiosa e denunciada, disse o professor Henrik Bachner, autor e professor de história na Universidade de Lund, perto de Malmo.

“A Suécia é um microcosmo do antissemitismo contemporâneo”, disse o doutor Charles Small, diretor da Iniciativa para Estudo do Antissemitismo da Universidade Yale. “É uma forma de aquiescência ao islamismo radical, que é diametralmente oposto a tudo o que a Suécia representa.”

O imame de Malmo, Saeed Azams, que afirma representar 80% dos muçulmanos da cidade, disse que é errado culpar os judeus suecos pelos atos de Israel. Durante uma entrevista em seu escritório, Azams salientou a importância de ensinar aos jovens muçulmanos que parem de comparar os judeus de Malmo com Israel.

“Como a sociedade judia na Suécia não condena os atos claramente ilegais de Israel, as pessoas comuns pensam que os judeus daqui são aliados de Israel, mas isso não é verdade”, ele disse.

O imame minimizou a seriedade do problema, dizendo que os incidentes antissemíticos foram consequência de ignorância e que “não há mais de cem pessoas, a maioria menor de 18 anos”, que se envolvem em violência e pertencem a gangues de rua. “Há algumas coisas que eu não consigo controlar”, ele disse.

O imame é um defensor do diálogo com líderes judeus e aprovou a criação de um “comitê do conflito”. O prefeito social-democrata de Malmo, Ilmar Reepalu, indicou o psicólogo Bjorn Lagerback para cuidar do recém-formado Fórum de Diálogo, que inclui líderes judeus e muçulmanos.

O prefeito criou o fórum depois da violência do ano passado contra os manifestantes judeus e seus próprios comentários polêmicos que irritaram os judeus. Dizendo que condenava tanto o sionismo quanto o antissemitismo, Reepalu criticou os judeus de Malmo por não assumirem uma posição contra a invasão de Gaza por Israel. “Em vez disso, eles preferiram organizar uma demonstração no centro da cidade, que as pessoas podiam interpretar mal”, ele disse.

Entrevistado na prefeitura de Malmo, o psicólogo Lagerback admitiu uma “situação horrível” em Rosengard, onde carros de bombeiros e ambulâncias são muitas vezes apedrejados por jovens muçulmanos irados. Mas, assim como o imame, ele se apressou a acrescentar que os que praticam violência são um pequeno número de jovens. Ele atribui esse comportamento à pobreza, à superpopulação e ao desemprego, e também a diferenças culturais.

“Somos suecos, mas cidadãos de segunda ou terceira classe”, disse Mohamed Abnalheja, vice-presidente da Associação de Lares Palestinos em Malmo. A organização ensina crianças de origem palestina sobre sua ligação com uma pátria palestina. “Temos o direito ao nosso país, a Palestina”, ele disse. “Hoje a Palestina está ocupada pelos sionistas.”

Enquanto isso, Judith Popinski, de 86 anos, diz que não é mais convidada para as escolas com grande presença muçulmana para contar sua história de sobrevivente do Holocausto.

Popinski encontrou refúgio em Malmo em 1945. Até recentemente, ela contava sua história nas escolas locais como parte do programa de estudos do Holocausto. Hoje algumas escolas não pedem mais para os sobreviventes contarem suas histórias porque os estudantes muçulmanos os tratam com grande desrespeito, seja ignorando os palestrantes ou saindo da classe.

“Malmo me lembra o antissemitismo que eu sentia quando criança na Polônia antes da guerra”, disse Popinski trêmula, com sua voz frágil. “Não estou mais segura como judia na Suécia.”

No entanto, ao contrário de outros, ela está decidida a ficar. “Não serei uma vítima mais uma vez”, ela disse.

Fonte: Hearst Newspapers

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/hearst/2010/08/08/cresce-o-antissemitismo-em-cidade-sueca.jhtm

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Israel acusa o Irã de introduzir terrorismo na América Latina com apoio de Chávez

(Montevidéu, 6 de dezembro EFE) – O vice-primeiro-ministro israelense, Moshe Yaalon, afirmou hoje em uma entrevista com EFE que o Irã está criando, com a conivência da Venezuela, uma “infra-estrutura terrorista” na América Latina para atentar contra os Estados Unidos, Israel e seus aliados.

“A idéia é armar uma infra-estrutura terrorista que durante um tempo esteja adormecida e que no momento certo possa atacar interesses dos Estados Unidos ou os Estados Unidos”, assim como “interesses israelenses ou judeus, ou de qualquer outro país que se oponha à sua postura política”, afirmou.

Yaalon, que culminou hoje em Montevidéu uma visita ao Uruguai, na qual se reuniu com o vice-presidente do país, Danilo Astori, entre outras autoridades, citou como exemplo dessa teórica estratégia um suposto complô para atentar contra o embaixador saudita nos Estados Unidos, revelado recentemente.

Nesse caso, no qual os Estados Unidos envolveram o Irã e que foi condenado no passado 18 de novembro pela Assembléia Geral da ONU, não é o único, como demonstram outros episódios do passado, assinalou. “Este tipo de infra-estrutura terrorista já atuou em 1992 contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires, e em 1994 contra a mutual judaica da AMIA”, também na capital argentina, detalhou.

Segundo Yaalon, a estratégia se enquadra nos planos de Teerã de “exportar a revolução iraniana, primeiro aos países circundantes”, como o Iraque, Afeganistão, Líbano ou o território palestino, “e depois ao Ocidente”.

O vice-primeiro-ministro, que na década de 90 foi chefe de inteligência militar, explicou que os dados de que seu país dispõe revelam que na América Latina “este tipo de infra-estrutura envolve elementos muçulmanos que existem na zona e também se apóia nos barões do narcotráfico. Também se respalda na imunidade que os diplomatas iranianos têm na zona” e “aproveitam muito especialmente a forma hospitaleira como são recebidos pelo presidente (da Venezuela Hugo) Chávez e dessa forma ingressam em todo o continente”, denunciou.

Para Yaalon, “o fato de que os passaportes iranianos não necessitam de visto para entrar na Venezuela, um país que rompeu relações com Israel em 2009 pela situação de Gaza, lhes abre as portas para entrar em toda a América Latina”.

Consultado, disse não ter indícios de vinculação entre esses supostos terroristas iranianos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

O vice-primeiro-ministro indicou também que não entende por quê o MERCOSUL, o bloco econômico formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai (com Venezuela em processo de adesão), pretende firmar em 20 de dezembro um acordo comercial com a Palestina. “Qual é o significado especial do acordo entre o MERCOSUL e a Palestina, quando a única coisa que os palestinos exportam são atos de terrorismo e mísseis?”, se perguntou.

Não obstante, lembrou que seu país tem esse mesmo convênio com os quatro países em separado e com o bloco em seu conjunto, e detalhou que em sua visita ao Uruguai, o país que tem a presidência semestral do grupo, pretendeu explicar às autoridades locais sua visão sobre a situação no Oriente Médio. “Tenho a esperança de que com meu vínculo aqui, possamos estender pontes para chegar a uma posição comum nisto”, salientou.

Yaalon referiu-se também ao ataque perpetrado contra a Embaixada do Reino Unido em Teerã, como uma demonstração de que “o inimigo não é o Estado de Israel, senão o mundo ocidental, o mundo livre”. Ademais, advertiu que Israel pretende “convencer” o regime iraniano de anular seu suposto plano armamentista com energia nuclear, “mas se isso não for possível, realizará pressões para que os iranianos decidam se querem criar a bomba nuclear ou existir como Estado”.

Por outro lado, sobre as eleições realizadas este ano no Egito, Marrocos e Tunis, disse que “a democracia não começa nem termina com eleições, senão com a educação”.

“Estávamos muito alentados de ver na praça Tahrir, do Egito, pessoas que falavam das liberdades de expressão, individuais, das mulheres. Esses são fatores democráticos mas perderam nas eleições”, lamentou Yaalon, que comparou o ocorrido com a revolução iraniana de 1979.

 

Editorial do Noticiero Digital – http://www.noticierodigital.com

Tradução: Graça Salgueiro

Fonte: Mídia Sem Máscara