A política cearense em tempo de eleição

Os arranjos novelescos que antecedem uma vitória quase que por W.O.

por Bruno Pontes

Enquanto as candidaturas de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) formam dois blocos relativamente bem definidos, os partidos no Ceará movimentam-se alheios aos posicionamentos tomados em âmbito nacional. Presidente estadual do PSB, partido prestes a embarcar oficialmente na coligação pró-Dilma, o governador Cid Gomes deve apoiar, mesmo que informalmente, a reeleição de Tasso Jereissati (PSDB) ao Senado, ele que é um dos mais destacados opositores ao governo Lula naquela Casa.

Sem candidato próprio ao Governo, o PSDB deve acompanhar Tasso no apoio à reeleição de Cid. A parceria entre o senador tucano e o governador socialista causa rebuliço entre os petistas cearenses, assombrados pela entrada em cena de Tasso ao lado do governador que eles ajudaram a eleger em 2006.

Na chapa de Cid ao Senado, o PT quer José Pimentel e Eunício Oliveira (PMDB). Na última sexta-feira, diretórios petistas do Interior reuniram-se para marcar posição: para eles, o PT deve romper com o PSB caso Cid endosse a reeleição de Tasso. Não se sabe em qual medida a reivindicação dos companheiros interioranos pode encontrar eco no comando do partido, presidido pela prefeita Luizianne Lins. Mas o fato é que o PT tem feito articulações com o fim de construir um arranjo eleitoral paralelo, a ser acionado em caso de necessidade.

Opção PR

Luizianne e outros líderes petistas já tiveram conversas com o PR do ex-governador Lúcio Alcântara. Caso Cid deixe Pimentel de fora (o governador já manifestou-se a favor de Eunício), os petistas aliam-se a Lúcio numa dobradinha que pode configurar-se com a candidatura deste a governador e Pimentel a senador, ou vice-versa. A possibilidade deste cenário foi comunicada ao jornal O Estado pelo filho de Lúcio, deputado federal Léo Alcântara (PR), em entrevista no início deste mês.

Na posse como presidente estadual do PT, em fevereiro passado, e tendo Cid ao seu lado no palanque, Luizianne declarou que o partido tem por missão em 2010, além de eleger Dilma, colocar Eunício e Pimentel no Senado. Deve ser considerado que a candidatura do ex-ministro da Previdência é de interesse do presidente Lula, o que pode levar o PT cearense, no fim das contas, a recorrer ao PR. O partido de Lúcio, que foi governador pelo PSDB, integra a base do governo Lula e já declarou oficialmente apoio a Dilma. Ilário Marques, ex-prefeito de Quixadá, membro da executiva estadual do PT, declarou recentemente que ele próprio e Pimentel são nomes viáveis para uma eventual candidatura própria ao Governo.

Sem oposição

Marchando nacionalmente para levar José Serra à Presidência da República, o DEM, no Ceará, arruma a casa para entrar na coligação em favor da reeleição de Cid. O presidente estadual do partido, Chiquinho Feitosa, recentemente afastou da cúpula correligionários que batalhavam para manter o partido na oposição ao governador. O sociólogo Ruy Câmara, destituído da vice-presidência, saiu atirando: em nota divulgada à imprensa, acusa Feitosa de seguir um “plano irresponsável e inconseqüente” para “esfacelar o que ainda poderia restar de forças de oposição no Ceará”.

Ele chama atenção para o fato de que a eleição caminha para ser uma das vitórias mais fáceis da história da República, visto que, até o momento, só existe a modesta candidatura da desconhecida Soraya Tupinambá (PSOL) para confrontar Cid nas urnas. “A imprensa já noticia que no Ceará não haverá disputa eleitoral na forma tradicional porque os pré-candidatos aos cargos majoritários não querem disputar as eleições; o que querem é ser ungidos por acordos prévios de gabinete para os cargos de governador e de senadores”, acrescenta Câmara.

Fonte: Jornal O Estado