O que o homem uniu

Francisco Razzo 

Se os votos do casamento fossem indissolúveis, não haveria discussão acerca dos presumidos direitos ao casamento homoafetivo. Ninguém mais faz votos para a vida toda, e os laços matrimoniais são frouxos justamente para que nos seja mais fácil desatá-los, quando for conveniente. Assim, a ideia de que o casamento é só um contrato não pretende outra coisa senão estabelecer o critério da frouxidão, isto é, um pacto que não traz nada de sagrado, santo e religioso, mas tão somente um acordo firmado entre duas pessoas cuja característica essencial não é outra senão a possibilidade de ser rescindido sem nenhuma dificuldade e prejuízos das partes. O que o homem uniu, qualquer um separa.

Ademais, tratamos o casamento homoafetivo como uma conquista dos direitos civis. Se todos são iguais, por que só os casais heterossexuais podem firmar este pacto? O argumento é simples: a família muda com o tempo, portanto a velha estrutura mãe, pai e filhos já não representa a célula originária da sociedade, pelo contrário, representa o atrasado, a tradição, o sistema e mais alguma coisa de ruim, de fundamentalista, de obscurantista e medieval. Sendo o estado laico, a religião já não determina os fundamentos desse e de qualquer outro contrato.

Há quem faça desse tipo de raciocínio o centro da agenda política a partir do qual se resolveriam as desigualdades sociais. Afinal, os casais homossexuais são bem mais “descolados” e, por isso, “contribuem menos para a transmissão de desigualdades na estrutura social!”. Deste modo, a luta pelo direito da união homoafetiva torna-se uma verdadeira bandeira política. Em vista disso, então, contrariando tudo o que se poderia imaginar na história da humanidade, a religião é jogada para o mais íntimo dos foros na medida em que a sexualidade emerge no centro do cenário político.

Todavia, um dos traços característicos da atividade política no ocidente sempre foi a distinção fundamental entre “esfera pública” e “esfera privada”: o que é de casa fica em casa, do portão pra fora tratamos como bem comum, como coisa pública; com efeito, o maior bem público de uma civilização é o seu conjunto de leis, cuja compressão se dá por meio da razão e do bom senso. Ninguém pode deduzir dos seus caprichos pessoais o que ordenará a vida dos outros. Deste modo, beijos, seios de fora e afeto sexual como protestos não passam de inversões daquilo que antes garantiam a ordem na vida de uma sociedade: a razoabilidade. Visto que os dramas domésticos são os nossos piores fantasmas, estimou-se por deixar a perversão da vida íntima longe da praça pública.

Uma das razões pelas quais o casamento nunca esteve subordinado ao ato político — embora já esteve mais ligado a interesses de natureza social, econômica e política — é que seu fim não é outro senão o de formar uma família, dito de outro modo, gerar filhos. A saúde espiritual de uma sociedade depende fundamental disto: quando há filhos moralmente fortes, temos uma sociedade moralmente forte. Quando a família é psicologicamente bem estruturada, os filhos tendem a ser bem estruturados. O grande patrimônio de uma relação conjugal é a vida dos filhos. Além do mais, como filhos não brotam em árvores e não são trazidos pela cegonha, a própria transmissão da vida depende dos bons laços familiares.

Nesse caso, todo filho tem um pai e uma mãe, avôs e avós, bisavôs e bisavós, às vezes tios e tias, primos e primas. Um filho não é uma abstração, mas uma pessoa real determinada, em última instância, por relações familiares. Sendo assim, a realização familiar – e, consequentemente, a realização de uma sociedade – depende da participação pessoal na construção dessa memória histórica. Por conseguinte, família tem a função de gerar, proteger e preparar moralmente os filhos. Família não é um dado da cultura, mas da natureza; em outras palavras, é o ponto de intersecção entre a natureza e a cultura, cujo fundamento não pode ser reduzido ao afeto sexual.

Por fim, é ingênua a noção de que cabe ao estado reconhecer o casamento gay. Quem reconhece um casamento são as famílias dos nubentes e a própria comunidade civil. A noção de que o estado deva reconhecer o casamento é um contrassenso derivado da confusão entre “estado” e “sociedade civil”. E o problema não tem nada a ver com o fato de o estado ser ou não laico. A expectativa de que cabe ao estado, por meio de suas instituições, reconhecer o casamento pressupõe que o estado precede a família, não obstante seja a família que precede o estado. Em suma, deve-se lutar não pelo reconhecimento do casamento homossexual, mas pelo processo de desestatização do próprio casamento.

Fonte: Jornal Cidade Piracicaba 

Bruno Garschagem entrevista Olavo de Carvalho

Podcast MISES BRASIL

Num passado recente, muitos liberais e libertários chegaram até as obras de Mises, especialmente ao livro Ação Humana, pelas referências elogiosas feitas em seus textos pelo filósofo Olavo de Carvalho. Em seu site, não é de hoje que Mises faz parte de uma selecionada galeria de homens de ideias identificados como seus gurus intelectuais (“Depois que você lê von Mises é que você percebe como os outros economistas são confusos”). Num texto publicado em 1998 na extinta revista República, Olavo afirmou que Mises talvez tenha sido o economista mais filosófico que já existiu. 

No Podcast do Instituto Mises Brasil desta semana, o filósofo explica qual é a dimensão filosófica e qual a grande virtude da obra de Mises, expõe as bases de sua crítica ao intervencionismo, comenta o problema da estrutura expansionista do poder a partir da tese de Bertrand de Jouvenel e, ao analisar a amplitude do estado moderno, apresenta um quadro que pode ajudar a entender uma parte das manifestações que tomaram as ruas do Brasil nas últimas duas semanas, muito embora a entrevista tenha sido gravada antes dos protestos. “Hermann Rauschning, em seu livro Revolução do Niilismo, diz que o estado moderno se tornou uma máquina tão abrangente e complexa que não haverá mais revoluções populares, só haverá revoluções desde cima. Isso é batata. Nos Estados Unidos, o Obama está fazendo uma revolução desde cima e o PT no Brasil está fazendo uma revolução desde cima. Primeiro eles tomam o poder por via legal, controlam todo o estado, e depois incitam a massa militante contra poderes locais. E o poder estatal cresce às custas dos poderes independentes locais. É sempre assim: elimina-se os poderes intermediários e centraliza-se tudo”. 

Olavo também apresenta a sua concepção de liberdade e defende a importância de uma ordem social para garanti-la, e disseca a ideia central do socialismo/comunismo, além de apontar os perigos e riscos ainda existentes pelo trabalho eficiente de seus representantes. “A ideia socialista tem que ser varrida da face da terra, tem que ser eliminada, como tantas outras ideias e teorias malucas que foram eliminadas. Hoje em dia quem é que vai defender seriamente uma ideologia racista? Não dá. Se o cara começa a defender racismo, já se sabe que é maluco. O socialismo tem que virar uma ideia diante da qual as pessoas vão rir no futuro”.

 

Fonte: Instituto Ludwig Von Mises