A grande Alemanha, um sonho esotérico

Entrevista com Giorgio Galli a respeito das raízes ocultistas do nazismo, que estão entre as fontes da idéia de que o “espaço vital” do Terceiro Reich deveria chegar até os Urais. Um aspecto pouco estudado pelos historiadores, do qual se voltou a falar depois da queda do muro de Berlim.

Paolo Mattei

O professor Giorgio Galli não se considera apto a avaliar o esoterismo “por dentro”. Mas é um reconhecido estudioso do tema. A posição que assume, em suas palavras, “é a de um historiador e politólogo que considera que a cultura esotérica se entrelaça com a historiografia e as ciências políticas mais do que essas disciplinas consideraram até hoje”. Foi também com esse posicionamento que estudou a história do Terceiro Reich, publicando o resultado de seu trabalho num livro de 1989 que se tornou famoso: Hitler e il nazismo magico. Le componenti esoteriche del Reich millenario (Milão, Rizzoli). Galli enxerga coincidências significativas no ano de 1989: é o centenário do nascimento de Hitler, mas também o bicentenário da Revolução Francesa. Como explica no prefácio à segunda edição do livro, “esse ano de 1989 entraria para a história graças à revolução no Leste: exatamente um século depois do nascimento do Führer, caía o muro de Berlim, premissa de uma Alemanha novamente unida, potência hegemônica na Europa”.

Depois de quinze anos e de tantos fatos, depois da tragédia de 11 de setembro de 2001, estopim para guerras que continuam até hoje, a história de violência e morte da qual Hitler e o nazismo foram protagonistas continua a suscitar perguntas inquietantes, e a impor-se como parâmetro para medir a violência e a morte que todos os dias se espalham pelos lugares do mundo martirizados pelos conflitos. O possível subs­trato ocultista, mágico e esotérico do nazismo desperta o interesse de muita gente. A televisão tratou do tema várias vezes, e neste último ano ao menos dois livros tiveram razoável difusão na Itália de Giorgio Galli (Marco Dolcetta,Nazionalsocialismo esoterico, Roma, Cooper Castelvecchi, 2003; Mel Gordon, Il mago di Hitler. Eric Jan Hanussen: un ebreo alla corte del Führer, Milão, Mondadori, 2004).

Dirigimos algumas perguntas ao historiador, autor, entre outros ensaios sobre esoterismo e política, de La politica e i maghi (Milão, Rizzoli, 1995), Politica ed esoterismo alle soglie del 2000 (Milão, Rizzoli, 1992) e Appunti sulla new age (Milão, 2003), obra na qual analisa esse movimento cultural a partir também de documentos pontifícios.

Em seu ensaio sobre o Nazismo mágico, o senhor identifica uma “ponte esotérica” entre a Inglaterra e a Alema­nha, entre teorias e sociedades esotéricas e ocultistas presentes nas duas nações na passagem do século XIX para o XX. Essa ponte chegaria até os fundadores do nazismo. Como seria isso?

GIORGIO GALLI: Entre o final do século XIX e o início do século XX, as tradições esotéricas ganharam novo vigor tanto na Alemanha quanto na Inglaterra. Efetivamente, uma “ponte esotérica” entre os dois Estados, a ponte da Ordem Rosa-cruz, remonta já ao século XVII, inserida no quadro de uma cultura ocultista que não foi estranha à Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Alemanha. Nas últimas décadas do século XIX, as relações entre os grupos esotéricos ingleses e alemães recobram sua força, e estabelecem-se laços estreitos entre pessoas influentes – baseados numa concepção “mágica” da realidade -, laços que se transmitem por algumas gerações. Há também elementos inquietantes nessa reconstituição. Um deles consiste na chamada “magia sexual”, ou seja, a conquista de poderes “especiais” derivados de práticas sexuais: em 1888, ano seguinte ao da fundação da Hermetic Order of the Golden Dawn, Londres foi agitada por uma série de crimes sexuais, cometidos por Jack, o estripador. O mistério a respeito dele dura até hoje. Alguns personagens e algumas relações marcam significativamente essa reimersão da cultura esotérica na Europa, como o encontro, em Londres, entre o ocultista francês Eliphas Levi, pseudônimo bíblico de Alphonse-Louis Constant, um ex-seminarista que depois se tornou revolucionário em Paris em 1848, e Edward Bulwer-Lytton, que teria um papel crucial no desenvolvimento da sociedade Rosa-cruz na hermética Golden Dawn. Depois de várias peripécias, entre atividades políticas e ocultistas, Levi escreveria um livro, A raça vindoura: nele, o autor fala do “Vril”, a forma de energia que viria a dar o nome a uma sociedade que, ao lado da atividade do fundador do Instituto de Geopolítica de Berlim, Karl Haushofer, forneceria uma contribuição fundamental para a elaboração da ideologia nazista, no que diz respeito à idéia de raça ariana e de “espaço vital”, o Lebensrau­m.

Qual é o precedente cultural e quais são as teorias comuns a esses grupos?

GALLI: Em primeiro lugar, uma concepção segundo a qual a história que conhecemos é apenas uma parte da história da humanidade. Só algumas elites de iniciados conhecem “toda” a história. A história antiqüíssima de civilizações puras e incorruptas. Esse saber e esses conhecimentos, dos quais é possível haurir mediante práticas e ritos ocultistas, transmitem um poder particular aos iniciados, que devem desempenhar também um papel político para administrar o futuro de uma humanidade decaída cujos dotes e características perdidos com o tempo é preciso restituir. Os componentes dessa sociedade se consideram depositários de uma antiga sabedoria primordial, que se manifesta muitas vezes em ritos particulares. Um fato interessante é que alguns adeptos de grupos esotéricos ocupam funções também nos serviços secretos de seus países. Um personagem chave, nesse sentido, é o alemão Theodor Reuss, da sociedade ocultista Ordo Templi Orientis, mestre do inglês Aleister Crowley. Crowley, também mestre do ocultismo e ao mesmo tempo agente do serviço secreto inglês, no final do século XIX adere à célebre Golden Dawn – uma derivação, como eu já disse, da Sociedade Rosa-cruz – e depois funda uma seção inglesa da Ordo Templi Orientis. A Golden Dawn, por sua vez, está ligada a associações alemãs conectadas à doutrina secreta da russa madame Elena Blavatskij – fundadora da Sociedade Teosófica, em Nova York, em 1875 – e à antroposofia de Rudolph Steiner.

Mas a história de Hitler e do nazismo se desenvolve depois desses episódios…

GALLI: Minha hipótese é de que essa “ponte”, que, como expliquei, unia a cultura esotérica, as ordens herméticas e os serviços secretos ingleses e alemães entre os séculos XIX e XX, tenha continuado a existir também no período imediatamente posterior, de modo tal que a formação intelectual de Hitler e de parte do grupo dirigente nazista se dá nesse tipo de cultura ocultista. Reuni dados que me permitem dizer também que esse grupo, que chegou à cúpula do Terceiro Reich, discute em seu âmbito como pôr em prática uma estratégia derivada daquela cultura, ou seja, a reconquista da “sabedoria ariana”. Da mesma forma, tenho condições de afirmar que a decisão de Hitler de entrar em guerra, convicto de que a Inglaterra não interviria, possa ser compreendida na ótica daquela cultura esotérica, a respeito da qual ambientes na cúpula da vida política inglesa estavam também informados. Toda a história do nazismo, a meu ver, deve ser lida levando em conta esse fator também.

De que forma Hitler entrou em contato com as experiências esotéricas? Quem foram seus mentores?

GALLI: O ponto de referência i­nicial pode ser a revista Ostara, da qual Hitler foi leitor assíduo, nos anos que passou em Viena. A publicação – que leva o nome de uma antiga deusa germânica da primavera, denotando, portanto, a ligação com a tradição nórdica e com as velhas divindades pagãs anteriores à difusão do cristianismo na Alemanha – foi fundada em 1905 por um ex-frade, Jörg Lanz von Liebenfels, que, entre outras coisas, instituiu uma sede em Werfenstein, o “Castelo da Ordem”, onde provavelmente, com o apoio financeiro de industriais, começou a patrocinar uma organização baseado na teoria da superioridade da raça ariana. Outro ponto de referência para a formação esotérica do futuro Führer é Rudolf von Sebottendorff, estudioso da cabala, de textos alquímicos e rosa-crucianos e das práticas ocultistas dos dervixes, e promotor, em Munique, no ano de 1918, da Thule Gesellschaft, associação derivada da Germanorden, uma sociedade que nasceu nos primeiros anos da década de 1910, fortemente caracterizada por elementos de anti-semitismo e racismo. Ao redor da Thule gravitaram Hitler, Rudolf Hess, Karl Haushofer e Hans Frank, o futuro governador-geral da Polônia. Era uma associação na qual dominavam a cultura ocultista e as doutrinas secretas amadurecidas nas décadas anteriores. A Thule – a mítica Atlântida, pátria dos hiperbóreos – foi, portanto, a matriz do grupo de intelectuais que está na origem do nazismo. Von Sebottendorff, além disso, publicou um livro em 1933, Antes que Hitler chegasse, no qual, desejando reacender o debate em torno das origens esotéricas do nazismo, conta ter sido o mestre ocultista do Führer. Mas aquele grupo de intelectuais, então já no poder, decidira havia tempo que era conveniente manter ocultos os elementos esotéricos e ocultistas a que fazia referência, para pôr em primeiro plano a organização política. Hitler, no ano da publicação do livro de Von Sebottendorff, já era chanceler do Reich. O ensaio, por isso, foi retirado das livrarias.

Quais são as características fundamentais do grupo esotérico a que Hitler faz referência?

GALLI: É preciso dizer como premissa que uma das dificuldades quando se trabalha neste campo é o fato de que a historiografia oficial, a historiografia acadêmica, ocupa-se pouco dessas coisas. O trabalho sobre o setor da cultura esotérica é deixado às vezes a estudiosos minoritários ou até a personagens muito extravagantes, que de qualquer forma elaboram freqüentemente pesquisas marginais. O fato de a historiografia oficial não se empenhar nessa direção torna mais difícil o encontro de documentos seguros. Estou convencido de que, se houvesse mais interesse, alguma coisa se encontraria. Mas respondo a sua pergunta. Mencionei civilizações e patrimônios sapienciais antiquíssimos – a Atlântida é a referência mais importante -, um componente cultural baseado na história fantástica, na geografia fantástica, na cosmogonia fantástica e nas leis ocultas que as guiaram. Hitler considera que as razões fundamentais de sua ação política se encontram nesse passado distante, numa sabedoria mágica que deve ser recuperada e na qual está o instrumento para forjar o futuro luminoso. O grupo de intelectuais da Thule, que na década de 1920 decide transformar a seita ocultista em partido político de massas, crê convictamente nessas coisas. Existem, portanto, duas dinâmicas: a profunda convicção dos iniciados que trabalham nesses grupos e, ao mesmo tempo, uma certa influência que eles, por motivações amplamente aprofundadas pelos estudiosos, exercem em alguns momentos históricos sobre os movimentos políticos. Hitler, Himmler, Hess, Rosenberg, Frank: eles se consideram os herdeiros de uma sabedoria antiga que lhes permitirá serem construtores de uma nova civilização. Deve-se dizer que até um historiador muito admirado e “tradicional” identificou e valorizou alguns desses filões esotéricos: foi George Mosse, que, nas Origens culturais do Terceiro Reich, aponta explicitamente para o esoterista Guido von List e sua simbologia rúnica como um dos pontos de referência de Hitler. Das runas estudadas por Von List provém a sigla das SS, as milícias que Himmler utilizará para pôr em prática seus projetos elaborados no âmbito da cultura ocultista.

Hitler é descrito muitas vezes como um homem ignorante, um homem sem qualidades. Como consegue se impor no grupo esotérico do qual faz parte?

GALLI: A tendência muito difundida a designá-lo como um ignorante caracteriza também o trabalho de Joachim Fest, o biógrafo do Führer, que foi consultor deste último filme sobre Hitler que saiu na Alemanha, Der Untergang (A queda). Fest compôs uma excelente biografia de Hitler, mas tende a representá-lo como um líder de batalhão e homem de poucas leituras, limitadas a opúsculos de propaganda anti-semita. Isso não é exato. Hitler leu Nietzsche e Schopenauer. Ele se destaca no grupo de Rosenberg, Hess, Himmler e Frank porque possui duas características que podem até prescindir da cultura esotérica. É um orador extremamente eficaz e um hábil organizador. Talvez tenha aprendido com o mago Hanussen a primeira característica, a forma quase hipnótica de se comunicar com os ouvintes. Sabemos, com segurança, que Hitler tomava aulas de dicção com Hanussen. Mas aprendeu alguma coisa a mais daquele mago. Hanussen era um personagem dotado de capacidades hipnóticas, e o livro de Mel Gordon reconstrói bastante bem essa história. Em Mein Kampf, Hitler propõe, além de uma ideologia esotérica, também programas precisos de organização, que dão a idéia de que foram elaborados por um bom político. Himmler, o burocrata do extermínio, tem características organizativas semelhantes, mas não é de modo algum um bom comunicador. Tal como Hess também não é. Rosenberg é apenas um escritor muito eficaz… Desse grupo ligado à cultura esotérica, ninguém tinha, enfim, os dois dotes específicos que Hitler possuía.

No Mein Kampf são indicados os objetivos prefixados por Hitler: a criação de uma Eurásia de fronteiras orientais indefinidas, um “condomínio” mundial com a Inglaterra…

GALLI: Sim, é uma estratégia esotérica, na qual se entrelaçam ocultismo e geopolítica. Haushofer é quem elabora as teorias relativas ao “espaço vital”. Baseado em considerações místicas e espirituais que identificam a nação alemã como o centro do mundo, mas também fazendo referência a outros teóricos de geopolítica – como o inglês Halford John Mackinder, que havia identificado a Europa Oriental e a Rússia européia como o “coração da terra” -, Haushofer está convencido de que para reconstituir a civilização ariana seja preciso construir uma grande área que vá da Europa Ocidental aos Urais. O espaço vital – o Lebensraum – da nova sociedade ariana. A Alemanha é o fundamento dessa organização geopolítica que prenuncia a criação de uma nova civilização e de um homem novo que recupere as antigas virtudes perdidas. Os judeus, que têm um sonho hegemônico mundial contraposto a este, são marginalizados e, depois, eliminados. Portanto, o Drang nach Osten nasce desse projeto de natureza esotérica.

Mas há homens na cúpula do Terceiro Reich que não compartilham da mesma cultura de Hitler e de seus companheiros…

GALLI: É verdade, mas eles também são influenciados pelo ocultismo: o pragmático Göring interessa-se pela teoria da “terra oca”, Goebbels fica intrigado com Nostradamus… De qualquer forma, Goebbels e Göring compartilham o programa de Hitler justamente porque, de um modo ou de outro, são sugestionados por suas convicções esotéricas.

Chegamos à viagem de Hess à Escócia, em maio de 1941. Essa travessia acontece também sob signo esotérico…

GALLI: O projeto de condomínio com a Inglaterra, com base no Lebensraum como premissa para a construção de uma nova humanidade, nunca foi deixado de lado, nem mesmo depois do início da guerra, quando ficou evidente que a previsão de neutralidade da Grã-Bretanha não se havia realizado. A “ponte” ainda estava de pé. O episódio da prisão dos tanques alemães em Dunquerque, em 1940, que permitiu a fuga dos anglo-franceses, pode ser interpretado também com essa chave de leitura: seria uma tentativa de chegar a um acordo com os interlocutores esotéricos presentes na Ilha. Em 10 de maio de 1941, Hess voa para a Escócia para tentar convencer esses interlocutores a não intervirem no momento da invasão da URSS. Provavelmente, quer encontrar os herdeiros de sociedades do tipo da Golden Dawn, com os quais se pode discutir, e que têm relações com a Família Real. Seja como for, é o duque de Hamilton que Hess busca, sem dúvida. Ele é uma pessoa de confiança do rei da Inglaterra. É filonazista e há muito tempo tem relações com Hess e a cúpula do Reich. A decisão dessa viagem nasce provavelmente depois de um debate na cúpula esotérica nazista; portanto, é plausível que Hitler estivesse a par dela. A operação recebe a cobertura de um maciço esquema de desinformação. Mas Hess e os nacional-socialistas se iludem: aquela “ponte” ainda existe, mas já está fraca demais para permitir que passe por ela uma espécie de acordo entre a Alemanha e a Inglaterra a respeito do Drang nach Osten. Em maio de 1941, os aristocratas ingleses também já estão “resig­nados” a declarar guerra contra a Alemanha.

Em seu livro, o senhor explica como Hitler procura chegar a um acordo com a Inglaterra até o último minuto.

GALLI: Sim. Depois da derrota na Rússia, Hitler, em vez de tentar combater a contra-ofensiva russa, desloca as divisões blindadas do front oriental para o ocidental. A tática é sempre a mesma: “Obrigar a Inglaterra à paz pela força”, como ele mesmo parece ter dito. Hitler acredita até o fim que aquela “ponte” esotérica possa ser reconstruída.

Como é possível que a partir de experiências esotéricas se consiga chegar a um poder tão grande como o que detiveram Hitler e seus sócios na Alemanha?

GALLI: Eu sempre procurei evitar privilegiar exclusivamente a chave de leitura do esoterismo para explicar determinados fatos. Como eu já disse, certamente esse é um aspecto importante e negligenciado. Mas Hitler chega ao consenso por razões que a historiografia já estudou abundantemente e que eu não ponho em discussão: a humilhação alemã depois da Primeira Guerra Mundial, as frustrações que derivaram da derrota e do Tratado de Versalhes, a crise econômica de 1929, que produz 6 milhões de desempregados, a política de Weimar, que não consegue exprimir uma resposta eficaz a esses problemas. Essas são as principais razões que permitem a Hitler tomar o poder. Hitler consegue enfrentar o desemprego mesmo antes do rearmamento, por meio de grandes obras públicas, aceitando os conselhos do financista e político Hjalmar Schacht, que é um keynesiano. Por outro lado, Hitler, noMein Kampf, apresenta um projeto político que têm aspectos normais, como, justamente, a luta contra o desemprego.

August von Galen, bispo de Münster durante o período nazista, definido peloNew York Times como “o opositor mais obstinado do programa nacional-socialista anticristão”, falou do nazismo como um “engano religioso”…

GALLI: De certa forma, é mesmo. Pio XI também demonstrou sua forte preocupação por meio da publicação da Mit Brennender Sorge. Ele falava do neopaganismo. Na realidade, pode-se falar de algo mais que o neopaganismo. Todas as cerimônias nacional-socialistas seguem um modelo religioso: as luzes, o Führer que aparece como uma revelação mágica. Todas têm um caráter de liturgia mágica.

Parece que Churchill, o grande opositor dos programas esotéricos do Führer, também não desdenhava da companhia dos ocultistas…

GALLI: Em meu livro La politica e i maghi, eu explico como até mesmo Churchill acreditava em videntes. Churchill era um conservador absoluto e um anticomunista absoluto. Não nos esqueçamos de que colaborou com o Popolo d’Italia de Mussolini. Em sua visão de mundo, só os povos de língua inglesa estão à altura da democracia. Para os outros povos, serve qualquer forma de regime. Para ele, a história do Ocidente coincide com a história dos povos anglófonos. Hitler, portanto, poderia até tê-lo agradado, como agradava a certos setores conservadores da sociedade inglesa. Mas, a meu ver, Churchill tinha relações com sociedades esotéricas que lhe haviam fornecido certo número de informações relativas à “contra-iniciação do Führer”.

Como assim?

GALLI: Na cultura esotérica, existe uma diferença fundamental entre “iniciação” e “contra-iniciação”. A iniciação – a maçônica, para dar um exemplo claro – seria positiva. A contra-iniciação, por sua vez, teria algo de diabólico: Churchill ficou sabendo que Hitler era um “contra-iniciado”. Churchill, portanto, estando a par do precedente “esotérico-diabólico” da contra-ini­ciação de Hitler, temia que, por trás dos objetivos negociáveis – mão livre na Europa e no Leste da Alemanha e garantia de continuidade do Império inglês -, que provavelmente ele poderia aceitar, houvesse objetivos não negociáveis: o império do mal. Hitler não queria apenas um império de tipo geopolítico. Queria um império sobre as consciências, baseado numa série de valores que até o conservador anticomunista Churchill via como negativos e inegociáveis. O fato é que a profecia de Hitler sobre o fim do império britânico substancialmente se realizou. Hitler profetizou que Churchill destruiria o império inglês e entregaria o cetro imperial aos Estados Unidos.

Uma última pergunta, professor. René Girard disse recentemente numa entrevista que “o desprezo nazista pela ternura cristã para com as vítimas não tem origem na história”. O professor francês afirmou também temer que “no futuro alguém tente reformular o princípio de maneira mais politicamente correta, talvez revestindo-o de cristianismo”. O que o senhor diz disso?

GALLI: Girard é um grande estudioso, documentado e de intuições muito ricas. Creio que seja possível pensar num nazismo “revestido de cristianismo”, mesmo porque o nazismo, com suas características específicas, é irrepetível. Eu não acredito que a democracia representativa possa ser posta em crise por movimentos autoritários como os das décadas de 1920 e 1930. Existe, porém, o risco de que nas democracias ocidentais se mantenha a forma da democracia, sem a substância. Os partidos já não serão postos fora da lei, as liberdades civis serão garantidas em certa medida, mas, ao mesmo tempo, pode haver o risco de que só restem as fórmulas da democracia e se elimine a substância. Poderia haver uma não-democracia disfarçada de democracia. Da mesma forma, a intuição de Girard é plausível: tal como é possível que uma antidemocracia se apresente com fórmulas aparentemente democráticas, do mesmo modo é possível que um anticristianismo que despreza as vítimas como fez o nazismo possa, na realidade, agir revestido de formas cristãs. Eu não gostaria de entrar demais num campo que não conheço, mas sei que existem, e são cada vez mais difundidas, publicações que exprimem tendências que eu creio possam ser definidas como “integralismo apocalíptico”. Essas tendências poderiam de alguma forma prefigurar um risco como esse de que fala Girard. Algumas das características isoladas que concorreram para a difusão do nazismo poderiam reaparecer nesse contexto.

Fonte: http://www.30giorni.it/articoli_id_5415_l6.htm#

Entrevista de Heitor De Paola a um grupo de alunos de Olavo de Carvalho

Vários autores

1- Como conciliar o ateísmo de Freud com sua cosmovisão, que, segundo se vê em teus escritos, é mais ampla?

Em primeiro lugar, o que se chama psicanálise atualmente é, na maior parte das vezes, puro charlatanismo. A psicanálise criada por Freud é hoje uma exceção. Possivelmente nada é mais fácil do que abrir um consultório, dizer-se psicanalista, o que ainda atrai muita gente – e fazer qualquer coisa, pois as pessoas que sofrem são muito suscetíveis a serem enganadas. A própria International Psycho-Analytical Association cria cursos em qualquer lugar, sem base no caráter dos indivíduos que aprova, transformou-se numa verdadeira ‘ação entre amigos’. Esta a razão pela qual eu saí de todas as instituições psicanalíticas.

Embora Freud tenha alertado que a psicanálise não servia para base de nenhuma weltanschauung, ele mesmo tentou fazer isto através de diversas críticas à moralidade e às religiões. Particularmente importam aqui os trabalhos Totem e TabuO Futuro de uma IlusãoA Civilização e seus Descontentes (também traduzida por O Mal Estar na Cultura), e Moisés e o Monoteísmo. A principal obra de Freud, que é a clínica, não é de jeito nenhum uma crítica à moralidade, mas uma interpretação das raízes psicológicas desta. Tenho dúvidas se Freud era mesmo ateu convicto ou lutava contra a tradição judaica ortodoxa na qual tinha sido criado. Ironicamente posso dizer isto baseado no que ele mesmo ensina: a revolta contra os pais e as autoridades como fonte de perturbações mentais! E ele era indubitavelmente uma alma torturada e, pessoalmente, extremamente conservador e rigidamente moralista. Estranho que a psicanálise é também acusada, por outras fontes, de levar as pessoas à acomodação e aceitação da autoridade.

Freud usava a palavra Seele, que pode ser traduzida por alma. Os tradutores ingleses Joan Riviere e mais tarde a tradução “oficial” de James e Alix Strachey, supervisionada por Anna Freud (The Standard Edition of the Complete Psycological Works of Sigmund Freud, em 23 volumes), traduziram por mente, às vezes por psiquismo, para evitar que a obra fosse vista como religiosa e não rigorosamente científica, preocupação que era também de Freud de que a psicanálise viesse a ser vista como uma religião judaica, daí escolher para primeiro Presidente da Associação Psicanalítica Internacional (fundada em 1910) um suíço-alemão com o qual tinha enormes divergências, Carl Jung. Da mesma forma Freud nunca usou os termos Ego, Superego e Id, masIch (eu), Überich (algo acima do eu) e Es (sem tradução por ser gênero neutro do alemão. O mais aproximado seria aquilo, ou isto, para se referir à fonte dos impulsos instintivos).

Em segundo lugar, Freud não foi o primeiro a falar em inconsciente, mas sim em inconsciente reprimido, conteúdos que já foram conscientes e, por serem ameaçadores, foram enviados para o inconsciente. Isto é um achado da clínica.

E é aí que eu entro: depois de muito refletir e ler as críticas de Popper e Merquior me dei conta de que as conclusões clínicas são totalmente independentes das estapafúrdias aplicações “científicas”. Sempre tive por norma usar o melhor que um autor tem para dar e deixar de lado o acessório. Convenci-me dos resultados clínicos pelo efeito que teve em mim e pela aplicação do método na minha clínica.

Também deve-se levar em consideração que grande parte do que se sabe da psicanálise é a aberrante interpretação – ou apropriação, como queria Erich Fromm – da Escola de Frankfurt, que a utilizou para uma crítica social anticapitalista e revolucionária.

2- Conte um pouco do seu passado como comunista e o que o levou a romper com a esquerda. O seu rompimento com o marxismo foi gradual?

A resposta a esta pergunta já está na introdução ao livro O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial. Mas a pergunta está bem colocada quando divide em dois rompimentos: com a esquerda, entendida como participação efetiva e ativa no processo revolucionário, e com o marxismo, entendido como cosmovisão.

O primeiro se deu mais rapidamente e dependeu de dois fatores: jamais aceitei a luta armada e tão logo a organização à qual eu pertencia, a Ação Popular, aderiu a ela, pulei fora. O segundo fator é mais importante: a AP, fundada em 1963 pelo líder “católico” da JUC (Juventude Universitária Católica) Herbert José de Souza, o Betinho, e o padre jesuíta Henrique Vaz, apresentava-se como uma opção para os que se iludiram com o socialismo, mas recusavam o materialismo e ateísmo do Partido Comunista Brasileiro, além de sua total submissão a Moscou. A análise da sociedade pelos fundadores e primeiros líderes, como Aldo Arantes e Vinicius Caldeira Brandt, era baseada na obra de Jacques Maritain e principalmente Teilhard de Chardin. Mas o que não se conhecia naquela época era a totalidade da obra deste último e o compromisso com umaweltanshauung materialista, embora travestida de religiosa (para uma excelente compreensão de Teilhard, lerTeilhardism and the New Religion, de Wolfgang Smith).

Embora não sendo católico eu recusava o comunismo soviético e encontrei no “Documento Base” da AP um vigoroso socialismo humanista. Fui dos primeiros a aderir, já em 63 mesmo, saindo na Juventude Trabalhista, onde atuei desde a ‘Campanha da Legalidade’ em 1961, que era apenas oportunismo brizolista. A AP cumpriu seu papel empolgando a juventude estudantil a ponto de rapidamente conquistar a UNE (Aldo e Vinícius já a tinham presidido e Serra foi eleito em 63) e a UBES, além da maioria das UEE’s. Na medida em que eu crescia dentro da hierarquia eu começava a desconfiar que estivesse comprando gato por lebre, até que como Vice-Presidente da UNE (1965) tomei conhecimento de que aquele “Documento Base” não passava de um engodo que escondia outro documento, baseado nas teorias de Mao Zedong, Vo Nguyen Giap, Ho Chi Min, Che Guevara entre outros menos votados. Pois a adesão à luta armada já estava prevista desde o início! A mentira e o ódio travestidos de bondade em relação aos pobres e “excluídos” são as tônicas da mentalidade revolucionária.

Abandonado o ativismo, veio a pior parte: o rompimento com o marxismo! Dediquei-me à minha vida profissional e familiar, mas continuava internamente marxista. Na próxima pergunta responderei sobre o delírio de interpretação revolucionário, mas já adianto que é uma perturbação terrível e de difícil cura. Só conheço os depoimentos claros e sinceros de três pessoas, além de mim mesmo: o Olavo, que vocês já conhecem, Whittaker Chambers (leiam Witness) e David Horowitz (leiam The Politics of Bad Faith). É preciso esclarecer aos mais jovens, que a “terrível ditadura militar” jamais se preocupou com a cultura, um erro gravíssimo que permitiu a entrada dos comunistas por este rombo imenso. Nas livrarias era fácil encontrar literatura comunista, mas nada de liberais e conservadores, até a nomeação de José Carlos de Azevedo para reitor da UnB, cuja Editora passou a editar livros de Hayek, Von Mises, Tocqueville, Stuart Mill, Berlin, Aron, que foram de grande utilidade para rever minha cosmovisão. Foi muito importante também a totalidade da obra de Karl Popper, começando pelo A Sociedade Aberta e seus Inimigos.

Porém, o mais importante foi sem dúvida uma introspecção moral que incluiu muita angústia e culpa. Neste sentido, minha análise pessoal foi extremamente importante. Também tive a sorte de iniciar minha vida profissional durante o governo Médici que, além do pleno emprego já reconhecido até por Lula, trouxe grandes progressos para o país. Percebi que aquela oposição tenaz aos governos militares era exatamente o oposto do que se dizia: ao invés de representar um movimento contra o progresso histórico, eles estavam levando o Brasil para frente.

Este segundo rompimento ocorreu de forma lenta e gradual. O conhecimento com o Olavo – iniciando-se pelo livro O Imbecil Coletivo que em alguns pontos parecia se dirigir a mim – abriu-me novas perspectivas e posso dizer que o rompimento final se deu a partir de então. As certezas fáceis da interpretação da estrutura da realidade através da dialética hegeliano-marxista foram substituídas pela perplexidade. Meu ateísmo materialista ruiu de vez.

3- O professor Olavo de Carvalho descreve a mentalidade revolucionária como uma variante do delírio de interpretação, de Paul Sérieux e o compara com uma doença psicológica transmissível. Com sua experiência na área da psicologia prática, como vê essa questão?

Como médico, prefiro usar os termos médicos precisos: doença transmissível é aquela que se transmite por um agente externo identificável. Portanto só as doenças infecciosas são realmente transmissíveis. Além disto, as perturbações mentais não são propriamente doenças. Esta denominação de ”doença” deriva do fato que a psiquiatria derivou da medicina, quando o mais certo seria dizer que os profissionais da área psi são herdeiros dos xamãs e exorcistas. Como conseqüência de que os delírios e alucinações, e outros transtornos mentais, são equivalentes às doenças físicas, desde que eu estou metido nisto há mais de 40 anos os laboratórios inventaram, e os psiquiatras acreditaram, aproximadamente uns 20 remédios mágicos para a cura definitiva da esquizofrenia, por exemplo. Todos duraram pouco mais de meia dúzia de anos e foram substituídos, algumas vezes com enormes prejuízos como, por exemplo, o Prozac. Este medicamente, inicialmente uma maravilha curativa, tornou-se um dos causadores de ondas de suicídio pela desilusão que causaram. Isto não significa que ser médico não seja importante para o profissional clínico da área, pois só a formação médica desperta o desejo de curar e a empatia com o sofrimento alheio.

Depois desta digressão, vamos lá. A interpretação delirante da realidade faz parte inevitável de nosso arcabouço mental normal e não é nem má, nem boa, depende do grau e da forma em como se manifesta. O ciúme do ser amado, fenômeno que ocorre com todos nós, inclui sempre certo grau de interpretação delirante que leva a desconfianças que podem ser infundadas. Quando você entra num quarto totalmente escuro é normal sentir medo. De quê? Ora, se não enxergo não há o que temer! Ocorre que a mente não tolera o desconhecido e logo começa a imaginar e geralmente a imaginação corre para o lado do horrível e ameaçador, pois é baseada em fantasias inconscientes mantidas reprimidas, mas que, frente ao desconhecido vêem à tona. Pode-se dizer que o desconhecido nos transporta para o início das nossas vidas, onde tudo era desconhecido realmente e, por isto, horripilante e amedontrador. Logo após o nascimento o ser humano tem que se deparar com sentimentos de desabrigo, fome, frio, necessidade de proteção, etc. A primeira respiração fora do útero – o berreiro – é extremamente dolorosa pela expansão súbita dos pulmões. Ocorre que o recém nascido não faz a mínima idéia do que se passa e, portanto, a sensação é de morte iminente, o que pode ou não ocorrer dependendo se for cuidado ou abandonado. Esta sensação persiste no inconsciente e se manifesta frente a qualquer situação desconhecida que se apresente na vida, sendo a base de todas as paranóias.

O delírio de interpretação no caso da mentalidade revolucionária é uma evolução patologicamente exacerbada de extrema gravidade e de difícil tratamento, pois ela cria o que os psicanalistas da escola inglesa denominam ”organização patológica da personalidade”. Frequentemente ela permanece enclausurada num núcleo psicótico que permite que a pessoa leve uma vida aparentemente normal nos demais aspectos, sendo reativada apenas quando se toca no motivo do delírio. Aí dizemos que a organização patológica é principalmente defensiva: frente a aspectos da realidade que não suporta conhecer, o sujeito reage imediatamente. Observem bem que existem pessoas com as quais você está falando sobre futebol, moda o quê seja e as coisas vão muito bem. Até que o assunto passa a ser político ou ideológico: a cara do sujeito muda, assume um ar de seriedade hostil, não encara mais o outro como se olhasse alucinatoriamente para uma terceira pessoa e passa a dar lições, dizendo que você não entende nada do assunto. É como um estado pós-hipnótico: ouvidas certas palavras o sujeito entra em transe e cumpre com as ordens do “Mestre”, já devidamente internalizado. É neste sentido que entendo a transmissibilidade: a ideologia revolucionária inclui destruir para depois construir. Destruir é já, construir quando for possível, geralmente fica para as calendas! O que atrai é exatamente esta promessa de destruição mobilizando um impulso que existe, em maior ou menor grau, dentro de todos nós, por isto é fácil ocorrer a transmissão que, em certos momentos da história, evidencia uma epidemia.

Um caso muito mais grave é quando esta organização patológica atinge toda a personalidade, englobando-a, formando assim uma patologia de caráter, eliminando todos os resquícios morais, sentimentos de culpa ou remorso, compaixão, amor, etc. Por exemplo: a pessoa “amada” torna-se apenas um objeto de prazer a ser oferecido aos companheiros.  O indivíduo passa a ser, ele próprio, uma máquina sem sentimentos. Tudo de que é capaz é de idealizar um chefe, um mestre, um führer.

4- Você tem planos de escrever algum livro especificamente sobre o islamismo, ao molde da série de artigos “subsídios para entender o Islã”?

Sim, como também outro sobre o “suicídio americano”. Mas, além da preguiça, há outro problema: quem vai editar? Há ainda um terceiro fator no livro sobre o Islam: medo! Estes fanáticos são extremamente perigosos, ser alvo de uma fatwa não é difícil.

Quanto mais eu leio o Corão e outros documentos islâmicos, mais me parece que o Islam não é uma religião, mas uma ideologia totalitária que, tal como o marxismo, pretende abolir todas as religiões substituindo-as pela submissão – aliás, este o significado da palavra árabe islam – completa e total submissão ao falso testemunho de um epiléptico paranóico dado a alucinações e delírios.

Uma única questão, só para exemplificar minhas dúvidas: como pode uma “religião do Livro”, que se diz respeitadora da Bíblia, negar um dos principais atributos dado por Deus aos homens, o livre arbítrio, base rudimentar bíblica de onde nasceu a noção atual de liberdade individual? (1)

5 – Como a ameaça do islamismo se dá no Brasil hoje? Há estudos seus aprofundados sobre o assunto sendo feitos no país?

De três maneiras, principalmente:

1- a invasão, digamos “oficial” de muçulmanos falsamente “moderados” que já contam com um número expressivo de adeptos principalmente em São Paulo.

2- pela incursão secreta de terroristas através da Tríplice Fronteira contando com o apoio financeiro e logístico da população árabe já instalada. Diferentemente do resto do Brasil onde a imigração árabe se deu predominantemente por parte de libaneses católicos ou maronitas, que convivem muito bem com as diferenças culturais e de credo, lá a imigração é preponderantemente de muçulmanos, muitos “palestinos” com passaportes falsificados de países árabes, ou do Irã.

3- pela invasão semi-aberta dos países do Foro de São Paulo, principalmente a Venezuela que já possui tratados militares com o Irã. Recentemente o MERCOSUL reconheceu a “palestina” como Estado Independente e o retorno de Israel às fronteiras de 1967, sugestão original de Obama que se tornou “palavra de ordem” anti-sionista.

Falei acima de falsamente moderados porque basta ler o Corão e alguns Haddithim para verificar que isto é impossível. Estes são apenas a ponta de lança da ofensiva, trazendo uma mensagem falsa de paz e, quando crescem suficientemente em número, entra o grosso da tropa (2). É a mesma coisa que acreditar que existe uma centro-esquerda moderada – social-democratas, por exemplo: seus objetivos são os mesmos, só varia a velocidade, como disse Chávez quando Lula foi criticado num Fórum Social Mundial em Porto Alegre: enquanto eu dirijo uma Ferrari, Lula só pode, por conveniência, dirigir um Fusca!

6 – Precisaremos colher informações na grande mídia e também tratar com desinformação e manipulações de toda espécie. Como especialista, você consegue identificar técnicas de psicologia sendo aplicadas pela mídia de massa para a modelagem comportamental e para a aceitação de um ideário útil aos grupos globalistas? Quais seriam estas técnicas, e o que deveríamos saber sobre elas?

Eu começara a escrever um artigo sobre a mídia, especificamente as Organizações Globo e a modificação do senso comum. Então sairão primeiro aqui as linhas gerais.

Recomendo um estudo aprofundado de Gramsci para entender o papel revolucionário da mídia. Sua participação é principalmente no sentido de atingir o “senso comum modificado”. Como já escrevi: “Até então, a conquista da hegemonia – entendida como aceitação e concordância das massas com o comunismo – era resultado da conquista do poder do aparelho político do Estado pelo “partido de vanguarda” e, depois disto, a imposição pela força da ideologia totalitária. Gramsci, percebendo a inutilidade deste esforço na URSS, onde a repressão era constante e tendia a se eternizar, inverteu a fórmula: é necessário conquistar a hegemonia antes da tomada do poder que, neste caso, viria a ser “indolor”, pois as massas já estariam pensando e agindo dentro das amarras comunistas do pensamento e a conquista do poder seria quase rotineira. Só então o poder político eliminaria todas as resistências “burguesas” com o pleno apoio das massas, previamente convencidas de que o governo é o seu legítimo representante. A importância dos intelectuais nesta tarefa de doutrinação das massas é fundamental. O foco de “classe” muda completamente dos proletários para os “intelectuais”, a nova “vanguarda revolucionária”. Não se trata de uma “revolução proletária”, mas sim de uma revolução dos intelectuais com os proletários a reboque. Gramsci simplesmente assume o que a revolução comunista sempre foi: uma revolução de elite travestida de popular”. Citei Olavo, com algumas alterações: “O conceito de intelectual, no entanto, sofre uma ampliação semântica: passa a ser a totalidade dos indivíduos, com qualquer nível de instrução que possam atuar na propaganda ideológica. Publicitários, jogadores de qualquer esporte, professores de qualquer grau, contadores, funcionários públicos graduados ou de estatais, profissionais da imprensa, do show business, sambistas, roqueiros. É impressionante a empáfia com que estes falam, ou melhor, pontificam sobre qualquer assunto e é incrível como a população dá tanta importância a eles permitindo que possam agir como agentes transformadores da consciência e do senso comum, popularmente conhecidos como ‘formadores de opinião’”.

A modificação do senso comum e o controle das consciências são assegurados pelo domínio sobre os órgãos educacionais e de informação. O objetivo é o controle do pensamento na própria fonte, na mente que absorve e processa as informações e a melhor forma de controlá-lo é modelar palavras e frases da maneira que sirvam aos propósitos hegemônicos. O controle da mente Ocidental, além do uso desonesto da linguagem e das informações, é feito também através da desmoralização proposital do Ocidente por ataques corrosivos contra as instituições, promovendo ativamente o uso de drogas, o agnosticismo, o relativismo moral e cognitivo, a permissividade e o estímulo às transgressões (palavra mágica altamente sedutora, principalmente para os jovens) e ataques concentrados à família tradicional, promovendo o aborto, as famílias “não-tradicionais” e as “novas sexualidades”. Analisando a programação da TV Globo há muito tempo, citarei dois exemplos apenas para não ficar muito grande, pois a lista é infinita porque a tendência aos ‘avanços da modernidade’ significa a maior exposição possível de aberrações:

Há anos a mais pérfida, deletéria e cruel atuação contra nossas crianças vêm da apresentadora Xuxa, com seus programas, filmes e rede de lojas para transformar as meninas em “putinhas” (no dizer do saudoso Sandro Guidalli, que infelizmente abandonou o jornalismo) e os meninos em andróginos. Xuxa, ela mesma com um grande sex appeal, mas para ter uma filha arranjou a doação de um mercenário – projeta suas frustrações nos “baixinhos”, como ela chama as crianças, note: sem distinção de sexo. Meninas de tenra idade são estimuladas a usar micro-saias com calcinhas à vista, pintar os lábios e os olhos e usar sapatos de saltos altos ou do estilo plataforma. Todos sabem que as meninas adoram imitar as mães, mas no senso comum tradicional elas são desestimuladas de fazê-lo antes da idade apropriada, que chegará da adolescência. No senso comum modificado elas são estimuladas desde idades inapropriadas para servirem de objetos sexuais a quem, já que os meninos custam mais a desenvolver seus apetites sexuais (3) e são estimulados à androginia? A resposta óbvia é: aos pedófilos! Sem dúvida assistiremos em breve leis que legalizam e protegem esta aberração, até mesmo uma PEC. Talvez até mesmo criando outra espécie de criminosos: os pedofilofóbicos seguindo a linha da “homofobia” da PEC 122.

Deixando de lado, por óbvio, o Big Brother, uma rápida análise das novelas revela que todas possuem ingredientes escolhidos a dedo para modificar o senso comum tradicional:

A – um(a) homossexual que é sempre uma figura cheia de bondade, extremamente compreensivo e confiável.

B – uma prostituta boazinha – no caso da atualmente em cartaz, até com poderes paranormais.

C – apelo sistemático a crenças pagãs e à paranormalidade, geralmente praticadas por pessoas muito compreensivas que respeitam a opinião dos descrentes. Por contraste, os praticantes das religiões tradicionais são apresentados como arrogantes e intolerantes. Geralmente são defensores da tradição, subliminarmente implantando a idéia de que tradição e maldade andam de mãos juntas e não passam de hipocrisia.

D – ricos maldosos e que menosprezam os pobres. Geralmente professam religiões tradicionais.

E – pobres bondosos, honestos e trabalhadores esforçados que acabam “dando a volta por cima”. Geralmente professam alguma fé mística ou no máximo sincrética.

F – sempre há alguma situação sobre aborto, jamais defendido, sempre se opondo, porém, e aí está a mensagem subliminar, apresentando situações limite nas quais as mulheres poderiam optar por realizá-lo.

G – Há uma sintonia perfeita com o que a grande massa já “estaria preparada para aceitar” através das diuturnas pesquisas do IBOPE. O beijo homossexual foi objeto de várias novelas: ameaçavam apresentar para poder colher nas pesquisas como seria recebido. O aborto, rejeitado por mais de 80% da população, não é defendido abertamente por esta razão. Mas esperam ainda “amadurecer” as massas e aí virão com toda força.

As novelas servem para passar subliminarmente o que consta explicitamente nas cartilhas do MEC, na PL 122 e mensagens subliminares são muito mais eficientes no longo prazo. Em grande coordenação com as ações governamentais concretas sua eficiência aumenta. O próprio governo se utiliza deste procedimento, do qual recebe relatórios diários, para avaliar suas ações imediatas.

O ignóbil Estatuto da Diversidade Sexual ou PL 122 (leiam aqui:http://www.oab.org.br/arquivos/pdf/Geral/ESTATUTO_DA_DIVERSIDADE_SEXUAL.pdf) que será apresentado em forma de Projeto de Emenda Constitucional pela OAB através da Marta Suplício é a forma acabada de fait accompli gerado por anos a fio de sugestões subliminares.

7 – O que tem a dizer sobre a previsão de William Lind, que fala da possibilidade de ocorrer, em algumas décadas, uma crise brutal da legitimidade do Estado, e que a Guerra de 4ª Geração e a Netwar tornem-se coisas presentes no cotidiano das pessoas em todo o mundo?

Sem dúvida! Fui dos primeiros a traduzir para o português vários artigos do Lind, cujo pensamento é ainda mais vasto e profundo.

É preciso, entretanto, distinguir os três fenômenos:

1 – A crise brutal da legitimidade do Estado já está em franco andamento e implantação. Foi tentada no entre guerras pelo plano de “paz universal” de Woodrow Wilson, pelos Fabianos e social-democratas através principalmente da Liga das Nações. Não deu certo porque os povos ainda não estavam “maduros” e resistiam à perda da nacionalidade, o que resultou no fascismo nacionalista italiano, no abandono por parte de Stalin da idéia leninista de internacionalismo proletário, na forte resistência nacionalista alemã e a eleição de Hitler, e no forte nacional-militarismo japonês. Até mesmo fenômenos como o getulismo, o peronismo e demais movimentos nacionalistas do chamado Terceiro Mundo. Com a criação da ONU e o horror às guerras, a globalização recrudesceu de forma avassaladora. A ONU, dirigida por pessoas que não foram eleitas por ninguém, já se intromete na vida dos países e até dos cidadãos na intimidade de seu lar, seja através das redes de TV, seja por imposição de hábitos alimentares ou uso de energia, até as medicações que podem ser usadas. Tome-se, em menor escala, o exemplo da União Européia: o Parlamento Europeu não tem poder nenhum, quem manda são umas duas dezenas de sujeitos auto-nomeados. A imposição do Euro está destroçando as economias européias, a Grécia é apenas o primeiro sinal, seguindo-se de Itália, Portugal, Espanha e Irlanda. Na minha opinião, o euro é uma ficção que tende a desmoronar. A Alemanha – o Quarto Reich, agora econômico? – sozinha não terá como segurar para não afundar junto. Quando eu escrevia esta resposta ocorreu a renúncia de Berlusconi e sua substituição pelo tecnocrata nomeado pela UE, Mario Monti, um político sem votos e sem correligionários que executará diligentemente as receitas econômicas prescritas pela UE. Antes, já haviam forçado a saída de Papandreu na Grécia(4).

2 – A guerra da 4ª geração: em primeiro lugar, é uma mudança de foco da frente para a retaguarda do inimigo para acabar com ele de dentro para fora. O exército adversário não é o alvo, mas dentro do seu território os alvos são suas tradições culturais e os ataques aos civis. Como um ideal, o exército inimigo passa a ser irrelevante. A natureza da guerra moderna confronta a tradição do serviço militar com um dilema. Os terroristas resolvem esse dilema simplesmente eliminando a cultura da ordem. Terroristas não usam uniformes, fileiras, saudações nem a hierarquia. Potencialmente eles desenvolveram ou podem desenvolver uma cultura militar que é condizente com a natureza desordenada da guerra moderna. O fato de sua cultura ser não-ocidental pode facilitar esse desenvolvimento. Até os meios bélicos são mais baratos e eficazes: enquanto os Estados Unidos gastam US$ 500 milhões para construir um bombardeiro com tecnologia stealth (com pequena assinatura de radar), um bombardeiro stealth terrorista é um carro com uma bomba no porta-malas – um carro como qualquer outro, isto é não tem uma “assinatura” de equipamento de guerra e passa despercebido. O que teremos se combinarmos o terrorismo com a nova tecnologia? Por exemplo, que efeito teria o terrorista se em seu carro bomba ele levasse um artefato nuclear de baixa potência, ou agentes biológicos, ou um produto da engenharia genética ou de nanotecnologia, ao invés de explosivos? Embora a guerra de 4ª geração não seja o terrorismo, ela combina o terrorismo com a alta tecnologia.

O segundo guia para entender a quarta geração é o modo como o atacante procura usar a força inimiga contra si mesma. Esse conceito de guerra como uma luta de judô começa a se manifestar na segunda geração, na campanha e nas batalhas de envolvimento e cerco. Foi largamente usada na guerra de terceira geração e, com a disseminação irrestrita das idéias revolucionárias comunistas: um comunista jamais lutará por sua pátria, mas pelo comunismo. Idem um muçulmano após a disseminação do Islam. Podemos simplificar dizendo que a guerra de 4ª geração inclui uma base de operações não-nacional ou transnacional, como uma ideologia ou uma religião, ataques diretos às tradições culturais do inimigo e a guerra psicológica sofisticada.

3 – NETWAR: esta denominação, derivada de network (rede ou malhas, usada principalmente em relação aos meios de comunicação) foi inventada por John Arquilla e David Ronfeldt (5) em 1993 e foi descrita como possuindo duas faces: uma extremamente violenta e negativa dominada por terroristas e criminosos, e outra executada por ativistas sociais que podem ou não ser militantes. Esta segunda face geralmente é pacífica e se mostra promissora para a sociedade. Entre elas existe uma malha geralmente secreta de comunicações e coordenação que não é percebida pelo público alvo. É uma nova forma de conflito e crime que envolve medidas de guerra não convencionais na qual os protagonistas usam organizações em rede derivadas da era da informação. Estes protagonistas estão dispersos em pequenos grupos e conduzem suas ações coordenadamente, sem um centro de comando preciso e, portanto, impossível de ser atacado. As antigas organizações criminosas (como a Máfia Siciliana) e revolucionárias (como a III Internacional) eram baseadas em hierarquias rígidas com comando centralizado – seja o capo de tutti i capi, seja o Politburo do PC. O narcotráfico e as organizações terroristas do Oriente Médio inovaram, criando amplas redes de comunicação.

Note-se, por exemplo, que as FARC mantêm um misto de hierarquia e rede, mas como imperam as redes, os golpes na hierarquia como a recente morte de Cano, ou mesmo a de Reyes, não interfere em quase nada no narcotráfico. Até as favelas cariocas já funcionam assim: a captura no dia 10 de novembro do traficante Nem não deixará o “mercado” desabastecido.

8 – O que o senhor destacaria no debate entre Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin? Estaria Dugin colhendo informações? Estaria Dugin falando em “guerra contra o Ocidente” apenas para camuflar uma estratégia cultural e/ou de infiltração em instituições como os órgãos chamados “multilaterais”, e nos mais representativos setores e instituições dos outros dois eixos globalistas (Consórcio e Islam)?

Primeiro, devo esclarecer que meus conhecimentos filosóficos são limitados, dedico-me mais à política internacional, à Constituição Americana e suas causas e conseqüências, e à história, particularmente da Inglaterra, a Idade Média e os anos entre as duas guerras mundiais. Segundo, não acompanhei o debate no seu todo porque em minha primeira opinião, Dugin é um sujeito delirante e não tenho a paciência do Olavo para discutir com um cara assim. O que eu destaco é a participação do Olavo, a do Dugin só li parte da primeira intervenção e fui buscar seu nome no Google: as referências que encontrei lá só confirmaram minha primeira impressão: é um charlatão pretensioso e narcísico. Para saber mais do debate fui ao excelente blog informativo http://debateolavodugin.blogspot.com/.

Não concordo com Ricardo Almeida quando diz: “para não abrirmos indefinidamente o abismo entre eles, é preciso lembrar, pelo menos, um ponto de contato. Este ponto consiste na presença marcante da escola tradicionalista como influência intelectual para ambos… Do mesmo modo, Dugin absorve a influência de Guénon, mas a cruza com a de autores diversos como Ernst Junger, Novalis, e Karl Marx, por exemplo, em síntese fértil”. Na apresentação de Duguin, Giulano Morais cita Limonov a respeito de Dugin: “Ele é um homem paradoxal que pode sustentar dez pontos de vista ou mais ao mesmo tempo e isso, ao contrário do que pareceria à primeira vista, trata-se de um elogio de Limonov à habilidade de Dugin de conciliar de forma aparentemente impossível tendências das mais diversas origens num sistema lógico e dialético completamente diverso e muitas vezes incompreensível para quem se limita aos aspectos mais externos de sua obra”.

Admito que meu pensamento não vá às profundidades do de Olavo, nem meu conhecimento seja tão amplo e erudito como o dos dois. Mas não creio que Dugin seja fértil, nem que consiga “conciliar de forma aparentemente impossível tendências das mais diversas origens num sistema lógico e dialético completamente diverso”, porém, constrói uma salada mista incompreensível. Talvez eu me “limite aos aspectos mais externos de sua obra”. Já me encontrei com autores assim na psicanálise e concluí que é perda de tempo tentar aprofundar o entendimento.

Para completar a resposta, não creio que Dugin estivesse buscando informações, pessoas deste tipo não o fazem, por se considerarem oniscientes. Por último, existem três eixos globalistas: o anglo-americano e atlanticista (Tavistock, Trilateral, CFR, Bilderberg, as principais Fundações e suas ONGs), o Eurasiano e o Islâmico. Todos estão unidos contra as noções ocidentais de moralidade, religião, liberdade de pensamento, orule of law e, menos importante, a democracia como sistema eleitoral, e a substituição por um grupo ’seleto’ não elegível nem responsável perante ninguém a não ser a si mesmos.

9 – Seu livro O Eixo do Mal Latino Americano é uma grande pesquisa e leitura indispensável para o nosso grupo. O que você recomenda como método de pesquisa e critério de credibilidade em termos de fontes de informação?

Lamento, mas não tenho método de investigação nenhum, sou tão somente um ávido leitor de tudo que me passa pela frente e daí vou tirando minhas conclusões. Só sou metódico quando estou preparando um artigo de fundo. Aí, pesquiso durante algum tempo tudo que posso referente ao tema. Em minha opinião, lendo muito sobre tudo, vai-se desenvolvendo uma espécie de seleção inconsciente do que tem ou não credibilidade. No entanto, há um método do qual tenho me valido muito: se um livro ou artigo me desperta atenção vou ao índice de referências e compro ou procuro na internet aquelas fontes que valeram ao autor.

10 – Como funcionavam as pesquisas no Centro de Estudos Ibn Khaldun, do qual fez parte junto com o professor Olavo de Carvalho?

Infelizmente foram apenas duas reuniões. Como nós “defendemos os ricos e poderosos, e não os pobres e oprimidos”, faltou verba já para a terceira reunião. Os debatedores foram convidados pelo Olavo e as reuniões duravam um dia inteiro e as discussões eram tanto quanto possível, informais. Os temas eram escolhidos pelo Olavo ou sugeridos por qualquer um de nós. Foi decidido que uma maior sistematização iria se desenvolvendo. Os textos eram distribuídos previamente e um de nós escolhido para apresentar uma síntese. Na primeira, em São Paulo, discutimos uma síntese do livro de Carroll Quigley Tragedy and Hope e o New Lies for Old de Anatoliy Golitsyn. Na segunda, o segundo livro de Golitsyn The Perestroika Deception e de Suzanne Labin Em Cima da Hora, com introdução de Carlos Lacerda.

11- Como você analisa os recentes ataques ao professor Olavo de Carvalho nos EUA e na mídia brasileira simultaneamente e ainda a perseguição a Julio Severo por parte dos movimentos gays? É possível estabelecer uma estrutura única e integrada por trás destes acontecimentos?

Não tenho provas, mas acredito que sim. Embora a perseguição ao Julio seja muito antiga, agora a bola da vez é a psicóloga Rozângela Alves Justino, que ousou dizer que curava homossexuais (6), suprema arrogância! Como falei sobre a existência de redes que se intercomunicam na resposta acima (7-3), não é difícil imaginar uma tão grande coincidência. Notem que o Olavo é editor-chefe do Mídia Sem Máscara, o Julio é um dos principais colaboradores. As redes de ONGs comunistas, que incluem a social-democracia tucana (quem abriu caminho para elas), as do movimento gay, as de direitos humanos, as do movimento negro, e várias outras, sempre atuam coordenadamente. Eu não me espantaria se houvesse coordenação com a “primavera” árabe e os movimentos “ocupem” Wall Street. Como dizia uma das faixas na manifestação: “Ocupem tudo!”.

O Olavo já é alvo de ataques inclusive à sua honra a de seus familiares há muitos anos. Certamente vocês leram o Imbecil Coletivo I. Neste livro de estréia no estilo crônicas, ele mexeu com os brios das mais sacrossantas figuras da “intelectualidade” brasileira e, como eles são um coletivo mesmo e o Olavo era o “time do eu sozinho”, só podia dar no que deu! Por outro lado, pessoas que nem o conheciam se aproximaram a ele, pois reconheciam a verdade do que ele falava.
Um amigo e colega psicanalista escreveu há muitos anos no Globo, onde ele tinha uma coluna semanal “op-ed”, um artigo dizendo que homossexualidade tem cura, se referindo a várias pessoas e mães aflitas com a possibilidade de serem homossexuais. Foi o último artigo dele lá, recebeu várias ameaças de morte contra ele e sua família. O meu comentário e de outros sequer foi publicado na carta dos leitores. Mas as críticas saíram às dezenas. Ele enfrentou uma enorme hostilidade mesmo dentro das sociedades psicanalíticas. Não foi em frente porque perdeu a coluna e ainda não existiam emails e blogs.

Agora, imaginem um “chato”, como o Julio, que vai em frente!

12 – Que tipo de leituras você recomenda para estar bem informado sobre o avanço do globalismo na América Latina hoje? O que é mais confiável no que diz respeito a fontes de informação?

A principal fonte é o blog Notalatina da nossa Graça Salgueiro. No Brasil é praticamente a única fonte confiável. Na Colômbia o programa de Fernando Londoño, La Hora de La Verdad e os artigos e livros do Cel Villamarin Pulido (sempre os publico, traduzidos pela Graça, e tenho até uma seção do meu site mas os livros podem ser adquiridos através do site do próprio www.luisvillamarin.com). Na Venezuela temos as publicações de UNOAMÉRICA e do Alejandro Esclusa (artigos e livros). Do Chile, com algum cuidado, a ONG Libertad y Desarollo (http://www.lyd.com/). Os artigos de Armando Ribas para economia, liberalismo e constitucionalismo. Por contraste é bom visitar com certa regularidade o Granma (http://www.granma.cu/), faço isto freqüentemente para saber o que pensam os ‘camaradas’. É muito instrutivo e menos evasivo que a imprensa brasileira, que tenta disfarçar sua ideologia! Os melhores jornais da América Latina em termos de neutralidade são o La Nación (Buenos ires) e o El Mercúrio (Santiago). Em meu livro as fontes de referência são bem confiáveis.

Notas:

(1) – Sugiro a leitura deste artigo sobre a liberdade de pensamento: Charlie Hebdo, Free Speech, and Islam em http://www.meforum.org/3092/charlie-hebdo-free-speech-islam  e assistirem aos dois vídeos. Any African Who Refused to Become Muslim was Deported as a Slave to Muslim World:http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=P01gIbujLUw&noredirect=1 e African American slavery and Islam, the truth not told: http://www.youtube.com/watch?v=idqJ1hn76Ek. Sobre este tema recomendo ainda o livro The Legacy of Arab-Islam in Africa, de John Alenbilliah Azumah (existe na Livraria Cultura com entrega em 6 semanas por RS$ 63,40)

(2) – Vejam o que está acontecendo na Praça Tahir do Cairo: ontem (18/11) estava tomada pela Fraternidade Muçulmana que se voltou contra os militares e as eleições livres or eles proposta.

(3) – Embora o aparelho genital não esteja desenvolvido, as meninas já nascem com os ovários prontos, a produção dos óvulos está terminada aos cinco meses de gestação. Por outro lado, os meninos só começam a produzir espermatozóides na passagem da puberdade para a adolescência. Por isto há uma fase em que as meninas já sonham com seus “príncipes encantados” enquanto os meninos as acham umas chatas e preferem jogar bola a namorar. Correspondentemente os hormônios sexuais das meninas começam a atuar antes da testosterona masculina.

(4) – As pesquisas eleitorais na Espanha indicam a maciça vitória do candidato da EU, Mariano Rajoy. Não se iludam com o parente conservadorismo do Partido Popular. A verdadeira dirigente  da Espanha sera Angela Merkel.

(5 ) Networks and Netwars: the Future of Terror, Crime and Militancy(http://www.rand.org/pubs/monograph_reports/MR1382.html) e Networks, Netwar and the Fight for the Future (http://frodo.lib.uic.edu/ojsjournals/index.php/fm/article/view/889/798)

(6) – http://veja.abril.com.br/120809/homossexuais-podem-mudar-p-015.shtml

Fonte:  Mídia Sem Máscara

Entrevista – João Pereira Coutinho

Quem é o gajo?, perguntará. Bem, além de ser colunista da Folha (diga-se de passagem, o melhor colunista do jornal), João Pereira é “uma alma pura” (palavras do próprio na abertura infame desta entrevista), um conversador de primeira, um performer artist, um excelente professor, um humorista impagável, um grande conferencista, um escritor de primeiro time (querem provas? Leiam seu Avenida Paulista, a ser publicado no ano que vem no Brasil, além do seu blog, onde encontra-se a maioria de seus textos) e um variado etecétera que prova que o homem (ou o gajo, como quiserem) é realmente polivalente. E, sobretudo, valente.

O leitor-espectador perceberá exatamente essa qualidade na conversa abaixo. João Pereira Coutinho não tem medo de dizer o que pensa. Eis sua valentia. Você pode discordar do que ele fala ou escreve, mas não pode negar que escutou algo idiossincrático, que ninguém mais poderia dizer exceto aquele sujeito.

Fonte: http://www.dicta.com.br

Pare 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

O historiador Antony Sutton fala do envolvimento de capitalistas americanos com o nazismo e o bolchevismo

Publico “a última aparição em público, numa entrevista filmada em1980, de um dos maiores historiadores e pesquisadores do século XX, Antony C. Sutton, na qual ele relembra parte daquilo que pôde constatar ao longo de muitos anos como pesquisador da Hoover Institution, Stanford University (mais precisamente como Research Fellow do Hoover Institute of War, Revolution and Peace) e como autor e pesquisador independente a partir de 1975”. Em poucas palavras, o que Sutton revela é que os dois maiores regimes totalitários da história humana (nazismo e comunismo), que espalharam terror no mundo e causaram a morte de milhões de pessoas foram financiados por magnatas americanos.

***

Entrevista de Antony Sutton a Stanley Monteith, 1980: “Wall Street and the Rise of Hitler”

Vídeo original: http://video.google.com/videoplay?docid=6987303668075230852#docid=6244851259954264539

Entrevistador: Dr. Stanley Monteith, Radio Liberty.

Transcrição e tradução: Henrique Dmyterko

Legendas: Antony Sutton: AS, Stanley Monteith: SM

***

Transcrição:

SM: Dr. Sutton… O senhor escreveu três séries de livros enquanto foi fellow pesquisador na Hoover Institution. O senhor poderia me explicar qual é, basicamente, o tema desses livros?

AS: Sim. A primeira série de livros, enquanto eu estava na Hoover Institution, Stanford University, trata, essencialmente, das transferências de tecnologia ocidental para a URSS. Cada um dos três livros [dessa primeira série] cobre um período de tempo, começando em 1917.

SM: Então o senhor escreveu uma segunda série sobre Wall Street…

AS: Sim, esses eram livros comerciais, no sentido de que não eram estudos acadêmicos, mas destinados ao público em geral e tratam da construção do socialismo bolchevique na Rússia, daquilo que nos EUA poderíamos chamar de socialismo do bem-estar social [welfare state] e também do nacional-socialismo de Hitler na Alemanha. Cada um dos livros examina o financiamento e a contribuição de Wall Street, de banqueiros internacionais, para o desenvolvimento dessas formas específicas de socialismo.

SM: Em suas pesquisas e análises acaba sendo revelado o que acontece em nossa sociedade. O senhor enfrentou obstáculos ou resistências para desencorajá-lo a conseguir desencavar as origens e revelar os bastidores do envolvimento dos Estados Unidos no financiamento do comunismo internacional?

AS: Sim, definitivamente… Por exemplo, quando eu estava na Hoover Institution, em 1972, eu deveria ir a Miami Beach fazer um relato diante do RNC (Comitê Nacional Republicano). Apesar de um Congressista ter entregado em mãos às agências de notícias cópias desse meu relato/testemunho, essas agências se recusaram a transmiti-lo aos jornais. Quando voltei à Califórnia, fui chamado à sala do diretor do Instituto, que me instruiu, em termos muito claros, para não mais proferir discursos tais como aquele, e que tais informações não deveriam ser tornadas públicas.

SM: E a informação era a de que estávamos fornecendo a URSS a tecnologia para desenvolvimento de seu potencial bélico…

AS: Sim… Naquela época estávamos envolvidos no Vietnã e como você sabe, os soviéticos estavam suprindo os norte-vietnamitas…

SM: Isso foi em 1972…

AS: Sim, 1972. Por exemplo, eu sabia que a fábrica de automóveis e caminhões Gorky, que a propósito, foi construída pela Ford Motor Co. … que a Fábrica Gorky, na Rússia, produz a linha de veículos GAZ [Gorkovsky Avtomobilny Zavod]… e esses veículos foram vistos na trilha Ho-Chi-Minh. Nós estávamos fornecendo equipamentos à Gorky em meio à guerra contra os norte-vietnamitas e esses caminhões estavam sendo usados para carregar munição e suprimentos destinados a matar americanos. Eu achava que aquilo era moralmente errado. Eu disse isso em Miami Beach e na Hoover Institution. E foi esse tipo de informação que foi suprimida.

SM: E o que aconteceu no que diz respeito às suas atividades na Hoover Institution?

AS: Bem… Eu não dei muita atenção às advertências. Publiquei um livro sobre o suicídio nacional, no ano seguinte, [National Suicide: Military Aid to the Soviet Union, 1973] livro que fazia um sumário da assistência militar que fornecíamos a União Soviética. Quando o livro ficou pronto, sofremos pressões para interromper a publicação… pressões feitas aos editores e a mim, pessoalmente. E eu… eu achei que não deveria mais aturar tais pressões e poucos anos depois deixei a Hoover Institution. Desde 1975, sou um autor independente sem mais nenhum tipo de ligação com a Hoover.

SM: Vamos voltar um pouquinho, aos antecedentes do financiamento da máquina de guerra alemã, a mesma contra a qual lutamos no período entre 1941 e 1945… Poderíamos começar, ante de mais nada, com o financiamento original de Hitler, entre 1922 e 1923, quando ele ainda estava fazendo esforços para atingir alguma proeminência na Alemanha?

AS: O financiamento original veio apenas em parte da Alemanha mesmo. Um dos mais importantes a assinalar, na questão desse financiamento em 1922 foi Henry Ford. De fato, mais tarde, Henry Ford recebeu uma medalha,em 1938, por seu apoio financeiro ao Partido Nazista (Nacional Socialista) quanto este ainda estava em sua fase de formação. Então, é claro, depois do fracassado putsch,em 1923, Hitler foi preso, dando início a uma nova era na ascensão de Hitler.

SM: E finalmente chegou ao poder em 1933, via processo eleitoral. E o que há a dizer sobre o financiamento das atividades eleitorais de Hitler em 1933?

AS: Isso eu pude rastrear. Na verdade, pude rastrear com precisão, nos registros de Nuremberg, uma série de recibos de transferências do Delbruck, SchicklerBank, em Berlim, transferências feitas para uma conta controlada por Rudolph Hess. Este foi o fundo usado para financiar o acesso de Hitler ao poder em março de 1933. Entre as grandes corporações que fizeram transferência para esse fundo, eu encontrei não apenas a IG Farben, o que já era bastante conhecido, mas também a filial alemã da General Electric, AEG (Allgemeine Elektrizitats Gesellschaft), na época diretamente controlada pela GE americana… também a OSRAM…

SM: E quais eram as ligações entre a OSRAM e a General Electric?

AS: A General Electric internacional tinha o controle da GE alemã (AEG) e também parte do controle acionário da OSRAM na Alemanha.

SM: Então temos a Ford e a GE ajudando a financiar a ascensão de Hitler ao poder. Havia outras grandes corporações americanas envolvidas?

AS: Sim, definitivamente. A Standard Oil através de sua parceria técnica com a IG Farben… Por exemplo, a Alemanha não poderia ter ido à guerra em 1939 sem o tetra-etil (chumbo tetra-etil). O tetra- etil é necessário para elevar a octanagem do combustível de aviação… A Alemanha não tinha meios para produzi-lo. O tetra-etil foi desenvolvido em laboratórios nos EUA e transferido para os alemães. A Standard Oil apareceu com a idéia de hidrogeinização, que foi essencial para os alemães nos anos 1930 aumentarem a qualidade de sua gasolina de aviação. Essa tecnologia foi transferida para os nazistas. E a ITT, p. ex., (International Telephone and Telegraph), estava intimamente ligada aos nazistas através do Dr. Schröder (Baron Kurt von Schröder ), que era o diretor-chefe das subsidiárias alemãs da ITT. A ITT controlava empresas que fabricavam não somente instrumentos elétricos, mas também a fábrica dos Focke-Wulf, aviões de caça.

SM: Então o que senhor está sugerindo é que corporações americanas ajudaram a financiar a indústria alemã envolvidas no aumento da capacidade bélica?

AS: Corporações americanas, apenas umas poucas delas, não muitas, financiaram Hitler através de suas subsidiárias, transferiram tecnologia, transferiram estoques de material, p.ex., o tetra-etil, antes que os alemães mesmos o produzissem cf. acordo posterior entre Alemanha e os EUA. E também financiaram… P.ex., a Standard Oil, em 1933, financiou o desenvolvimento da fabricação de gasolina na Alemanha, necessária para a II Guerra.

SM: Este é um ponto muito interessante. O senhor poderia dar uma idéia de como a Alemanha obteve petróleo para a II Guerra? Certamente não havia reservas de petróleo em território alemão.

AS: Sim, a Alemanha não tem reservas de petróleo, é um fato. Durante a II Guerra, usou combustível sintético, obtido a partir do carvão e os processos tecnológicos básicos para o desenvolvimento de combustíveis a partir do carvão vieram dos Estados Unidos, essencialmente da Standard Oil, que tinha um acordo de assistência técnica com a IG Farben. E porque a IG contribuiu com cerca de 60% do explosivos usados pela Wehrmacht, entre 40 e 50% da gasolina para a Wehrmacht e para a Luftwaffe, a força aérea alemã.

SM: E como era o entrelaçamento entre a IG Farben e a Standard Oil?

AS: O entrelaçamento era no nível técnico, na troca de patentes, e na assistência tecnológico-financeira. Havia outros laços da IG Farben com os EUA, através de subsidiárias da IG Farben nos Estados Unidos.

SM: E é verdade o que foi afirmado sobre membros do conselho diretor da Standard Oil serem também membros do conselho diretor da subsidiária americana da IG Farben?

AS: Sim… Walter Teagle é um nome que me vem à mente… mas havia vários outros.

SM: Também havia ligações da IG Farben com a Ford Motor Company…

AS: Humm… Não que eu me lembre agora.

SM: Então, basicamente, o que vemos até aqui são companhias americanas fornecendo material, tecnologia e financiamento que tornaram possível a Hitler construir a sua máquina de guerra…

AS: Sim, isto está correto.

SM: Em seu livro “Wall Street and the Rise of Hitler” o senhor fala do padrão de bombardeios aéreos aliados durante a II Guerra e sobre o fato notável e surpreendente de que certas fábricas não foram atingidas, enquanto a maioria das fábricas alemãs foi dizimada. Algumas fábricas ligadas a esses acordos já aludidos, por alguma estranha razão, escaparam aos devastadores bombardeios de saturação dos aliados.

AS: Durante a II Guerra Mundial, o setor industrial alemão de produtos e equipamentos elétricos, era, ou deveria ser um dos alvos primordiais dos bombardeios aliados. Mas na prática, as fábricas da GE alemã não foram bombardeadas. Das dez maiores fábricas, nenhuma foi bombardeada e cerca de meia dúzia de outras tiveram danos mínimos, tais como vidros quebrados, etc. Logo, o que temos aqui é um caso muito interessante: indústrias que deveriam ter sido bombardeadas, não o foram. Por outro lado, temos uma marca de propriedade de tais indústrias, o que levanta algumas suspeitas sobre o porquê de não terem sido bombardeadas.

SM: Mas no que diz respeito a fábricas de material elétrico de propriedade alemã, elas sofreram bombardeios mais pesados?

AS: Eu pesquisei sobre isso. A Siemens, p.ex., foi bombardeada, não há dúvida sobre isso. Mas esse setor industrial, e a Siemens também, não foi tão bombardeado quanto às fábricas de tanques ou de aviões, esse tipo de coisas.

SM: Antes o senhor mencionou uma instalação industrial em Colônia. Esse era um alvo militar prioritário?

AS: A fábrica da Ford em Colônia [Alemanha] deveria ter sido um alvo militar prioritário. P.ex. a RAF (Royal Air Force) bombardeou a fábrica da Ford em Poissy, na França, mas a fábrica da Ford em Colônia, de longe a maior de todas, não foi bombardeada.

SM: Mas os planejadores militares pretendiam bombardear essas fábricas. Ou elas não estavam nos relatórios de alvos?

AS: Bem… Eu vi os relatórios de alvos em Colônia. A existência das fábricas da Ford lá era bem conhecida; eles sabiam que essas fábricas estavam produzindo equipamentos para a Wehrmacht, mas não a bombardearam. Ela estava na lista de alvos designados, mas não foi atingida.

SM: Então, em algum ponto ao longo da linha de comando e planejamento alguém apagou o nome da Ford em Colônia como alvo, enquanto a cidade de Colônia foi totalmente destruída.

AS: Colônia foi destruída, assim como muitas outras cidades na Alemanha foram destruídas. Mas em algum lugar da linha de comando… bem, algo aconteceu. Eu suspeito que isso se deu nos comitês de designação de alvos. E sem dúvida, ordens foram emitidas para não bombardear determinados alvos, ainda que esses fossem alvos militares vitais.

SM: Isso, de alguma maneira, faz lembrar a Guerra da Coreia e Guerra do Vietnã, quando alvos importantes no campo inimigo foram também deixados intocados pelos bombardeios estratégicos.

AS: Eu concordo que isso aconteceu, mas não investiguei o assunto.

SM: Em seu livro “Wall Street and the Rise of Hitler” há uma seção muito interessante a respeito de um fundo especial em nome de Heinrich Himmler. O fluxo de dinheiro para esse fundo, que se estendeu até 1943, 1944, envolvia empresas alemãs fortemente ligadas a empresas americanas e às suas matrizes americanas.O senhor poderia nos falar um pouco a respeito do Fundo Keppler?

AS: O Fundo Keppler, também conhecido como Control S Fund (?), e era o que poderíamos chamar de fundo de reserva pessoal de Heinrich Himmler; ele o usava para seus projetos pessoais… e o que me deixou espantado foi que em 1933 e em 1944, os anos cujos arquivos desse fundo eu pesquisei, mais da metade do dinheiro para esse fundo proveio de corporações americanas. P.ex., em 1933 , a ITT, a Standard Oil, GE e possivelmente a OSRAM, foram contribuintes desse fundo. Até mesmo em 1944, durante a II Guerra Mundial, a ITT estava financiando Heinrich Himmler através de Schröder [Barão Kurt von Schröder ], que era o diretor-chefe das subsidiárias alemãs da ITT. Também descobri que a DAPAG (Deutsche-Amerikanische Petroleum AG), a subsidiária da Standard Oil na Alemanha, também estava financiando Himmler. E isso durante a II Guerra!

SM: Algum desses fatos veio à tona durante as audiências do tribunal de Nuremberg?

AS: Não. Nenhum veio à tona em Nuremberg, ainda que os documentos existam nos arquivos, mas eles não foram publicados.

SM: E o senhor teve acesso direto a esses arquivos?

AS: Sim. Há cerca de quatrocentas toneladas (400 t) disponíveis desses arquivos e muitos deles estão na Hoover Institution, ou cópias de tais documentos, e é por isso que eu os encontrei.

SM: Eu acho que esse é um episódio trágico da história americana, quando o público não percebe as íntimas relações de grandes corporações americanas com o financiamento do nacional-socialismo alemão (nazismo). Agora, eu gostaria de falar um pouco a respeito dos julgamentos de Nuremberg, pois durante esses julgamentos, os nazistas, os generais alemães, os criminosos de guerra alemães foram considerados culpados diante das provas. Algum americano foi indiciado ou condenado em função desse financiamento?

AS: Definitivamente, não! Eu estudei os critérios de definição de “crimes de guerra” segundo o Tribunal de Nuremberg e eu não tenho dúvida de que determinados americanos se encaixavam nos critérios que determinavam o indiciamento por crimes de guerra, mas nenhum deles foi a julgamento.

SM: O senhor acha que houve um esforço consciente para ocultar esses fatos do Tribunal de Nuremberg e do público americano?

AS: Houve tal esforço, uma vez que esses homens de negócios americanos foram muito assertivos ao dizer, em 1946, que não tinham o menor conhecimento sobre o que Hitler estava fazendo. E, no entanto, estavam intimamente ligados ao rearmamento promovido por Hitler. Eu creio que isso não foi publicado pelos jornais da época, mas eu não verifiquei esse detalhe. Mas certamente, nada foi publicado sobre o papel de corporações americanas e de executivos americanos na ajuda a Hitler.

SM: E sobe o financiamento, sobre os empréstimos de grandes bancos americanos e britânicos feitos ao governo de Hitler no período entre 1933 e 1939, quando ele estava se preparando para a guerra?

AS: Bem, é preciso recuar um pouco mais no tempo e dar uma olhada nos chamados empréstimos Young, que eu considero muito importantes, pois do meu ponto de vista, tais empréstimos levaram ao colapso financeiro da Alemanha em 1933.

SM: Esse era o Plano Young (1928)…

AS: Sim, Owen Young, que a propósito, era o presidente do conselho de administração da General Electric. Young atuou como o representante do governo dos EUA nesse plano que levou ao colapso financeiro alemão em 1933, que por sua vez, permitiu a ascensão de Hitler. E subsequentemente, a partir de 1933, há uma série de outros empréstimos. Um bom exemplo é o empréstimo da Standard Oil à Alemanha, no valor de vários milhões de dólares, para construir as instalações alemãs de produção de combustível de aviação. E há outros exemplos.

SM: Bem, eu agora gostaria de entrar no tema do financiamento do bolchevismo, porque eu acho que isso é de importância vital. Poderíamos voltar ao período logo após a 2ª revolução russa, entre outubro e novembro de 1917? O financiamento inicial do movimento de Lênin… como ele estava ligado às corporações americanas?

Houve algum envolvimento americano naquele período entre 1917 e 1918, quando o bolchevismo estava começando se estabelecer firmemente na Rússia?

AS: Sim, houve vários incidentes. O mais importante envolve o “Coronel” William Boyce Thompson, que era o maior acionista do Chase Bank, o atual Chase Manhattan Bank. Num dos meus livros eu publiquei a cópia de um cabograma registrando a transferência de um milhão de dólares, de Nova York a Petrogrado [São Petersburgo], em dezembro de 1917 e mais tarde, o “Coronel” Thompson declarou que esse dinheiro foi dado aos bolcheviques para ajudar a consolidar o seu poder. À época, os bolcheviques controlavam apenas Moscou e São Petersburgo. Esse é um exemplo muito significativo: fundos americanos, um milhão de dólares, transferidos através de um homem de Wall Street aos bolcheviques.

SM: E o senhor publicou esse documento em seu livro “Wall Street and the Rise of Bolshevism”?

AS: Eu publiquei duas declarações. Uma na forma de cópia do referido cabograma e outra, uma cópia do news clip da época, onde Thompson fazia a declaração acerca dessa contribuição

SM: E por que um capitalista americano, um financista americano, ajudaria o bolchevismo?

AS: A única resposta… e isso me intrigou durante anos: “Por quê?”. Pois de acordo com o senso comum, estaríamos em confronto. A única resposta a que eu pude chegar é: mercados cativos. Os Estados Unidos não queriam outro “Estado s Unidos” no mundo. Se você der uma olhada no mapa do mundo, a Rússia é duas, três vezes maior que os Estados Unidos. Imagine tudo isso se transformando num outro “Estados unidos”, num competidor. O que os EUA queriam, ou ainda, o que Wall Street queria era um mercado cativo. E é claro, o socialismo, conforme meus estudos iniciais em Stanford, o sistema socialista é incapaz de inovar; terá de importar inovações e tecnologias do Ocidente. Assim, creio que o objetivo por trás dessa ajuda era encorajar o desenvolvimento do marxismo e de outros tipos de socialismo, por que isso daria as esses banqueiros o controle do mercado mundial, um mercado cativo.

SM: No final da I Guerra Mundial, a Rússia estava devastada pela fome. Os EUA enviaram uma missão de socorro e ajuda; foi a missão Hoover. O senhor conhece os fatos que envolveram a missão Hoover?

AS: Não há dúvida de que em 1922, 1923, a Rússia estava acabada. A produção industrial russa equivalia a oito ou dez por cento da produção em 1913. As pessoas estavam morrendo de fome, centenas de milhares de pessoas. E é claro, a missão Hoover foi organizada para ajudar a Rússia, mas a maior parte dessa ajuda foi para os bolcheviques, que controlavam uma porção muito pequena da Rússia até então. Apenas uma pequena porção da ajuda foi para os “Russos Brancos” (Exército Branco) ou para o extremo oriente.

SM: E então, em 1922-23, Lênin lançou a chamada NEP (Nova Política Econômica), ou série de planos quinquenais. O senhor poderia falar a respeito dos planos quinquenais e do papel desempenhado por grandes corporações americanas e grandes corporações mundiais na construção da União Soviética?

AS: Bem, houve duas fases distintas. A NEP, iniciada em 1923 por Lênin. Eu descobri, e publiquei num trabalho em Stanford, que cada uma das indústrias russas foi reconstruída, reiniciada, por corporações estrangeiras; em sua maioria, alemãs, britânicas, francesas e americanas. Por volta de 1928, a Rússia tinha uma produção industrial quase igual ao dos níveis pré-guerra, ou seja, dos níveis de 1913. Neste ponto, a Rússia passou a pensar em termos daqueles grandiosos planos quinquenais. E em 1928 o GOZ Plan, o comitê de planejamento econômico do governo soviético, apresentou um projeto de desenvolvimento econômico quinquenal inicial, mas esse plano era tão inadequado que recorreram a corporações americanas. Assim, na realidade, os dois primeiros planos quinquenais foram arquitetados nos EUA, por corporações americanas.

SM: E quais eram essas corporações, especificamente?

AS: O projeto do primeiro plano quinquenal foi feito por uma empresa provavelmente muito pouco conhecida do público americano, a firma de arquitetura industrial de Albert Kahn. Albert Kahn era o principal arquiteto industrial nos EUA. Foi a firma dele que estabeleceu os conceitos básicos do primeiro plano quinquenal. E então, nós encontramos, mais uma vez, as mesmas corporações, agora envolvidas na construção de fábricas na União Soviética: a General Electric internacional, Du Pont, Ford Motor Co., Hercules Motor, Cutiss-Wright [motores de aviões] e algumas outras cujos nomes já estão esquecido hoje: Vultee Aircraft e Chance-Vault Aeoronautical. Então, companhias americanas entraram em cena, construíram o primeiro plano quinquenal, mas o mais importante é que os soviéticos então copiaram esses planos e isso dá conta do enorme aumento da produção industrial. Os soviéticos pegaram esses equipamentos iniciais e os copiaram, às centenas.

SM: E quanto à Ford Motor Co.? Qual o seu papel nisso? Foi importante?

AS: Certamente. A Ford construiu a fábrica Gorky. A Gorky produz a série de veículos GAZ [Gorkovsky Avtomobilny Zavod]; são caminhões e automóveis. E logo no início dos anos 1930 você vê que a GAZ tinha potencial militar e a Ford sabia disso quando construiu a fábrica Gorky e nós sabemos disso porque eu encontrei declarações a esse respeito nos arquivos do Departamento de Estado.

SM: Às vezes ouvimos o nome de Averell Harriman. Ele teve um papel na construção da tecnologia soviética?

AS: Certamente. Averell Harriman voltou da União Soviética com lucros. Ele obteve a concessão das minas de manganês na Geórgia no início dos anos 1920. Ele as tornou operacionais novamente para os soviéticos.O manganês se tornou um dos principais produtos de exportação dos soviéticos. Com a exportação do manganês os soviéticos obtiveram divisas que financiaram a industrialização. Em 1929, os soviéticos compraram os direitos de Averell Harriman, pagando um milhão de dólares a mais do que ele tinha investido.

SM: E quanto a Armand Hammer e a Occidental Petroleum?

AS: Armand Hammer é um exemplo muito interessante. Hammer recebeu a primeira concessão estrangeira em 1922 sobre asbesto (amianto) nos Montes Urais e ele também conduziu outros empreendimentos para os soviéticos, tais como a fabricação de canetas e lápis. Mas Armand Hammer é interessante por que seu pai, apesar de Armand ser até hoje (ano de 1980) presidente da Occidental Petroleum Corporation… seu pai era Julius Hammer, que em 1919 era o Secretário-Geral do Partido Comunista nos Estados Unidos, o que enfatiza o argumento que permeia meus livros: o de que nos níveis mais altos não há diferença entre os comunistas principais e os capitalistas principais. Eles estão entrelaçados. Você tem Armand Hammer, presidente da Occidental Petroleum, e seu pai, Secretário-Geral do PC americano em 1919.

SM: Então, basicamente, é uma tomada de poder.

AS: É uma tomada de poder [ ] e uma tomada de poder internacional.

SM: Agora… Durante a II Guerra Mundial, quando a Rússia foi praticamente destruída novamente pela forças alemãs, qual foi o papel do programa “Lend Lease” na reconstrução da capacidade industrial russa após a II Guerra?

AS: Bem, o programa “Lend Lease” (empréstimo e arrendamento) expandiu e modernizou a capacidade industrial soviética durante a II Guerra, e houve uma continuação até 1948, talvez 1949. Havia um programa supostamente destinado exclusivamente ao fornecimento de comida e material industrial,mas na verdade, e eu verifiquei os registros dos depósitos em …?… Maryland, descobri que mesmo depois da II Guerra, e isto era contrário às intenções do Congresso, acredito eu, houve uma maciça transferência de equipamentos industriais de última geração à União Soviética sob a cobertura do chamado programa Lend Lease.

SM: Em 1948 saiu um livro fascinante, de autoria do Major (George) Racey Jordan no qual ele falava da assistência americana aos comunistas no que diz respeito à sua capacidade de construir armas nucleares. O senhor teve a oportunidade de verificar se realmente fornecemos água pesada a eles, se fornecemos os recursos para que construíssem armas atômicas?

AS: Bem, como parte do trabalho que eu estava fazendo em Stanford, investiguei os documentos de embarque do programa Lend Lease. Eu peguei uma amostra desses documentos e os comparei com os dados do Major Jordan e de maneira geral, Jordan estava certo quanto a mais ou menos cinco por cento do conteúdo do embarques. O Major Jordan evidentemente fez a acusação de que tínhamos enviado material aos soviéticos em 1944-45, material que mais tarde foi usado no desenvolvimento do seu programa atômico. Não há dúvida de que ele estava correto ao afirmar que enviamos água pesada, que é essencial. Mas nós enviamos outros itens, que talvez sejam menos óbvios ao leigo. Por exemplo, enviamos tubos de alumínio, essenciais ao desenvolvimento da energia atômica… Enviamos grafite, outro componente essencial. Assim, de maneira geral e até onde pude verificar… E eu verifiquei os documentos governamentais originais do Lend Lease, o Major Jordan estava certo.

SM: À medida que os anos passam, vemos uma crescente ameaça nuclear soviética. Os soviéticos agora têm mísseis MIRV[multiple independently-targeted reentry vehicle = míssil balístico com vários alvos/várias ogivas]. O senhor poderia explicar como a União Soviética, que realmente não tinha a tecnologia necessária para desenvolver esses mísseis MIRV que hoje ameaçam as nossas cidades… Como é que eles foram capazes de desenvolver essa capacidade?

AS: Bem, para começar é preciso voltar e entender como os soviéticos foram capazes de desenvolver um foguete, a tecnologia espacial. O que eles fizeram depois da II Guerra foi… As forças americanas foram retidas por um tempo, enquanto os soviéticos ocupavam o leste da Alemanha. Eles tiraram tudo da Alemanha Oriental, levaram o que havia de mais recente na tecnologia de bombas V2 de Peenemünde e de outros lugares e a V2 se tornaram a base da tecnologia espacial soviética. Bem, se você pular o período intermediário, no início do anos 1970 os russos ainda não tinham a capacidade MIRV em seus mísseis. Em especial, eles careciam da capacidade tecnológica para produzir os rolamentos de micro-esferas de alta precisão, necessários para os sistemas de controle. Havia apenas um única empresa no mundo, a Bryant Chucking Grinder Company, capaz de fabricar as máquinas de usinagem de alta precisão que faziam as pistas para rolamento das esferas. E sem essas pistas de esferas de rolamento, não é possível produzir mísseis MIRV em quantidade. Pode fazer um, mas não em quantidade. A Bryant Chucking Grinder Company teve permissão de vender quarenta e cinco dessas máquinas aos soviéticos, numa época em que só havia trinta e três em uso nos Estados Unidos.

SM: Houve alguma objeção a isso?

AS: Eu fiz objeção naquela reunião em Miami Beach, em 1972. Outras pessoas fizeram objeções, mas esta foram sufocadas, caladas. Os maiores culpados disso foram Henry Kissinger e a administração Nixon (2º mandato). [Em tenho certeza de que isso era conhecido no DOD (Dep. de Defesa)…se eu sabia, certamente o Departamento de Defesa sabia. Mas, as objeções foram silenciadas e as informações, suprimidas.

SM: Então, mais uma vez, vemos a América contribuindo para o crescimento da capacidade militar da ameaça nuclear soviética…

AS: Bem, quando você está falando de mísseis MIRV, você está tratando de um grande salto em sua tecnologia militar. Ora, eu não sou militar, mas para mim, a habilidade de fazer isso é um avanço maciço na capacidade militar, e nós permitimos isso consciente e deliberadamente.

SM: Durante a Guerra do Vietnã, a União Soviética e os países satélites do leste europeu eram os principais fornecedores de suprimentos bélicos aos norte-vietnamitas que estavam matando rapazes americanos no Vietnã do Sul. O senhor poderia comentar sobre a nossa ajuda e comércio com a União Soviética e os países do leste europeu durante aquele período?

AS: Não há dúvida de que os soviéticos eram os principais fornecedores de equipamentos e suprimentos militares aos norte-vietnamitas. Deixe-me dar-lhe um exemplo: Os pilotos americanos, enquanto voavam sobre a Trilha Ho-Chi-Minh, descreveram os caminhões que viam como caminhões americanos. Bem, eles eram americanos, uma vez que vieram da fábrica Gorky e essa fábrica foi construída por Henry Ford. Então, você tem uma situação onde nós estávamos fornecendo para os dois lados na Guerra do Vietnã.

SM: Se os caminhões estavam sendo fabricados na União Soviética, eles receberam algum equipamento americano para fabricá-los?

AS: Sim. Especificamente no início dos anos 1970, tomei conhecimento de embarques de equipamentos para a fábrica Gorky enquanto a guerra transcorria, os quais permitiram que os soviéticos produzissem mais caminhões a serem utilizados pelos norte-vietnamitas.

SM: E quanto a empréstimos? Os Estados Unidos estavam concedendo empréstimos aos soviéticos durante esse período em que eles eram os principais financiadores dos norte-vietnamitas?

AS: Sim. Começando por volta de 1970, houve uma enorme concessão de empréstimos à União Soviética. Em 1976, tais empréstimos totalizavam talvez 40 (quarenta) bilhões de dólares. Um valor extraordinário.Obviamente, tais empréstimos permitiram que a União Soviética adquirisse equipamento industriais dos Estados Unidos. Em parte, esse equipamento industrial foi usado para produzir suprimentos militares usados contra nós no Vietnã.

SM: E quanto à marinha mercante russa no transporte de suprimentos ao Vietnã do Norte?

AS: As remessas pela marinha mercante russa são exemplos muitos interessantes porque a frota russa, umas seis mil embarcações…e eu analisei cada um desses navios: a origem da tecnologia do navio em si, a capacidade de carga e os motores. A maioria era equipada com motores diesel marítimos. Eu descobri que sessenta por cento da marinha mercante soviética, que obviamente tem utilidade militar, foi construída em estaleiros estrangeiros, e quarenta por cento na União Soviética, mas basicamente usando projetos ocidentais .Agora, quando você trata de motores diesel marítimos, você descobre algo realmente fascinante. Você descobre que oitenta por cento dos motores diesel da frota mercante soviética são ocidentais : Bermeister&Wein, de Copenhague, Sulzer, da Suíça, FIAT, da Itália…esse nome já veio à tona anteriormente. Mas os outros vinte por cento dos motores diesel da frota mercante russa foram fabricados de acordo com projetos ocidentais e acordos de assistência técnica com a Sulzer e a Bermeister&Wein. Portanto, para qualquer efeito, não haveria marinha mercante russa sem a assistência do Ocidente.

SM: E quanto à construção da fábrica do Rio Kama (tributário do rio Volga, Rússia)?

AS: A fábrica do Rio Kama foi construída entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970. O projeto básico foi entregue à italiana FIAT. Giovanni (Gianni) Agnelli é o presidente da empresa. Isso é importante, por que Agnelli tem ligações com o Chase Manhattan Bank. Ele está no International Advisory Committee (IAC) do Chase Manhattan (Rockefeller) O que chamou minha atenção foi o fato de que a FIAT não produz equipamentos para a fabricação/montagem de automóveis. Todas as fábricas da FIAT na Itália usam máquinas e equipamentos americanos. O que eu descobri foi que 60-70 por cento dos equipamentos da fábrica do Rio Kama vieram dos Estados Unidos, dos principais fornecedores de máquinas para a indústria automobilística nos Estados Unidos.Eu penso que a fábrica ser conhecida como sendo da FIAT foi talvez um disfarce para desviar a atenção do fato de que, durante a Guerra do Vietnã, estávamos construindo a maior fábrica de caminhões do mundo, cobrindo uma área de 36 milhas quadradas (aprox. 93 km²) .Nós estávamos construindo para os soviéticos, com equipamento americano, a maior fábrica do mundo e esta levava o nome da FIAT. Então eu acho que foi uma fachada.

SM:Então eles estavam fabricando seus caminhões, veículos blindados de transporte de pessoal e outros coisa que poderiam ser usadas na guerra no Vietnã do Sul?

AS: Nós sabíamos que a fábrica em Kama tinha potencial militar e em 1972 eu escrevi “National Suicide [Suicídio Nacional]”. Eu disse basicamente o mesmo em Miami Beach em 1972: essa fábrica tem potencial militar, pode produzir veículos militares. Sabíamos disso. E é claro, hoje [ano 1980], no Afeganistão, os veículos produzidos por essa fábrica construída por companhias americanas e italianas estão lá.

SM: E foi depois que senhor apresentou essas informações que surgiram pressões para a supressão de seu livro “National Suicide” e também de outros estudo seus?

AS: Sim, sim. Porque eu revelava o fato de que a fábrica do Rio Kama tinha potencial militar, que estávamos capacitando os mísseis soviéticos com tecnologia MIRV ao vender-lhes máquinas da Bryant Chucking Grinder Company, e é claro, outros fatos correlacionados.

SM: E que tipo de pressão foi feita sobre o senhor e sobre a editora de seu livro “National Suicide”?

AS: A pressão sobre a editora foi para evitar a publicação. A editora se recusou a fazer isso. A pressão sobre mim, primeiramente, foi no sentido de desistir da publicação. E então, um tipo bastante fraudulento de pressão. Na Hoover Institution que eu havia plagiado o volume 3 da minha série sobre tecnologia ocidental, que estava sendo publicada pela Stanford University. Bem, primeiramente, eu os desafiei a apontar o plágio e ninguém foi capaz de encontrar nem sequer duas frases plagiadas… Então eu ressaltei que eu não poderia plagiar o meu próprio trabalho. Eu sou detentor do copyright de ambos os livros, logo não haveria maneira de plagiar a mim mesmo… É uma impossibilidade lógica. Então, a pressão foi gradualmente crescendo nos ano seguintes no sentido de que minhas pesquisas estavam caminhando num sentido…que talvez, não fosse requerido, ou bem-vindo, na falta de termo melhor e que deveria se restringir a limites mais estreitos . Nesse ponto, em 1975 eu deixei a Hoover Institution e me tornei um pesquisador independente, com liberdade para publicar o que eu quiser.

SM: O senhor soube de outras situações de esforços para suprimir publicações de livros na Hoover Institution?

AS: Eu sei de um exemplo, como qual eu tinha bastante familiaridade, e trata-se do livro de Julius Espstein sobre a “Operation Keelhaul”, um livro muito importante sobre o tratamento dados a prisioneiros de guerra russos na Alemanha logo após a II Guerra. Esse livro ficou em manuscrito por vários anos e sua publicação não foi permitida. Eu soube disso em primeira mão do próprio Julius.

SM: Certo. No final das contas acabou sendo publicado…

AS: Foi, mais tarde foi publicado.Outro exemplo que posso dar é da minha própria série sobre tecnologia ocidental. O terceiro volume foi mantido no prelo por um ano. Ora, custa muito dinheiro manter um livro parado no prelo, pois você quer recuperar o dinheiro investido. Esse livro ficou parado por um ano porque não era politicamente aceitável naquela época, apesar de ser um livro acadêmico.

SM: Então o senhor fez estudos fascinantes sobre a Comissão Trilateral. O senhor poderia nos falar a respeito da Comissão Trilateral?

AS: A Comissão Trilateral é uma organização privada, fundada por David Rockefeller em 1973. Era financiada principalmente por Rockefeller e algumas outras fundações… a [Charles F.] Kettering Foundation, a … (?) Foundation, a Ford Foundation. A Ford Foundation era uma das maiores contribuidoras. E o objetivo declarado era encorajar a discussão entre o que eles chamavam de regiões trilaterais: eu devo ressaltar que dos trezentos membros da comissão, um terço vinha dos Estados Unidos, um terço do Japão e um terço da Europa. Mas na verdade, eu descobri que as ações da Comissão Trilateral têm muito mais a ver com os interesses da comunidade de banqueiros internacionais em Nova York.

SM: No que diz respeito à influência da Comissão Trilateral sobre o governo americano, tem sido dito que houve excessiva participação de membros da Comissão no gabinete [ministério] de Jimmy Carter e na administração de Jimmy Carter.

AS: Bem, “excessiva participação” é um eufemismo, penso eu… Há cerca de duzentos milhões de habitantes nos EUA [ano de 1980]; da Comissão, setenta e sete membros são americanos, e destes, nada menos que dezoito faziam parte do governo Carter. O próprio Presidente Carter era membro da Comissão Trilateral, além dos Srs. Walter Mondale [vice-presidente], Harold Brown, Cyrus Vance, Michael Blumenthal… Brown era o Secretário da Defesa. Em outras palavras, ocuparam todos os postos-chave do gabinete e também de importantes comitês do governo; os de inteligência e defesa, p.ex., totalmente compostos por “trilaterals”. Então você tem setenta e sete americanos selecionados por um homem, David Rockefeller, então presidente do Chase Manhattan Bank, que se tornam ocupantes dos principais cargos em Washington no governo Carter.

SM: Isso lhe sugere que nós não escolhemos nossos governantes, mas que estes são escolhidos por aqueles trabalham por trás da cena?

AS: Não há outra conclusão a tirar disso. Se você olhar para quem é candidato hoje, você tem Bush (pai), um “trilateral”, Anderson, “trilateral”, Carter…

SM: Há artigos nas revistas Newsweek,TIME, US News &World Report,… muitos na grande mídia nos dizendo que não realmente há nada a se preocupar com a Comissão Trilateral. Há alguma interligação entre a Comissão Trilateral e a grande mídia nos Estados Unidos?

AS: Sim, há uma interligação, particularmente na mídia de notícias, p.ex., no Chicago Sun Times, o editor-executivo James F. Hoge é um “trilateral”. Também Saul Linel (?) editor da revista TIME,..Henry Schut (?), um diretor da CBS. Então, definitivamente sim, há ligação entre a Comissão Trilateral e a mídia.

SM: Então talvez por isso minimizem a influência da Comissão Trilateral no atual governo americano.

AS: Através de um computador cheguei ao número total de artigos publicados sobre a Comissão Trilateral desde 1973, no mundo todo; e o número é de apenas setenta e três artigos.

SM: Qual a relação entre a Comissão Trilateral e o CFR (Council on Foreign Relations)?

AS: Bem, o CFR é uma organização muito mais antiga, fundada em 1920. Eu fiz um estudo sobre os membros da Comissão e do CFR e há uma sobreposição de aproximadamente cinquenta por cento.

CORTE

LEGENDA FINAL: Esta entrevista e outras entrevistas a Stanley Monteith foram filmadas no verão de 1980. Pouco depois disso, o Professor Sutton não mais esteve disponível para aparições públicas.

Fonte: http://www.midiaamais.com.br

Publicado originalmente com o título: Antony Sutton: Um homem que pagou o preço da verdade

Transcrição e tradução: Henrique Dmyterko