C. S. Lewis

 

C.S. Lewis

Editora Quadrante

Clive Staples Lewis nasceu no inverno de 1898 em Belfast, Irlanda do Norte. Do pai, galês, advogado de profissão, herdou a tendência romântica, sentimental e apaixonada; da mãe, inglesa, o raciocínio lúcido, a ironia e o senso prático; dos dois, o amor aos livros. Aos seis anos, morreu-lhe a mãe, e com ela “desapareceram da minha vida toda a tranqüilidade e segurança”. Hipersensível, imaginativo, voltado para a auto-análise e empenhado desde muito cedo na busca do que chamaria joy, “alegria”, na compreensão e procura das emoções, em breve desenvolveria também ao extremo o senso crítico e racional, talvez para alcançar a sempre evasiva equanimidade de temperamento. Até o fim, seria esse homem inquieto, um pouco mal-amanhado como tantos de nós, romântico de coração e clássico de cabeça – mas de grande coração e grande cabeça – que vislumbramos nas entrelinhas de tudo o que escreveu.

Recebeu a primeira educação religiosa no “protestantismo do Ulster”, mas numa versão pouco rigorista, atenuada pelo temperamento paterno. Já aos treze anos, num colégio interno, veio a perder a fé e a declarar-se “ateu”, e essa atitude só se reforçou durante o período em que estudou grego e latim com um preceptor curiosíssimo, um racionalista extremo que “nunca emitiu uma única opinião na vida” , exigindo de si e de todos os que o cercavam – inclusive das amigas cinqüentonas de sua mulher, durante um memorável jogo de bridge! – uma fundamentação lógica cabal para tudo o que dissessem e fizessem…

() Conforme Lewis conta em Surprised by Joy (“Surpreendido pela alegria”, 1955), 28ª. ed., Harper Collins, Londres, 1991; todas as citações feitas neste artigo procedem dessa obra, a não ser que se indique explicitamente o contrário.

Empenhado desde criança, com o irmão, em elaborar um mundo fantasioso, Animal-land, Lewis descobriu na juventude a atração pela mitologia nórdica e grega e pelos autores de ficção. Familiarizou-se praticamente com toda a literatura inglesa, desde as origens até aos seus contemporâneos, e teve contato, através dos professores e amigos, com todo o tipo de correntes de idéias e tendências religiosas que pululavam na Inglaterra dessa época, do ocultismo e da magia até ao socialismo e freudismo, e com as diversas Igrejas cristãs presentes na “pátria da tolerância religiosa”. Não faltaram, entre as suas leituras, G.K. Chesterton (que lhe pareceu ter “mais bom-senso do que todos os modernos juntos”) e George MacDonald, que preparariam a sua posterior conversão e aos quais se referiria algumas vezes como os “mestres que lhe ensinaram o cristianismo”.

Em 1916, prestou exames para Oxford e foi admitido no Trinity College. No ano seguinte, foi convocado para o exército – estava em curso a Primeira Guerra –, chegou às trincheiras em novembro e foi ferido por uma granada poucos meses depois. Dispensado, retomou os estudos e graduou-se em primeiro lugar em Filosofia, Línguas Clássicas e Língua e Literatura Inglesa. Em 1925, foi eleito membro e tutor de Língua e Literatura Inglesa do Magdalen College na mesma Universidade.

Nesses anos, davam-se no seu interior os lances decisivos do xadrez em que Deus o ia levando ao xeque-mate. A ocasião foram as leituras: “Um jovem ateu nunca será suficientemente cuidadoso com o que lê, se quiser guardar a sua fé”, ironizaria. Mas foram-no mais ainda os amigos, entre eles o então antroposofista Owen Barfield, o “papista” J.R.R. Tolkien e o anglicano Hugh Dyson. O primeiro lance, ainda nos anos de estudante, foi a dúvida pertinaz, nele suscitada pelos esotéricos, de que poderia haver “alguma coisa” para além do mundo material; depois, o reconhecimento da existência de um “Espírito Absoluto”, tal como o descrevia o idealismo alemão; a seguir, a compreensão de que esse Espírito não podia confundir-se com o universo criado como uma espécie de Energia impessoal, mas era transcendente e pessoal. Por fim…

“Os leitores devem imaginar-me sozinho no meu quarto em Magdalen, noite após noite, a sentir <…> a aproximação contínua e impiedosa dAquele que eu desejara tão a sério não encontrar nunca. Aquilo que eu mais temia estava-me alcançando por fim. Durante o trimestre escolar da Trindade de 1929, eu me rendi, admiti que Deus era Deus, ajoelhei-me e rezei: talvez fosse, naquela noite, o convertido mais desanimado e relutante de toda a Inglaterra. Não conseguia enxergar algo que hoje me parece claro e evidente: a Humildade divina, que chega até a aceitar uma conversão como a minha. O Filho Pródigo voltou para casa pelos seus próprios pés; mas quem poderá adorar devidamente esse Amor que escancara os seus altos portões a um filho pródigo que é trazido para, dentro escoiceante, relutante, ressentido, olhando para todos os lados à procura de uma oportunidade de escapar?”

Mas tinha chegado apenas ao teísmo, não ao cristianismo. Faltava reconhecer a divindade de Cristo, a Encarnação de Deus. Uma longa conversa que teve com os seus colegas professores Tolkien e Dyson, numa noite ventosa de setembro de 1931, parece ter “ligado” a conexão que faltava: no dia seguinte, enquanto acompanhava o irmão ao zoológico, compreendeu que todos os velhos mitos que sempre admirara, mas que lhe pareciam apenas “mentiras envoltas em prata”, e nos quais figurava tantas vezes a imagem de um deus que redime os homens, eram na verdade prefigurações confusas ou sonhos pressagos do que realmente aconteceria na Encarnação, na vinda ao mundo do Verbo de Deus. Doze dias depois, escreveu a um amigo: “Acabo de converter-me da crença em Deus à crença definitiva em Cristo – ao cristianismo” .

() Surprised by Joy, págs. 182-183.

() Carta a Arthur Greeves, em Humphrey Carpenter, J.R.R. Tolkien, Martins Fontes, 1992, págs. 165-166.

Desde a sua conversão ao teísmo, passara a freqüentar a paróquia anglicana mais próxima e a capela do College: “Parecia-me que tinha obrigação de «desfraldar o estandarte» da minha crença por meio de um sinal externo insofismável”. E depois de quase dez anos de silencioso amadurecimento intelectual e espiritual, C.S. Lewis – como assinaria todas as suas obras – resolveu lançar-se à brecha em defesa do cristianismo autêntico, alvo perpétuo de ataques nos meios intelectuais. Com a publicação do conhecido The Screwtape Letters (“Cartas de um demônio ao seu sobrinho”, 1942), firmou a sua reputação como “o mais popular dos apologistas cristãos”, completada pelos ensaios que escreveu sobre temas diversos como The Problem of Pain (O problema do sofrimento”, 1940), The Abolition of Man (“A abolição do homem”, 1943) ou Miracles (“Milagres”, 1947). Ao mesmo tempo, o abstrato scholar de Língua e Literatura inglesa dava vazão ao seu poder imaginativo numa série de romances de ficção científica (a Trilogia de Ransom, 1938-45), e em contos alegóricos infanto-juvenis (as Crônicas de Narnia, 1950-56), que conheceram imenso sucesso.

Em 1952, a poetisa americana Helen Joy Gresham (curiosa coincidência: joy) literalmente intrometeu-se – com sucesso – na sua mui britânica vida de solteirão acadêmico. Embora soubesse que ela estava com câncer, Lewis aceitou-a em casamento, e por algum tempo desfrutou dessa “festa do amor” que é o matrimônio. A morte da esposa, poucos anos depois, afetou-o profundamente; mas, como “animal escritor” que não conseguia deixar de ser, foi tomando nota de todo o processo de um luto que pouco a pouco se transformava em aceitação da dor e reencontro com Deus. Esses apontamentos formam A Grief Observed, “Uma dor observada” (1961), livro que é um dos mais sinceros registros da emoção humana jamais escritos, e que viria a servir de base para o roteiro de Shadowlands, “Terras de sombra”, de Richard Attenborough (1993).

Em 1954, já uma figura de renome internacional, Lewis tornou-se professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge. Continuou a escrever e a dar palestras até a sua morte, em 22 de novembro de 1963, ocorrida na sua casa de Oxford. Apesar de um certo “ostracismo” por parte da mídia nas últimas décadas – como tem acontecido, em geral, aos autores cristãos –, os seus livros estão já traduzidos para a maioria das línguas modernas e vêm conhecendo um sucesso crescente. Recentemente, os estúdios Disney produziram um filme baseado no segundo volume das Crônicas de NarniaO leão, a feiticeira e o guarda-roupa – que em pouco tempo atingiu o topo das listas dos mais vistos.

Fonte: Mero Cristianismo. Editora Quadrante, São Paulo, 1997. Págs. 5-8.

Tradução: Quadrante

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