GEORGE STEINER E O CATOLICISMO

Nivaldo Cordeiro

Foi chocante ler na Introdução do livro de George Steiner: “A meu ver, não será possível que a cultura europeia recupere as energias que a alimentam e o auto-respeito enquanto o mundo cristão (sic) não assumir sua responsabilidade pelo papel seminal que teve na preparação da Shoah (Holocausto), enquanto não reconhecer sua hipocrisia e sua impotência quando a história da Europa encontrava-se em um ponto crucial” (Nenhuma Paixão Desperdiçada, Editora Record, 2001). Nessa sentença há mais confusão e ignorância do que poderíamos imaginar à primeira vista, sobretudo por vir de um autor de erudição enciclopédica. A miopia de Steiner só foi possível porque ele, judeu de nascimento, parece jamais ter tido um pingo de fé. Não sabe de onde veio a Verdade. Se admirou e exaltou os heróis judaicos da ciência, teve pouca ou nenhuma palavra para os profetas, os grandes e verdadeiros heróis do judaísmo. Um ateu darwinista não poderia entender o Holocausto.

No mesmo livro temos um ensaio provocador sobre a colonização e o papel dos EUA nos tempos modernos (Os Arquivos do Éden). Ele acertou em quase tudo na intepretação da América, menos naquilo que é absolutamente essencial: a América como a realização plena do Estado moderno, da sociedade de massas, do triunfo do homem-massa. Por não compreender isso, sua interpretação da história daquele país naufraga dramaticamente. Steiner anseiava pela ordem aristocrática sem se dar conta de que ela é incompatível com o Estado moderno. Mais e mais caminhamos para a oclacracia. O que é Obama nas alturas? A ococlaria em Estado avançado.

Ponto número um. O catolicismo não tem qualquer responsabilidade no Holocausto. Steiner, se tivesse sobrevivido, literato como foi teria apreciado a obra de Johathan Littel, judeu como ele, que escreveu o romance definitivo sobre a loucura do nazismo (As Benevolentes). Mas nem precisaria. Bastaria ter compreendido corretamente a obra de Goethe e de Thomas Mann. E de Nietzsche. Steiner decorou esses autores, mas não os compreendeu. E por isso não compreendeu o nazismo. Algo notavelmente trágico para quem foi judeu militante, embora ateu (um paradoxo).

Ponto número dois. A América foi resultado da ocupação do território americano por gnósticos inimigos do catolicismo, daí talvez porque Steiner tenha tido tanta simpatia pelos Puritanos e pelos seus esforços colonizadores. Teria ele também apreciado outro autor, Comac McCarthy (Meridiano de Sangue), que fez relato dramático do extermínio dos índios para limpar o território para a ação civilizatória dos Puritanos. O Éden era o inferno na terra. O sacrifício humano ali realizado foi antecipação do nazismo. McCarthy, como eu, vê o Mal personificado em ação, o mesmo que atacou pelas mãos dos nazistas, que viraram seu servo.

Compreender a obra Goethe é essencial. Ele fundou o esteticismo alemão, uma mistura malsã de protestantismo e satanismo, que teve o grande mérito de narrar o que se passou na mente europeia do século XVIII, quando a mente revolucionária se consolidou e tomou de fato o poder de Estado na Europa. Essa gente foi vitoriosa contra o catolicismo, que sempre viu nesse movimento a mão de Satã. O essencial desse autor é que ele não reconhecia papel relevante para o cristianismo/catolicismo na Europa, mas apenas para o grego e o teutônico. É como se a Igreja de Roma jamais tivesse existido. Steiner também pensava semelhante, macaqueando Goethe, só que no lugar do teutônico colocou o judeu. O fato é que essa mistura de protestantismo com satanismo engendrou Hitler, cujo herói maior, além do próprio Goethe, era Nietzsche, autor que nunca escondeu seu desprezo pelos judeus e pelos cristãos.

Quem matou os judeus no Holocausto foram os que seguiram Nietzsche e Goethe, inclusive judeus, como Kelsen, que levaram seu materialismo às últimas consequências, inclusive contra si mesmos. Não foram os que seguiram o Evangelho de Cristo. Esse é o horror desses tempos, em que o Mal deixou de botar medo nos intelectuais a ponto de se oferecerem eles mesmos como sacerdotes do Maligno. Acusar o catolicismo é ignorar que o esteticismo, na esteira no Renascimento e da Reforma, já o tinha feito e derrotado politicamente. Estados controlados pelos seguidores do esteticismo é que fizeram a matança, para horror dos verdadeiros cristãos.

Pior. Esse movimento dantesco de consagração acrítica ao Mal continuou mesmo depois de Hitler, como mostra adesão ao comunismo e suas variações coletivistas, filhos diretos do esteticismo alemão. Uma variante triunfal desse movimento é a doutrina dos direitos humanos, esposada por Hanna Arendt (Celso Lafer entre nós) e que é uma mixórdia satânica que não apenas não tem forças para conter a tirania, como ela pensava, mas é ela própria veículo para a tirania. Sessenta anos depois estamos vendo onde foi dar essa loucura que envenenou o Direito: na multiplicação de falsos direitos que não passam da positivação de vícios variados, todos anticristãos. É o triunfo do Mal e o ocaso do Bem.

O Estado norte-americano é o esplendor do Estado moderno, no que ele tem de mais destrutivo e anticlássico. No filme Lincoln podemos ter um relance no momento da construção desse império moderno. Talvez o único grande império que restou, depois da derrocada da ex-URSS.

Todo o drama da confusão de Steiner se dá porque ele não compreendeu qual é a fonte última da Verdade. Uma aula com Olavo de Carvalho teria lhe aberto os olhos (Espírito e personalidade) Não é o intelecto humano que comanda a descoberta. Por sua maneira de escrever fica a impressão de que há um elemento de raça darwinista nessa descoberta, com privilégios para gregos e judeus. Uma teoria racista por detrás da sua argumentação, igualzinha à dos nazistas. Ideia falsa e perigosa. Nefasta. Steiner não se deu conta de que comprou do inimigo o que ele tinha pior. E também o ódio ao catolicismo.

É o tipo de livro a se ler com luvas e lupa. Todo teórico que se funda em hereditariedade e raça está errado. Minha crença mais profunda é a de que a humanidade é uma só e o Espírito se revela onde bem entende, não dando bolas para condições biológicas.

Fonte: NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado 

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