Krokodil: a manifestação física do mal e seus antecedentes – Parte 2

Cristian Derosa

Mais tarde, Austin Osman Spare, discípulo de Crowley, ficou conhecido por seus escritos esotéricos nos quais prescrevia rituais da chamada magia sexual. O sexo, segundo Spare, concentra imensa força energética justamente por representar os instintos mais primitivos de busca pelo prazer. Tanto que Spare e seu mestre utilizavam as drogas como meios de alcançar estes supostos estágios superiores de consciência, e defendiam o uso de substâncias para vários tipos de tratamento psíquico e cura espiritual.

Segundo Spare,

“para se poder apreciar adequadamente a idéia da Nova Sexualidade, é necessário que a mente se dissolva no Kia e que não haja stress na consciência (i.e., pensamento), pois os pensamentos modificam a consciência e criam a ilusão absurda de que o indivíduo ‘possui’ a consciência”. [1]

A partir da década de 1960, o psicólogo Timothy Leary ficou famoso por afirmar os benefícios espirituais e terapêuticos do LSD, considerando a droga psicotrópica como um elemento essencial para o progresso humano. Mesmo após sua expulsão de Harvard, depois de fazer experimentos de drogas com uma turma de jovens, Leary se tornou um dos mais influentes intelectuais do século, um verdadeiro ícone da contracultura. Leary era membro do Esalen Institute, o maior difusor dos movimentos Nova Era no mundo. Era também ligado à KGB e se dizia um continuador de Crowley.

Leary criou oito categorias para as drogas, os chamados “Oito Circuitos de Consciência”, nos quais as drogas variavam conforme o nível de afinidade cognitiva ou social sobre o qual ela agia. Trata-se de “graus evolutivos” que se dirigem a uma superioridade conforme avança-se os circuitos. O ópio e seus derivados, por exemplo, pertencem ao primeiro circuito, o chamado “sopro de consciência”. A maconha fica no circuito cinco e o chá do Santo Daime (ayahuasca) está no nível mais alto (oito) de “transcendência”, depois do LSD (nível sete).

No livro A experiência psicodélica: manual baseado no livro tibetano dos mortos (1964), Leary destaca a importância de drogas como o LSD como chave de abertura da consciência, comparando seus efeitos com as proezas psíquicas das antigas religiões tibetanas. Junto a escritores como Fritjof Capra e outros contemporâneos, Leary defendia a adoção da psicologia oriental para a transformação e experimentação da consciência afim de ultrapassar novas fronteiras. O objetivo das experiências com LSD era a perda do ego, coisa necessária para alcançar a verdadeira transcendência.

“As reações físicas devem ser reconhecidas como sinais indicativos da transcendência. Evite tratá-las como sintomas de doença, aceite-as, una-se a elas, aproveite-as […]. O flashback do ego-jogo é acompanhado por uma preocupação com a identidade. ‘Quem sou eu agora? Estou morto (a) ou não-morto (a)? O que está a acontecer?’ Você não consegue determinar. Vê o que o cerca e a seus como costumava fazer antes. Há uma sensitividade penetrante. Mas você está em outro nível. A compreensão do seu ego não é mais tão segura quanto antes”. [2]

Leary morreu em 1996. O livro A experiência psicodélica… foi escrito juntamente com os colegas de Harvard, Ralph Metzner e Richard Alpert. Metzer é hoje co-fundador e presidente da Green Earth Foundation, organização não governamental de fomento da educação e integração do homem com a natureza. É professor emérito da California Institute of Integral Studies e, junto de outros 10 pesquisadores, produziu um documentário Entheogen: o despertar do interior divino (2006) sobre o redescobrimento da magia e do xamanismo no mundo moderno unido-os a ideais ecológicos, outra agenda inspirada pelo esoterismo[1] neo-pagão.

Todos os grupos gnósticos trabalham com a idéia da busca pessoal pela transcendência, algo recorrente em todas as religiões. Ocorre que no espaço esotérico, especialmente nos que caracterizam a chamada Loja Negra ou Caminho da Mão Esquerda, esta busca se faz por meio de instrumentos exteriores ao homem, o que pode ser tanto a chamada magia sexual de Spare, como pelo uso de drogas psicotrópicas e alucinantes como mecanismos de elevação da consciência. Uma parte significativa destas pseudo-doutrinas esotéricas de loja negra ganhou o mundo da cultura ocidental em suas formas exotéricas e deu origem à cultura da Nova Era.

Dentre estes elementos exteriores que servem de instrumentos à elevação da alma, está, logicamente, o corpo. O papa Bento XVI sinalizou na encíclica Deus Caritas Est à questão do dito materialismo moderno e a sua adoração ao corpo, a evidente erotização no âmbito da cultura. Ao descrever o entendimento da palavra amor, delimitando entre as suas duas acepções, Eros e Ágape nas culturas gregas pagãs, aponta que a divinização do sexo ou o materialismo que atribuímos ao mundo de hoje, não se tratam tanto de uma idolatria do corpo ou à matéria, mas do rebaixamento do corpo ao papel de mero instrumento, do qual se fará uso na busca do prazer e até de uma transcendência. O erotismo atual “para o homem, não constitui propriamente uma grande afirmação do seu corpo. Pelo contrário, agora considera o corpo e a sexualidade como a parte meramente material de si mesmo a usar e explorar com proveito”. Neste caso, tudo vale para o prazer da transcendência, já que o corpo é uma parte inferior e rudimentar do homem, tal como todas as implicações do uso da matéria. Trata-se de uma sugestão muito cabível: a de que as drogas e o erotismo dos dias atuais não têm, como muitos pensam, relação com o materialismo e sim com especulações místicas anti-materialistas.

Ahmed Youssef, muçulmano brasileiro que vive hoje na China, diz que a partir da experiência mística faz-se a confusão, quando o indivíduo confunde Deus com ele mesmo. E as drogas reafirmam o mérito do indivíduo, já que a “experiência mística” passa a ser controlada por ele. Guenon reafirma a confusão quando trata do espiritismo, ao afirmar que muitas das manifestações de cunho místico são reais, mas representam um relacionamento com resíduos psíquicos inerentes à corporalidade e não à espiritualidade como é interpretada (metenpsicosis). Crowley dava grande importância a estes “resíduos” e os considerava “criaturas geradas artificialmente”, e então cita os estudos de Paracelso. A criação de organismos já existentes em planos sutís, como Crowley descreve, representava para ele o grande relacionamento com a Serpente.

O controverso psicólogo da contracultura Timothy Leary, seguidor de Aleister Crowley (e aí temos uma amostra de cumplicidade mais do que evidente), exerce ainda uma influência notória sobre toda a cúpula do globalismo tecnocrata ocidental. Seria um exagero afirmarmos que parte dos intelectuais dirigentes das Nações Unidas está envolvida em planos que foram iniciados por Crowley, a “Grande Besta”? Crowley, Spare e Leary (só para citar estes poucos autores), tiveram conhecidos adeptos no meio artístico, sabe-se. Fica a pergunta: e onde mais? O fato é que muitos de seus seguidores estão hoje engajados na causa ambiental ou em seitas de grande poder político e continuam a defender o uso de drogas para encontrar um tipo de transcendência mística. As políticas de “redução de danos”, cujo objetivo é orientar o usuário para o “uso responsável de drogas”, é amplamente defendida pelas Nações Unidas ao mesmo tempo em que o órgão luta para combater a intolerância religiosa forçando a legitimidade de seitas e cultos alternativos, em detrimento das grandes religiões vistas como intolerantes e fundamentalistas (como denuncia o livro False Dawn, de Lee Penn, ainda sem tradução para o português).

Drogas de uso declaradamente místico como a ayahuasca (Santo Daime) são liberados no Brasil enquanto proibidas na maioria dos países do mundo. Tendo em vista o crescimento do comércio de drogas no país, motivado por conluios com o governo brasileiro, vemos aí bons elementos para crer que os fundamentos satanistas de Crowley foram motivadores de um movimento que conta hoje com todos os instrumentos disponíveis para crescer.

Não há dúvidas de que desde o sonho de Coleridge, até as teorizações de Leary, há um elemento e uma sequência de sugestões que provém não só de pessoas altamente temíveis, mas necessariamente de manifestações malignas objetivas legadas por meios subjetivos e utilizando-se de fraquezas humanas como o hedonismo na busca do prazer, inflando-as e por meio de um suporte teórico bastante sofisticado. Nenhuma fraqueza humana (desejamos acreditar) teria o poder de teorizar-se em um sistema que multiplicasse o desejo tão agudo do próprio mal ao ponto do resultado que vemos nas imagens dos efeitos do krokodil e tantas outras. Se em Fátima foi dito que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo, talvez não se estivesse referindo somente ao comunismo que matou 100 milhões de pessoas no século XX, mas também a este terrível aspecto da morte que vemos nas imagens e que traz em sua essência a própria manifestação física do mal.

Observem que Crowley, ao intitular-se a Grande Besta, iniciava um processo de destruição do homem mediante o hedonismo. Leary, por sua vez, ao prometer uma elevação da consciência, também pregava o fim do ego e a negação da própria consciência. Do mesmo modo, prometendo o prazer e o sentir-se vivo, as drogas terminam destruindo o corpo. Por fim, é fácil perceber que as vítimas dessa droga assemelham-se a cadáveres. Certamente eles já invejam os mortos, mas foram terrivelmente enganados pela morte.

Nota:

[1] Esoterismo (com “s”): trata-se de práticas místicas de cunho iniciático, ou seja, que demanda cerimônia de iniciação e segredo ou ocultismo. Já o termo ‘exoterismo’ é o conjunto de práticas místicas difundidas abertamente a todos (ex – para fora), uma simplificação do esoterismo.

Referências:

http://www.unadfi.org/

A postura da morte e a nova sexualidade – Austin Osman Spare

O livro do prazer – Austin Osman Spare

Renascer da Magia – Kenneth Grant

A experiência psicodélica: manual baseado no livro tibetano dos mortos – Timothy Leary, RalphMetzner, Richard Alpert.

The Diary of a Drug Fiend – A. Crowley

Como vencer a guerra cultural – Peter Kreeft

False Dawn – Lee Penn

O Erro Espírita – René Guenon

Leia também a primeira parte do artigo: Krokodil: a manifestação física do mal e seus antecedentes – Parte 1

Fonte: Mídia Sem Máscara

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