O homo religiosus e o conhecimento de Deus

Pedro Ravazzano

O secularismo moderno, herdeiro legítimo do iluminismo, mostra-se pujante e o real responsável por forjar a realidade social na qual o homem está inserido. Contudo, quando parecia que os raios da divindade se extinguiam como o último feixe de luz de uma estrela já morta, como anunciara Nietszche, a experiência religiosa não só se mostra desperta como vem se transformando numa nova potência dentro das exigências do homem atual. Assim, a verticalização da existência, oposta ao materialismo hodierno, reencontra a razão aberta ao absoluto, totalmente diferente da razão amputada defendida pela Ilustração.

A verdadeira liberdade, diferente daquilo que fora proclamado pelos revolucionários de outrora, não se encontra na desconstrução da fé. A utopia de que o mundo distante do dogmatismo religioso seria sinônimo da real autonomia humana se mostrou um pesado fracasso. As intempéries do século XX apresentaram esse novo “sujeito” frente a Deus. Usando uma linguagem zubiriana podemos dizer que quando o homem se considerou absoluto não só em relação ao seu eu – realidade “sua” -, mas também frente às coisas, se encontrou fechado àquilo que é fundamental na sua constituição mesma, ou seja, o caráter cobrado perante o real, de pessoa que só faz seu eu com as coisas, com os demais homens e consigo mesmo. Portanto, o homem fechado à realidade – ideologia, preconceitos etc – não mais compreende o caráter possibilitante, impelente e último desta.

O homo religiosus, ardorosamente combatido, é uma constante na história e reflete a busca incansável do homem por Aquele que é o fundamento mais profundo da existência. A realidade da “transcendência” é justamente a consciência a respeito de um duplo aspecto humano: do seu conhecimento limitado e da sua necessidade ilimitada. A auto-suficiência nada mais é do que a revolta frente ao inefável, direcionada àquele que é o único capaz de saciar o desejo profundo e íntimo do ser do homem. Assim, como disse o Santo Padre, “o homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus.” Destarte, a atração do homem a Deus é reflexo da própria marca divina na alma.

O homem implantado na realidade é chamado a conhecer o seu próprio ser. Não obstante, na época moderna, esse convite foi renegado mediante o fortalecimento das ideologias que o fecharam para essa inquietude da existência. Desse modo, sem a necessidade de aprofundar em si mesmo, pelo descobrimento da sua nova condição soberana, o “indivíduo” moderno constatou que estava sozinho e que era absoluto em relação às coisas. Entretanto, apenas pela atração profunda e íntima que Deus exerce no homem, é este capaz de sair de si e viver a sua vida divina.

O homem, então, para chegar a Deus necessita fazer um movimento de retorno. Enquanto constitutivamente religado, a busca pelo seu fundamento se faz não por meio da saída de si, mas mediante o compreender desde onde se veio, aceitando a realidade. Esse é o problema da existência, o problema do ser mesmo do homem enquanto fundamentado em Deus. Edith Stein também dirá, nessa mesma linha, que o homem livre e em construção se compreende no íntimo, isto é, na sua essência. Portanto, é através da presença íntima de Deus, Ser infinito e criador, nas criaturas, nas coisas e na realidade, que pode o homem, a partir da sua vontade livre, conhecê-Lo ao conhecer a si mesmo.

Fonte: Acarajé Conservador

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