O Doutor Fausto de Thomas Mann – I

Nivaldo Cordeiro

Símbolos. É tudo que se precisa compreender para uma boa leitura da obra de Thomas Mann, especialmente o seu Doutor Fausto. Nenhuma palavra poderá ser desprezada no romance, sob pena de se perder o fio de raciocínio do autor na obra. O Doutor Fausto é o apogeu da carreira de romancista de Thomas Mann e é também a maior e melhor interpretação da tragédia alemã, que culminou na II Guerra Mundial.

Não se pode compreender o que aconteceu se não forem buscadas as raízes. O ponto inaugural do processo histórico alemão se deu com a Reforma, que teve duas conseqüências. A primeira foi a negação da hierarquia natural e, portanto, o triunfo do igualitarismo, que virá a ser a idéia mestra da modernidade, consolidada com a Reforma. Esse igualitarismo, no plano político, redundou na emergência do homem-massa ao poder. A segunda foi a franca rebelião contra Deus, que irá significar aquilo que Fernando Benayon captou sinteticamente na fascinante personalidade do personagem Adrian Leverkhün, a proibição de amar. Quem não cumpre o primeiro mandamento, amar a Deus sobre todas as coisas, não pode cumprir o segundo, amar ao próximo como a si mesmo.

É nesse contexto que se deve inserir a obra seminal de Goethe, o profeta e o grande intérprete da Alemanha antes do próprio Thomas Mann. A lenda do Fausto (e a também de Mefistófeles, o Demônio do Norte, seu correlato) é essa expressão poético-literária que dá o conteúdo da alma alemã. É aqui que se funda a idéia de germanidade, que irá gerar o racismo nazista, de trágicas conseqüências, bem como a depreciação do elemento da civilização, um sinônimo perfeito para a herança católica. Fausto é essa inflação do indivíduo que busca superar o próprio criador. Goethe, ao imaginar a Noite de Valpurgis Clássica, onde expôs o intercurso entre Helena e Fausto, mostrou esse impetuoso desejo germânico de abolir qualquer relevância de Roma e do catolicismo, como se isso fosse possível. A narrativa é aterradora. A beleza poética não esconde seu caráter medonho. O filho desse intercurso, Eufórion, é uma prefiguração de Hitler. Um símbolo por excelência.

No final do século XIX essas idéias caricatas cristalizaram-se na obra de Nietzsche que, louco enlouquecido com a germanidade, o autoproclamado assassino de Deus e da moralidade, será ele mesmo o ideólogo do desamor, tão essencial ao nazismo. Nietzsche é o fundador da cultura de morte, embora dissesse o contrário, chamando a morte de vida. Thomas Mann irá fundir simbolicamente essa trilha histórica ao esculpir o personagem principal do Doutor Fausto.

Adrian Leverkühn. Ao formar o personagem, Thomas Mann conseguiu somar no mesmo símbolo Lutero, Goethe e Nietzsche. O fato de ser músico acentuou o caráter dionisíaco – demoníaco – desse momento histórico. O riso de Adrian é o sublinhar desse demonismo.

O personagem nasceu na região de Wittemberg, em Kaisersaschern, explicitando a raiz luterana. O pai é mostrado como um alquimista que lê a Bíblia traduzida por Lutero, encadernada em couro de porco. Aqui se percebe a ampla dimensão do símbolo. Nem mesmo o couro de porco usado para a encadernação pode ser esquecido. O animal imundo por excelência, o que não levanta a cabeça ao alto, o que fuça nos charcos imundos e nos monturos sujos dos quintais. Percebe-se a genialidade do autor que, nos cinco primeiros capítulos, colocou integralmente a genealogia do problema alemão, do nazismo, do mal que emergiu por inteiro na primeira metade do século XX.

Interessante que as primeiras aulas de música tomadas por Adrian Leverkhün vieram de uma mulher que vivia de pés no chão, no curral. Imunda. Inculta. Um feminino altamente negativo, demoníaco. Essa entrada da música na vida do personagem dá bem o caráter inferior que a arte musical adquire quando posta nas mãos de um seguidor de Dionísio. Essa ambigüidade da música é ancestral. O riso e a música como características do elemento negador encarnado em Mefistófeles.

O cão Suso fecha o quadro do simbolismo inicial do Doutor Fausto e estará presente ao longo da vida de Adrian Leverkhün. O cão que sempre foi o símbolo de Mefistófeles.

(Continua).

Fonte: Mídia Sem Máscara

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