O presente do nosso descontentamento

João Pereira Coutinho

LISBOA – Woody Allen tem filmado na Europa. Mas a Europa é como a mulher legítima: é sempre a última a saber. Amigos brasileiros contavam-me maravilhas de “Meia Noite em Paris”. Eu aguardava, com paciência de Jó, que Paris viesse a Lisboa.

Veio agora. Chegou num Renault dos anos 20 e levou-me para o melhor filme de Woody Allen desde “Crimes e Pecados” (1989). Não é coisa pouca. Mas, curiosamente, é sempre a mesma coisa: não há filme de Woody Allen que não transporte o mesmo descontentamento. O descontentamento do presente.

Esse descontentamento tem vários nomes, em vários filmes. Em “Stardust Memories – Memórias” (1980), filme pouco citado e pouco amado, chama-lhe Woody “a melancolia de Ozymandias”, uma referência ao poema de Shelley no qual um antigo viajante encontra uma estátua de Ozymandias, “rei dos reis”, perdida nas areias do deserto.

A melancolia de Woody expressa a perplexidade de Shelley: como é possível alimentar qualquer vaidade sobre a existência terrena quando a morte e o esquecimento são certos?

É uma pergunta gélida porque Woody Allen exclui a hipótese literalmente sagrada: a hipótese de um Deus onipresente e onipotente, que confere à passagem terrena um propósito e um sentido.

Não há propósito e não há sentido. Ou, parafraseando as palavras do Prof. Levy em “Crimes e Pecados” (que, sintomaticamente, se suicida no final), são os seres humanos que conferem propósito e sentido às suas vidas; e fazem-no através de coisas tão mundanas como o amor, a amizade, a arte, o trabalho –e a esperança de que talvez as gerações futuras possam saber mais.

Repito: propósito e sentido. É exatamente o que falta a Gil em “Meia Noite em Paris” (soberbo Owen Wilson). Ele, roteirista em Hollywood com assinalável desprezo por Hollywood, visita Paris com a noiva e os futuros sogros. Para ele, Paris é uma festa. Melhor: Paris era uma festa, uma “festa móvel”, tal como Hemingway a descreveu no famoso relato dos anos 20. O presente é apenas uma pálida imagem desse tempo arcádico.

Difícil discordar. Sobretudo para quem leu “Paris é uma Festa” com grata voracidade. E se o fizemos na adolescência, a coisa piora: será possível ser tão pobre e tão feliz, perguntava eu nessa idade, abismado pela vitalidade da prosa límpida de Hemingway?

É possível, dizia-me ele, quando amamos o que fazemos: existe no trabalho bem feito uma gratificação existencial que suplanta qualquer luxo. Era –e é– uma grande verdade, que só o tempo acabaria por confirmar.

Hemingway foi o meu Virgílio. Almocei com ele várias vezes no Deux Magots e na Brasserie Lipp. (O Michaud era mais caro –mas, espreitando pela vitrine, era possível ver James Joyce a almoçar com a família).

Bebíamos muito: xerez seco, um canecão de cerveja (um “distingué”) e, nos dias especiais, uma garrafa de Pouilly-Fuissé. Comia-se ainda melhor –e com pouco dinheiro: “pommes à l’huile”, ostras “marennes” (melhores que as “portugaises”, dizia-me Hemingway, para me provocar), trutas “au bleu”.

Quando o bolso apertava, ficava-se em casa, a trabalhar, onde havia tangerinas e castanhas assadas. Ou, nas visitas ao salão de Gertrude Stein, ameixas escuras e amoras silvestres.

Foi em casa de Miss Stein, aliás, que aprendi o mais importante conselho literário: só ler livros verdadeiramente bons ou verdadeiramente maus. São os únicos que ensinam alguma coisa.

Woody Allen também leu (e viveu) “Paris é uma Festa”. E o que impressiona em “Meia Noite em Paris” é a apropriação criativa da idealização de Hemingway –essa “idade de ouro” que ressuscita com as doze badaladas para resgatar Gil do descontentamento do seu presente, transportando-o para o passado.

Gil vai. Gil conhece: Zelda e Scott Fitzgerald. Cole Porter. Hemingway “himself”, que fala como o verdadeiro escrevia: em golfadas de romantismo e fanfarronice.

Mas Gil também conhece Adriana (Marion Cottillard, “ma chérie”), que partilha com Gil a mesma nostalgia pelo passado. Só que, para ele, o passado é Paris nos anos 20. Para ela, que vive nos anos 20, a verdadeira nostalgia é Paris na Belle Époque.

E quando ambos recuam ainda mais e vão visitar a Belle Époque ao Moulin Rouge de Toulouse-Lautrec, encontram Gauguin e Degas, descontentes com a Belle Époque –e suspirando pelo Renascimento de Ticiano e Michelangelo.

Vamos recuando, sempre e sempre, para evitar o descontentamento do presente. Mas esse escapismo não é apenas ilusório porque todas as “idades de ouro” são sempre um tempo presente, e por isso descontente, para quem as habitou. Esse escapismo permanente impede Gil de viver no seu presente. E de fazer as escolhas que dão sentido e propósito à sua vida.

Não que essas escolhas sejam garantia de nada: o descontentamento da nossa condição é erradicável –e constitui o cimento filosófico do cinema de Woody Allen.

Mas, paradoxalmente, a única forma de o mitigar ou domar encontra-se nos recursos desse mesmo presente: nas pessoas reais que o habitam de forma real –e não nos fantasmas gentis que nos acenam do outro lado do tempo.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/

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