Trecho do diário de uma jovem russa que sofreu os horrores do regime comunista de Stalin

Publico um trecho do Diário de Nina. Este trecho, escrito no dia 30 de dezembro de 1934, é fundamental para entendermos como era dura a vida na Russia nos tempos da ditadura stalinista. Meus professores do curso de filosofia da UVA, costumam dizer o que aconteceu na Russia comunista não foi o que Marx pregou em sua teoria sobre o comunismo. Mas a verdade é que foi exatamente o Marx pregou: homicídios, ditadura, violação dos direitos individuais, centralização de poder, perseguição a oposicionistas, perseguição a judeus, cristão etc., tudo isso foi pregado por Marx e como  Stalin foi um dos que melhor o compreendeu, acabou se tornando o responsável pelos tempos mais sombrios da história da Russia.

A vida na União Soviética durante os anos 1930 não predispunha de modo algum à redação de diários. Era a época em que os famigerados “tróicas” condenavam inocentes ao fuzilamento, a apoteose de Stalin estava no auge, os campos de concentração proliferavam e caçavam-se sempre novos “inimigos do povo”. Uma ameaça real: a qualquer momento a polícia irromper numa casa, executar buscas ali e prender os moradores.

É nesse contexto que vive Nina Lugovskaia, nascida em Moscou em 25 de dezembro de 1918, numa família de intelectuais de primeira geração. Começou a manter um diário em 1932, com idade de 13 anos. A ultima anotação remonta a 2 de janeiro de 1937. No dia seguinte, o NKVD (a polícia secreta precursora da KGB) vasculhou o apartamento onde ela vivia confiscando todos os documentos que ali se encontrava. Dois meses mais tarde ao cabo de uma série de bárbaros interrogatórios, Nina foi detida, junto com a mãe e as duas irmãs, e condenada a cinco anos de trabalhos forçados  no campo de prisioneiros de Kolyma (o mais duro no “arquipélago Gulag”).

***

30 de dezembro de 1934

Passaram-se muitos dias desde quando Nikolaiev membro de um grupo terrorista clandestino assassinou kirov no Smolny. Muitos artigos de jornal deram grande destaque a esse fato e muitos demagogos, papagaios oradores profissionais e muitos porta-vozes dos sovietes, gente covarde e patética, berraram sobre as cabeças dos trabalhadores agitando os punhos: “Cortemos o pescoço da víbora !”. “Fuzilemos o traidor, cujo golpe vil arrancou das nossas fileiras”, etc. muitos dos chamados cidadãos soviéticos, já tendo perdido todo o seu senso de consciência e de dignidade, comportaram-se como bestas e ergueram a mão a favor do fuzilamento.

É difícil crêr que, no século XX exista um canto da Europa onde os bárbaros medievais se estabeleceram; onde idéias primitivas convivem de modo singular com a ciência, a arte e a cultura. Antes mesmo do início da investigação, antes de saber-se de que organização se tratava, mais de cem guardas brancos foram mortos apenas porque, enquanto tais, para sua desgraça encontravam-se em território soviético.

Hoje fuzilaram outros quatorze “conspiradores”. Todos eles e aqueles cem por uma única vida bolchevique. Isso involuntariamente lembra o reinado de Alexandre II no século XX e os empreendimentos da “Narodnaya Volia”. Que furor e agitação se desencadearam no povo quando houve a execução dos seis assassinos! Por que, agora, ninguém fica indignado? Por que agora tudo isso é considerado perfeitamente natural e normal?

Por que ninguém nunca diz hoje simplesmente e abertamente, que eles são uns canalhas? E que direitos tem esses bolcheviques de tratar o país e sua gente de modo tão cruel e arbitrário, de tão impunemente proclamar leis ultrajantes em nome do povo, de mentir e esconder-se atrás de palavras altissonantes que hoje perderam seu significado: “socialismo” e “comunismo”?

Classificar de vil aquele que seguiu consciente e corajosamente para a morte, que não temia ser fuzilado pelas idéias nas quais acreditava e era melhor do que todos os chamados chefes de classe trabalhadora! O que pensam disso no estrangeiro? Também lá dirão: “Assim é que deve ser”? Oh não! Meu Deus, quando poderemos dizer verdadeiramente que todo poder pertence ao povo, que temos igualdade total e liberdade? Isso que temos agora, não é socialismo é inquisição!

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Trecho retirado do livro O Diário de Nina – O Terror Stalinista nos Cadernos de uma Menina Soviética: editora Ediouro.

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