Quis vender água e foi em cana

Bruno Pontes

índice 2011 da Heritage Foundation coloca o Brasil em 113º lugar na lista de 179 países avaliados quanto ao grau de liberdade econômica, definida pela fundação como o direito fundamental de cada ser humano de controlar seu trabalho e sua propriedade. Ficamos atrás de Gabão, Quênia e Azerbaijão. Engula o orgulho e siga a leitura.

No último domingo, o comandante-geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro mandou prender os comerciantes que cobrarem “preços abusivos” por comida, água e velas no município de Nova Friburgo. “Ninguém pode explorar a dor dos outros, se aproveitar da agonia da população para vender, por exemplo, um pacote de velas [que custa em torno de R$ 1,50] por R$ 10”, disse o comandante. Moradores contam que estão vendendo por até R$ 40 galões de água que custam R$ 6.

Desastres aumentam a demanda por produtos básicos. Sem dúvida os moradores de Nova Friburgo ficariam contentíssimos ao chegar ao mercantil e ver que a água ainda custa R$ 2, mas esse desprendimento da parte dos comerciantes traria às vítimas das chuvas problemas que as autoridades, imersas em sua benevolência policialesca, são incapazes de conceber.

Vamos ao exercício mental. Você está lá em Nova Friburgo. O cenário é catastrófico. Mulheres, crianças e idosos precisam se hidratar. Todo mundo correndo atrás de água. Se ela ainda estiver custando R$ 2, o que acontece? Os estoques serão consumidos rapidamente, e teremos uma situação que o governador Sérgio Cabral talvez considere mais vantajosa: a água será barata, mas ela terá acabado antes de você chegar ao mercantil.

A população terá melhor sorte se os comerciantes aumentarem os preços em cinco, seis, dez vezes. Quando os preços sobem, consumimos com prudência. Calculamos, poupamos, evitamos o desperdício. É desagradável pagar R$ 40 num galão d´água, mas é só assim que a água estará lá quando os moradores precisarem dela. Os preços altos evitam o desabastecimento.

Comerciantes de qualquer época e lugar só abrem as portas na expectativa do lucro. Por que deveria ser diferente com os de Nova Friburgo? “Por causa das chuvas, Bruno. Você precisa ter um olho mais humanitário. Aquilo é uma tragédia sem precedentes”. Certo. Mas o meu interlocutor imaginário deve notar que fazer comércio ali, neste momento, não é atividade das mais tranquilas. Os perigos são óbvios. A lama dificulta os acessos. É possível que nem todos os funcionários compareçam. Os distribuidores encontram obstáculos logísticos, sem esquecer os custos decorrentes da manutenção dos estoques. Tudo isso entra no preço final do produto. O comerciante precisa lucrar. Se for para ter prejuízo, melhor ficar em casa ou vender em outro lugar.

O que os desabrigados do Rio precisam é de gente que queira ganhar dinheiro levando comida para regiões sob ameaça de avalanches de lama. É um clichê danado, mas escutem o Adam Smith: “Não é da benevolência do açougueiro que devemos esperar nosso jantar, mas da atenção que ele dá aos próprios interesses”. Funciona assim numa economia livre. No Brasil, mandamos para a cadeia os comerciantes que, atendendo aos próprios interesses, ajudam a salvar vidas. Uma salva de palmas para o socialismo.

Fonte: http://www.midiasemmascara.org

Publicado no jornal O Estado.

Bruno Pontes é jornalista – http://brunopontes.blogspot.com

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