A RUPTURA DA RELAÇÃO ENTRE A INTELIGÊNCIA E O REAL

Rodrigo Fialho (sobralnews@hotmail.com)

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar a mutação ocorrida na inteligência após o século XVIII, quando a especulação filosófica renunciou a contemplação e  fez da própria razão seu objeto de investigação, tal mutação foi o assunto abordado pelo filósofo  belga Marcel de Corte no artigo “A inteligência em perigo”, publicado em 1970. Desprendida do real a inteligência humana passou a criar o seu próprio mundo, ao invés de apreender a realidade, conformando-se com ela. Marcel de Corte acusou Kant, Descartes, Hegel, Karl Marx e Feuerbach de terem sido os responsáveis pela subversão da inteligência ocorrida após o “Século das Luzes” e deixou claro que tal subversão culminou no vazio de sentido e de  senso de realidade nos quais o homem moderno submergiu.

Palavras-chave: Homem. Inteligência. Subversão. Técnica. Perigo.

1 Introdução

Pode-se resumir o artigo A Inteligência em Perigo de Marcel de  Corte numa frase: a inteligência foi subvertida, e não foi por acaso. Marcel de Corte explicou que essa subversão da razão ocorreu no século XVIII, denunciou os culpados e o conseqüente relativismo, reclamou das universidades e dos meios de comunicação, afirmou que a enciclopédia foi criada para subverter o conhecimento e que o mundo moderno é um mundo de ficção. Monarquista convicto, De Corte  não exitou em tecer duras críticas à democracia. Ele foi bastante preciso na análise que fez  à tecnocracia que, segundo ele, foi envolvida e encoberta pela democracia.  Marcel de Corte fez um diagnóstico da situação da razão desde o final do século XVIII, mas certamente o que ele escreveu na Inteligência em Perigo é bastante atual e explica o porque a mídia, as escolas, as universidades públicas e privadas conseguem tão facilmente ludibriar os indivíduos, convencendo-os de que estão ficando mais inteligentes, quando na verdade, às vezes, nem mesmo compreendem o significado desta palavra.

2 A Subversão da Inteligência

Considerado por muitos intelectuais de ponta como filósofo de alto nível, Marcel de Corte nasceu na Bélgica em 1905 e faleceu em 1994. Foi professor de filosofia da Universidade de Liège. Escreveu diversos livros e artigos, entre eles o artigo A Inteligência em Perigo.

Logo no início do artigo, De Corte escreveu: “Foi no século XVIII que se romperam de todo as relações entre a inteligência e o real e entre o homem e o universo. Nesse ponto todos os historiadores estão de acordo”. O século XVIII ficou conhecido como o “século das luzes”, do Iluminismo, de intelectuais como Voltaire e Diderot que escreveram mentiras sobre o cristianismo e sobre a Idade Média denominando-a de “Idade das Trevas”. Foi também o século da publicação da enciclopédia que, para  De Corte, “foi criada para ‘mudar a maneira comum de pensar”. Ocorreu uma reviravolta na atividade da inteligência. De Corte então, expôs a situação da inteligência antes e depois do século do Iluminismo. Segundo ele, antes desse século: “Via-se o conhecimento ligado ao poder intelectivo de comunicação, logo de consentimento, de aceitação e docilidade para com o universo e sua causa”. Depois do “século das luzes”,  a “inteligência assumiu o papel de uma soberana que governa, rege, domina e tiraniza a realidade”. Portanto, após o século XVIII a inteligência deixou de receber do real suas leis e passou a impor suas normas à realidade, isto é, antes do mesmo, a atividade primordial da inteligência era conformar-se com o real,  após este século ela rejeitou sua função e consequentemente, deixou de conhecer as coisas. Diante de tal mutação da inteligência humana, De Corte concluiu que a mesma mutação ocorreu no homem. (DE CORTE, 1970)

No artigo, De Corte denunciou a filosofia moderna e alguns de seus principais filósofos: Kant, Descartes, Hegel, Marx e Feuerbach. Segundo ele, foram os “vilões da inteligência.” Esses cinco “vilões” deificaram a inteligência, e o principal responsável por isso foi Descartes, que com o Cogito, desviou  a razão para si mesma. Para esses pensadores, o homem é um ser que não precisa de Deus, que é auto-suficiente. Sobre isso De Corte escreveu:

“Essa imensa aspiração para a asseidade e a divindade, essa prodigiosa auto-suficiência e idolatria de si mesmo inaugurada pelo Cogito cartesiano, entronizada pela Razão Kantiana, levada ao apogeu pelo Espírito hegeliano, magnificada no homem por Feuerbach e encarnada por Marx no comunismo (em que o homem faz uma volta completa sobre si mesmo e se reconhece “como a mais alta divindade”, que “não tolera rivais”) não é apenas apanágio dos filósofos. Essa aspiração propagou-se na humanidade inteira, com fulminante rapidez, graças à difusão das “Luzes”, isto é, a expansão universal da instrução pública e a proliferação da classe dos intelectuais. E isto é bem compreensível”. (DE CORTE, 1970)

Os intelectuais que foram radicados nessa corrente filosófica (professores universiários, escritores, poetas e até cientistas) são incapazes de admitir que algo não material possa existir. Admitem apenas a existência da matéria. Não à toa as escolas, as universidades e os meios de comunicação foram os principais responsáveis pela propagação desta corrente de pensamento. Ao colocar-se no centro da própria existência o ser humano perdeu a capacidade de enxergar para além de si mesmo, afetado por um hedonismo que não permite que o Ser transcedente, superior a todo indivíduo humano apareça em seu horizonte.

De acordo com De Corte, outro problema foi a ideologia que passou a vigorar também a partir do século XVIII, o idealismo. O idealista costuma ser como um jovem que ingenuamente acredita poder incitar uma revolução que irá resolver todos os problemas da humanidade. A História retrata que quando um idealista tentou dzimar os males do mundo, aconteceu justamente o contrário, conseguiu arruinar o que havia de bom. Foi o caso de Che Guevara, Lênin, Mao Tse Tung e outros revolucionários pretensiosos. Na análise de De Corte, o idealismo e  o materialismo são a mesma coisa. O idealismo é como uma doença que aflige os homens, denunciando sua própria incapacidade de enxergar a realidade tal como ela é.

Voltando ao assunto inteligência, De Corte escreveu: “A atitude intelectual não dispensa um objeto. Sem o objeto não pode exercer-se (…). Para exercer uma atividade fabricadora, é preciso recorrer à imaginação”. A inteligência substituiu o ser pelo imaginário, ou seja, a realidade não é mais realidade, mas mera representação, produto da imaginação. Sem a atividade intelectual, o indivíduo converte suas próprias representações em realidade. Passa a ser forjada e não apreendida. Uma inteligência desse tipo produz uma civilização de estilo técnico como a atual (uma tecnocracia), na qual a sabedoria em sentido metafísico é eliminada. Sem uma sabedoria especulativa prévia é impossível distinguir entre o bem verdadeiro, o bem aparente e o mal. Caímos no relativismo. Para explicar melhor as raízes dessa subversão da inteligência, De Corte citou o historiador do trabalho Adriano Tilgher, que afirmou:

“Kant foi o primeiro a conceber o conhecimento como um dinamismo sintetizador e unificador que, do caos dos dados sensíveis, e por meio de procedimentos fundados nas leis imutáveis do espírito, extrai o cosmos, isto é, o mundo ordenado da natureza. O espírito aparece assim como atividade que tira de mesmo a ordem e harmonia. Conhecer é fazer, é produzir: produzir unidade e harmonia. A idéia de ação produtiva fica implantada de vez no cerne da especulação filosófica. Desde o criticismo de Kant até as formas do pragmatismo, toda a história da filosofia moderna, nas suas correntes significativas, é a história do aprofundamento dessa concepção do espírito como atividade sintética, como faculdade produtiva, como criação demiúrgica… Só conhecemos de fato o objeto que produzimos. Mas que produz o homem realmente? Certamente não produz os dados últimos das sensações; estas lhe são impostas de fora; estão nele, mas não são dele. O que lhe é facultado, graças à sua atividade, é combinar de diversas maneiras esses dados últimos, de modo a torná-los obediente às suas necessidades, à sua vontade, ao seu capricho; assim substitui pouco a pouco a natureza real, natureza-naturada, por uma natureza de laboratório, de usina, que conhece porque a fez, que é clara a seus olhos porque é obre sua. O problema do conhecimento recebe uma solução prática. A técnica resolve praticamente o problema do conhecimento”. (DE CORTE, 1970)

Ficou claro que De Corte se opôs ao modo moderno de fazer filosofia, que renegou, pelo menos em parte, a herança dos antigos, a metafísica. Após criticar Kant, ainda lançou criticas a Marx e a Feuerbach acusando-os de terem piorado a situação da inteligência, subvertendo-a ainda mais.  Acusou Marx de  ter colocado o homem no centro de seu próprio universo, onde o homem é o sol cujo os planetas giram em torno e apontou  Feuerbach como o responsável de ter feito com a inteligência o que Marx fez com o homem.

Dentre as afirmações feitas no artigo, uma delas merece destaque: “o mundo moderno é um mundo de ficção”. Segundo o filósofo belga, o mundo conhecido pelas ciências modernas é imaginário. Para o físico não existe natureza, todo o conhecimento físico é metafórico.  A ciência moderna  jaz no “mundo da lua” ou na “Terra do nunca”, menos na realidade. A imaginação escravizou a inteligência, e a consequência disso, foi o culto da novidade, da mudança, da revolução. É como se o homem não conseguisse mais se estabilizar, como se vivesse obcecado por mudanças. De acordo com De Corte: “Para as ciências e a técnica contemporâneas, desligadas de toda metafísica (…) a história é revolução permanente”. (DE CORTE, 1970)

Para ilustrar a relação da ciência com a técnica e sua total separação da metafísica, Marcel escreveu:

“… a ciência pura é inseparável da técnica que lhe apura os meios de investigação e a técnica o é por sua vez da ciência pura que delimita e calcula com precisão sempre crescente. É manifesto que as ciências e as técnicas contemporâneas renunciaram a contemplação do mundo. Doravante visam à sua transformação. A noção de verdade é substituída pela de ação eficaz”. Ou seja, “(…) Para as ciências e as técnicas contemporâneas, desligadas de toda metafísica, desenraizadas de uma concepção especulativa do universo, que as submetia À realidade, a verdade torna-se mudança, inovação, reforma, reviravolta e, de qualquer sorte, a história é revolução permanente”. (DE CORTE, 1970)

Sem a verdade no seu horizonte, o homem passou a navegar sem direção, perdeu o senhorio de si mesmo. Com a perda da verdade, ocorreu uma subversão dos valores. O errado tomou o lugar do certo, o ruim tomou o lugar do bom, o mal tomou o lugar do bem, o feio tomou o lugar do belo, etc.

Para De Corte, essa concepção da história como revolução permanente, foi não apenas teorizada, mas difundida por todo o mundo. Aqui pode-se fazer um paralelo  entre essa concepção da história e a situação atual da América Latina e, principalmente, do Brasil. Desde o início da década de 1990 uma entidade denominada Foro de São Paulo, que reúne vários partidos e grupos de esquerda da América Latina age na quase total clandestinidade. Por dezesseis anos Lula presidiu essa entidade que, em assembleia, decidia e decide as estratégias a serem adotadas em todo o continente latino-americano para a tomada de poder e início da realização de uma revolução comunista, não mais baseada na luta de classes, mas em estratégias formuladas por intelectuais neo-marxistas. Não à toa, De Corte chama a democracia “de uma ficção cuja existência não vai além dos limites do crânio ou das constituições, discursos e papeladas que lhe difundem o nome nos quatro cantos da terra”. Ao menos em parte, essa afirmação parece equivocada. A democracia existe quando as informações certas e verídicas circulam a fim de por a população a par dos fatos mais relevantes que ocorrem em uma sociedade. Ora, sem a informação correta o povo não pode fazer uma opção consciente pelo simples fato de não ter consciência da realidade da situação. Como na democracia, o povo só governa indiretamente, ou seja, por meio de representantes legitimamente eleitos, não pode o povo fazer a melhor opção pelo simples fato de não ter ideia de qual opção é a melhor. Isso ocorre pelo menos há uma década e meia no Brasil e em outros países da América Latina. No Brasil, a grande mídia jamais noticiou a existência do Foro de São Paulo e, talvez por causa disso, um operário tenha chegado ao poder, recebendo louvores não pela sua capacidade ou competência, mas pelo mero fato de ser um operário sem escolaridade, fato do qual ele sempre se vangloriou. Falar da necessidade da circulação de notícias que, de fato informe uma população, é falar da importância do papel da grande mídia na difusão desta concepção da história como revolução permanente. Técnicas de desinformação e ocultação são utilizadas há décadas com o intuito de desviar a inteligência humana da realidade, produzindo assim, um efeito semelhante ao da enciclopédia de Diderot, a saber, o de lançar os cidadãos numa realidade de quimera. Tudo para ocultar a real situação em que uma nação se encontra e proporcionar que um grupo de pretensos “salvadores” da pátria atue na obscuridade e realize a sua obra de engenharia social. (DE CORTE, 1970)

Dentre as técnicas utilizadas pela grande mídia para ludibriar e controlar as massas  destaca-se a espiral do silencio. Em seu programa de rádio online True Outspeak, o Jornalista e filósofo brasileiro Olavo de Carvalho falou sobre essa técnica:

“Mídia, hoje, não é mais órgão de informação. Isso aí mudou muito nos últimos vinte anos. Ocultação, desinformação, acontecia antigamente, agora, mídia é um órgão de controle social e só. Não é para informar vocês. A mídia serve para recortar o que você pode ver e o que você não pode ver. A mídia mudou de natureza. Antigamente tinham vários jornais com opiniões diferentes. Antigamente tinha um governo ditatorial que impunha a censura. Hoje em dia não é mais assim. A mídia se tornou um órgão controlador do que a população pode saber e não pode saber. Isso acontece porque está comprovado que, se você controla o fluxo de notícias, você controla a conduta política da população. Isso aí é a famosa teoria da espiral do silêncio, uma técnica altamente desenvolvida. Isso funciona até na escala da psicologia individual, ou seja, controlando o fluxo de informação que o sujeito recebe, pode-se determinar a conduta dele de antemão. Isso já foi testado com indivíduos e também com massas. E as operações de manipulação nas quais isto está sendo usada são as mais criminosas da história humana”. (CARVALHO, 2010)

Portanto, segundo Olavo de Carvalho, a mídia se tornou um órgão controlador da conduta da população, capaz de ditar os rumos que esta deve seguir.

Considerações Finais

A partir do artigo A Inteligência em Perigo, é possivel compreender os motivos pelo qual o Estado, através das instituições de ensino e, principalmente, dos meios de comunicação consegue com tanta facilidade dominar os indivíduos. Ora, com o assalto da inteligência, o homem perdeu o senhorio de si mesmo. Para De Corte: “A raiz da liberdade está na inteligência”. Para ilustrar melhor o que ainda hoje ocorre nas Instituições de Ensino Superior, veja o que ele disse: “Se nas Universidades ainda se tolera filosofia é na medida em que essa filosofia contribui para a deturpação dos espíritos e procure justificar por meio de sofismas a tese de que o homem é a medida de todas as coisas”. Apenas um retorno da inteligência para sua função primordial, a de conformar-se com o real, pode nos libertar do “mundo de ficção” criado pela imaginação e que, portanto, não é real. Estar a par da realidade é fundamental para todo indivíduo que não aceita ser ludibriado e dominado. (DE CORTE, 1970)

Bibliografia Consultada

PERMANÊNCIA. A inteligência em perigo. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/585

FRENTE OCIDENTAL.COM. Espiral do silêncio. Disponível em: http://frenteocidental.com/2010/03/07/espiral-do-silencio/


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  1. Rapaz, eu não conhecia ainda o pensamento do Marcel de Corte!Li por alto o resumo que você fez e as ideias ali discutidas me pareceram assaz interessantes! Vou ler o artigo “A Inteligência em Perigo” e depois posto minhas impressões sobre.

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