A situação alarmante da Educação no Brasil – 1

* Luiz Carlos Faria da Silva

Desde 1970, o perfil da escolaridade da população brasileira vem passando por grandes transformações. A taxa de analfabetismo adulto, por exemplo, caiu de 33% (dado de 1970) para cerca de 14% em 2000, e atualmente anda próxima dos 12%. O acesso à instrução pública na faixa etária de sete a 14 anos foi praticamente universalizado. Mas será que isso se traduziu numa efetiva melhoria educacional?

Infelizmente, não. Os dados consolidados entre 1995 e 2005, a partir dos testes aplicados no SAEB – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, são reveladores: 95% dos estudantes que “concluíram” a quarta série do Ensino Fundamental apresentam desempenho em Leitura inferior ao mínimo esperado para esse grau de escolaridade, sendo que mais da metade desse pessoal mal consegue ler.

Certamente, não é isso o que o MEC afirma, nem o que a imprensa divulga. Pela análise superficial e apressada das estatísticas do SAEB, a sociedade brasileira é levada a concluir que o mau desempenho em Leitura “atinge apenas de 54 a 55% dos estudantes” que passaram pelos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental com desempenho ruim e péssimo. Mas a situação é bem mais grave: basta acrescentar, a esta cifra, a proporção daqueles que apresentaram desempenho inferior ao mínimo esperado para estudantes da referida quarta série – e logo veremos que, no Brasil, apenas cerca de 5% desses estudantes apresentam desempenho em Leitura considerado adequado pelo SAEB. Nada menos de 95% se dividem entre o resultado desastroso e o abaixo do mínimo esperado – e o resto é conversa fiada.

A cada nova rodada de dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, a imprensa faz um tremendo alardeem torno da porcentagem relativa às faixas de ruim e péssimo, tratando de deixar discretamente na sombra a proporção daqueles que não atingiram esse mínimo esperado. Graças a esta manipulação, a opinião pública tira as piores conclusões – inclusive a de que este enorme fracasso se restringe às redes públicas de ensino. Triste engano: as estatísticas abrangem os estudantes das redes pública e particular.

Outra ilusão fabricada: no Brasil, os pais de alunos ignoram também que a criação de uma categoria para o chamado “desempenho intermediário”, em 2003, alterou dramaticamente o resultado das avaliações. Sem esta manobra semântica (que jamais mereceu uma explicação convincente), a ordem de grandeza para desempenho adequado em Língua Portuguesa seria de 250 pontos – mas, graças à mudança, um resultado de 200 pontos passou a ser… aceitável. Por este artifício, o desempenho médio em Leitura apresentado pelos estudantes formados pela rede particular de ensino escapa de ficar abaixo do mínimo esperado.

(Para se ter uma ideia: em 2005 – último ano com dados oficialmente divulgados pelo SAEB –, o desempenho médio em Leitura dos estudantes que concluíram a quarta série do Ensino Fundamental da rede particular foi de 211,6 pontos.)

Apesar das semelhanças com o NAEP (National Assessment Educational Progress), o sistema norte-americano de avaliação, nosso SAEB oferece diferentes notas de corte para cada nível de desempenho, e a cada edição dos resultados de sua “Prova Brasil” oferece à imprensa elementos para a elaboração de rankings de Regiões, Estados e Cidades. Mas nada informa a respeito do significado pedagógico das habilidades e competências referentes a cada intervalo da escala. Por conta disso, deixa em segundo plano a informação que realmente interessa: quantos pontos os alunos devem estar fazendo em cada fase de escolaridade, para que se possa qualificar seu desempenho como adequado? E mais: qual a proporção de alunos incluídos em cada um desses níveis de desempenho?

Este panorama dramático acaba sendo ratificado por testes no âmbito do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), uma iniciativa da Diretoria de Educação da OECD, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Nesses exame,s 55% dos nossos adolescentes de 15/16 anos apresentam desempenho em Leitura que se enquadram no nível 1 ou abaixo de 1, na escala de competência – correspondente a alunos não habilitados nem mesmo para encontrar uma informação básica um texto escrito.

Não foi à toa que o Brasil apareceu nos últimos lugares em todas as edições PISA, realizada a cada três anos desde 2000. E, como estes resultados têm sido divulgados depois dos resultados do SAEB, a imprensa produz sua cota anual de fumaça – e a opinião pública continua se enganando. Neste início de um novo século, é triste ter que admitir: a tão propalada transformação educacional, que reduziu a taxa de analfabetismo e universalizou o acesso ao Ensino Fundamental, não ficou apenas incompleta. Ela simplesmente saiu dos trilhos.

* Luiz Carlos Faria da Silva é um dos maiores especialistas em educação do  Brasil.

Fonte: Farol da democracia

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Uma resposta

  1. FIQUEI SABENDO QUE OS ALUNOS SAEM DAS ESCOLAS PÚBLICAS DO ESTADO COM NÍVEL DE ALUNOS DE 5° SÉRIE. OS ULTIMOS DOIS PRESIDENTES ( FHC E LULA) VIVEM BATENDO NO PEITO DIZENDO QUE ERRADICARAM O ANALFABETISMO NO BRASIL. AGORA, PORÉM, SABEMOS QUE O QUE AMBOS FIZERAM FOI APENAS CAMUFLÁ-LO. NÃO ADIANTA FRAUDAR OS RESULTADOS OU ADAPTAR AS PESQUISAS PARA QUE ELAS DIGAM O QUE TODOS GOSTAM DE OUVIR, A REALIDADE DOS ESTUDANTE BRASIEIROS SE APRESENTA DIANTE DOS NOSSOS OLHOS DE MODO BASTANTE CLARO. BASTA CONVERSAR COM ALGUNS DELES PARA VER QUE NÃO SÃO BEM PREPARADOS NEM MESMO PARA FAZER PROVA DE VESTIBULAR E MUITO MENOS PREPARADOS PARA ASSUMIREM OS DESAFIOS QUE A VIDA IMPÕE.

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