Aterrorizado com a filosofia ensinada na UVA

Thiago Fontenele

Como tudo que existe, a Filosofia já teve seu momento de glória. Houve Filósofos que se preocupavam realmente em respeitar o sentido etimológico da palavra, isto é, que se importavam realmente em amar a sabedoria e a busca da verdade. Uma educação filosófica verdadeira e que acima de tudo respeite a inteligência e a capacidade de compreensão dos alunos raramente se pode encontrar nos tempos atuais, quando é notório que a educação oficial em muitos aspectos dificulta ou não permite o ensino honesto e a independência racional de cada um.

Quando estive, há algum tempo atrás, no campus da Betânia da UVA, especificamente na área do curso de Filosofia, tive o imenso prazer de me reencontrar com velhos colegas e professores do curso que freqüentei não como aluno da instituição, mas como humilde interessado em aprender discutir sobre problemas filosóficos. Numa conversa com um professor do curso de Filosofia – que aqui designarei como “professor Bernstein”, mero nome escolhido arbitrariamente por mim, pois não quero revelar sua identidade-, expus-lhe minha concepção segundo a qual a atividade filosófica e seu produto, o conhecimento, são destinados exclusivamente aos ἀριστοι, os melhores-entendido aqui como aqueles que respeitam a verdade e o saber e que têm o interesse genuíno em desenvolver o intelecto e a sensibilidade, qualidades estas que são raras num mundo onde a maioria das pessoas valoriza a mentira, a futilidade e a estupidez. A Filosofia, disse-lhe, é aristocrática e elitista por natureza, não num sentido marxista e infantil de que seria um clube fechado e monopolizado por supostos “burgueses” maus, mas sim porque é reservada e cultivada por pessoas que têm interesse primordial em educar e instruir o espírito e a inteligência, pessoas estas que, em geral, são a minoria interessada e capaz de desenvolver uma autentica cultura. O professor Bernstein, não compreendendo o sentido exato das minhas palavras, encaminhou a discussão para a interpretação marxista da realidade e disse-me que a Filosofia não pode ficar restrita à chamada elite – como se esta não mais preferisse Medicina ou Engenharia Aeroespacial, – mas deve estar voltada para o proletariado.

Ao ouvir tais palavras, fiquei totalmente aterrorizado, pois sei que não só no curso de Filosofia da UVA, mas também nos cursos de Filosofia de grande parte das universidades brasileiras, essa visão errônea e politiqueira é dominante. A visão marxista expressa pela opinião do professor Bernstein procura transformar a Filosofia em uma “filocracia” operária, ou seja, num louvor ao poder dos trabalhadores de fábricas, dos operários. Tal concepção busca transformar a Filosofia em filosofismo e converter aquilo que antes era um instrumento do desenvolvimento da razão e da sensibilidade em mero meio de propaganda político-ideológica de uma classe cujo resultado será unicamente paralisar e destruir a capacidade racional do homem, rebaixando o nível da produção intelectual da nação, como diria o filósofo Olavo de Carvalho. É a destruição completa da Filosofia. Destruição esta que é ensinada por Karl Marx na tese XI de suas Teses contra Feuerbach, na qual diz: ”Os filósofos se ateram somente em interpretar o mundo, mas o que importa é transformá-lo”. Afirmando isso, Marx exige a passagem da Filosofia contemplativa, discursiva e baseada na razão, para uma “filosofia” baseada em paixões, irracionalismos, ilogismos e na ação política que possibilite a ascensão de uma classe e partido político, neste caso não só o Partido Comunista, como também demais organizações de esquerda e revolucionárias legais ou clandestinas. Ou seja, Marx não aconselha que estudemos Filosofia para resolver uma questão ou dúvida religiosa, existencial, moral, metafísica etc., que realmente nos interesse ou por simples gosto de conhecer, mas para ser um soldado sempre disposto a lutar e morrer em nome da tal revolução comunista. É a passagem do ser pensante ao não ser incapaz de pensar, instrumento barato e manipulável.

Ainda segundo o professor Bernstein, a Filosofia tem de ser levada ao proletariado. Mas o correto não seria que as próprias pessoas deixassem de se interessar por assuntos ocos e prosaicos e voltassem sua atenção para a Filosofia? A Filosofia não deve ser levada a ninguém, porque ela não é uma religião de salvação, nem os filósofos são missionários. A Filosofia tem de ser valorizada e amada por pessoas que verdadeiramente se interessam pelos problemas e discussões levantadas por ela. Jamais deve ser imposta. Ela é posse exclusiva de pessoas que fazem por merecê-la. E tais pessoas podem encontrar-se em qualquer classe social.

Para o pensamento esquerdista de alguns professores da UVA, o proletariado é uma imensa massa envolta em miséria e opressão e que, por causa disso, têm o direito e a obrigação de destruir a sociedade e usurpar o poder político, criando assim uma moral de destruição sanguinária na qual o ato mais desprezível é justificado e considerado como virtude caso atenda aos interesses da revolução (vide Catecismo do Revolucionário de Sergei Netcháev). Consequentemente, eu e você, leitor, teremos de pagar com a vida, porque, segundo eles, somos “opressores do proletariado”. Toda a moral marxista não passa de argumenta ad lazarum e pluria interrogationa.

Some-se a esse quadro negro uma maioria esmagadora de estudantes alheados do que seja Filosofia, que criaram o hábito de ler resumos, e não livros (livros de autores clássicos da Filosofia, e não de Marilenas Chauis), que mal sabem escrever – fato este assumido por um próprio professor do curso de Filosofia a mim-, que passaram no vestibular não porque acertaram grande quantidade de questões conscientemente (mérito próprio), mas por que não zeraram a prova (o que é possível graças à baixa concorrência que possibilita ao vestibulando acertar 20 questões de 60 e já ter sua vaga garantida) e que estão mais preocupados em terminar o curso o mais rápido possível com o intuito de obter o tão amado diploma e mostrá-lo ao prefeito de sua cidade para que lhe consiga uma vaga em alguma escola pública. Com base nisso, como se pode afirmar que o ensino, a aprendizagem e a produção filosófica no Brasil realmente existem e funcionam?

Penso eu que, enquanto tal pensamento reducionista e ingênuo continuar a reinar nas instituições de ensino, e estas estiverem ocupadas por estudantes mais preocupados em ler livros de auto-ajuda e os de Paulo Coelho (que, segundo Berstaein, é o “intelectual mais importante do Brasil”) do que estudar o que é importante, não haverá condição alguma de se ensinar e de se aprender realmente Filosofia, nem de formar pessoas capazes de produzir conhecimento com contribuições originais, e não simplesmente repeti-lo, como acontece hoje. A Filosofia está sendo destruída, e, se nada for feito, a única coisa que poderemos dizer será: – Requiescate in pace, philosophia.

Originalmente publicado com o título De morte philosophiæ

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  1. HÁ UM ERRO DE TRANSCRIÇÃO NO TEXTO PUBLICADO NESTE BLOG:

    Onde se lê “de auto-ajuda e os de Paulo Coelho (que, segundo Berstaein, é o “intelectual mais importante do Brasil”) “, LEIA-SE “de auto-ajuda e os de Paulo Coelho (que, segundo ELE PRÓPRIO(OU SEJA, SEGUNDO PAULO COELHO), é o “intelectual mais importante do Brasil”).

    Grato.

  2. Sou estudante da UEVA e acadêmica do curso de filosofia, e sei das dificuldades enfrentadas por muitos alunos.E tais dificuldades não são fatos reservados à UEVA e ao nosso curso,mas sim à muitas instituições.E o fato dos alunos terem o conhecimento como algo instrumentalizado,deve ser pensado dentro da filosofia,não podemos fazer uso de um conhecimento utópico que não contribue para a realidade.As raízes dessa precariedade não está isolados do intelectualismo defendido pelo autor do texto.Chega de reduzir a filosofia à um sábio,tudo bem,a um grupo fechado,jamais,só não podemos esquecer que a filosofia discutida na ágora tinha um público bem diferente,o cenário era outro. A filosofia tem seus conceitos e precisamos adequa-los ao nosso tempo.Por tanto ,alunos em busca de diplomas encontramos em todo lugar.Só não acho que o filosofo se reduz à nada,quando além de pensar os conceitos se volta para a práxis.Bernstein,deve ser um filófo contemporâneo que não se preocupa em ser,somente,”o melhor-entendido aqui como aqueles que respeitam a verdade e o saber e que têm o interesse genuíno em desenvolver o intelecto e a sensibilidade”Quero saber se aqui não está preocupação com o outro,de que nos seve o saber se não aplicamos para o bem de todos?
    (como se a UECE fosse lá essas coisas!)Que presunção,generalizar que somos todos leitores de obras de auto-ajuda.Que etnocentrismo.

    • “E o fato dos alunos terem o conhecimento como algo instrumentalizado,deve ser pensado dentro da filosofia,não podemos fazer uso de um conhecimento utópico que não contribue(SIC) para a realidade.”

      Também concordo! Por isso lutemos contra o domínio exercido pelo pensamento político-ideológico da esquerda no sistema educacional brasileiro!

      “Chega de reduzir a filosofia à(SIC) um sábio,tudo bem,a um grupo fechado,jamais,só não podemos esquecer que a filosofia discutida na ágora tinha um público bem diferente,o cenário era outro.”

      Por que reduzir a filosofia a um sábio é “tudo bem” e reduzi-la a um grupo fechado é “jamais”?

      “Só não acho que o filosofo se reduz à nada,quando além de pensar os conceitos se volta para a práxis.”

      O problema é que estão sobrepondo a práxis à reflexão dos conceitos. E isso só ocorre em partidos políticos e em movimentos estudantis.

      Por que é necessário a práxis? Que tipo o de práxis o filósofo tem de ter para ser considerado filósofo? Militar no movimento gay?

      Filósofo não é militante político fanático escravo da práxis. A filosofia não é um instrumento de ideologias politiqueiras.

      “Quero saber se aqui não está preocupação com o outro,de que nos seve o saber se não aplicamos para o bem de todos?”

      Que espécie de saber temos de aplicar para o bem dos outros? Aquele contido no “Manifesto do Partido Comunista” ou em “O Estado e a Revolução”?

      “Que presunção,generalizar que somos todos leitores de obras de auto-ajuda.Que etnocentrismo.”
      Significado de etnocentrismo:
      (grego ethnós, -eos, raça, povo + centrismo)
      s. m.
      Visão ou forma de pensamento de quem crê na supremacia do seu grupo étnico ou da sua nacionalidade.

      O que tem a ver a conclusão com a premissa?

      • Etnocentrismo:”No plano intelectual, pode ser
        visto como a dificuldade de pensarmos a diferença” -qual o problema de um filosófo militar em um movimento gay?
        …”chega” de reduzir a filosofia a sábios E a grupos fechados e chega de sistematizar o conhecimento.Todo ser filosofa,quando pensa sua realidade procurando dar-lhe um sentido ,contanto que não a deixe ser pensada por outrem.
        política ?é bem mais do que a cultura de tantos expressa.
        comentário,somente,não desejo reberlar-me contra nenhuma ideologia.
        A lógica discursiva perdeu seu sentido até na metafíca,portanto,não desejo convencer a ninguém,deixo aqui apenas meu comentário.
        …bem comum,alteridade.

      • “Etnocentrismo:”No plano intelectual, pode ser
        visto como a dificuldade de pensarmos a diferença”

        Bem , aqui cabe outro questionamento: toda diferença tem de ser levada em conta ? Será que se pode aprender realmente algo de bom com muitas “diferenças”?

        Eu penso que não.Toda pessoa sabe que existem civilizações superiores e civilizações inferiores. A civilização européia é uma civilização superior a todas as outras e a que mais contribuiu nos campos do saber, da cultura e da civilização de um modo geral. Quem discordar disso , é só viajar para a Tanzânia e brincar de atirar zarabatanas em leões e elefantes.

        “qual o problema de um filosófo(SIC) militar em um movimento gay?”

        E qual o problema de um filósofo militar em movimentos que defendem os direitos de pedófilos, zoófilos e masturbadores? Que problema há em transformar a filosofia em instrumento para manipular idiotas?

        Claro que não há! (modo irônico ligado)

        …”chega” de reduzir a filosofia a sábios E a grupos fechados e chega de sistematizar o conhecimento.Todo ser filosofa,quando pensa sua realidade procurando dar-lhe um sentido ,contanto que não a deixe ser pensada por outrem.

        1- Tu queres que a filosofia seja reduzida aos burros?

        2-Como assim “chega de sistematizar o conhecimento”. O conhecimento deve ser construído contra as leis da lógica e do raciocínio humano? Explica isso melhor.

        3-Errado dizer que “todo ser filosofa”. O Lula e qualquer cantor de axé não têm a capacidade sequer para compreender 2+2=4, muito menos para filosofar.

        Pensar que todo mundo é apto para a filosofia é um erro infantil e cruel, o qual é responsável pela destruição da dignidade filosófica.

        Aliás, é só entrar em qualquer sala de algum curso de filosofia para perceber que “todo ser filosofa” é uma afirmação falsa.

        “A lógica discursiva perdeu seu sentido até na metafíca”

        Para mim, a lógica discursiva perdeu seu sentido quando se indaga “qual o problema de um filosófo(SIC) militar em um movimento gay?”.

  3. sou estudante de filosofia… e me encaixo nestes que fazem filosofia, mas que não tem vocação!
    só que pode acontecer, de no começo não gostar, porém depois se apaixonar!… bom! ainda não aconteceu, mas afirmo que estou me esforçando!…( fialho… ;* )

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