Em busca da Barataria

Dom Quixote

Dom Quixote

Nivaldo Cordeiro

Quando nos debruçamos sobre o Dom Quixote, de Cervantes, é tudo surpresa e encanto. Nem me refiro aos óbvios méritos literários que têm encantado gerações, desde a publicação original. Refiro-me à fina análise política que o espanhol, por força de sua experiência de vida e pela agudeza de sua percepção, pode registrar no romance.

Cada vez mais me convenço de que o fato mais marcante da vida de Cervantes foi testemunhar a “limpeza” da Península Ibérica, de onde foram expulsos os muçulmanos e os judeus. Ele próprio foi suspeito de ser marrano e teve que arrumar atestados de limpeza de sangue, essa tolice que redundou no nazismo, sem o que sua vida teria sido pior do que de fato foi. Cativo em Argel, Cervantes testemunhou no meio bárbaro a existência de uma sociedade plural, agora impossível na Europa alucinada pelo poder criado pelos novos Estados nacionais.

Surpreende que a suposta pureza dos europeus fosse buscada na antiguidade da fé cristã dos ascendentes, como se o cristianismo pudesse se traduzir nessa tosca idéia de raça e pudesse ser um legado, e não uma escolha livre. Ser cristão é uma mera adesão de fé, para o que se exige unicamente o batismo, seguido dos demais sacramentos. Mas a Europa renascentista ansiava por pureza e perfeição, perigosamente associada à idéia de raça. Mergulho fundo na Segunda Realidade e a obra de Cervantes é a crônica desses tempos, bem como a profecia do que viria no tempo vindouro.

Sancho Pança e sua idéia fixa de governar uma ínsula espelha o novo tempo, em que a multidão dos desqualificados do espírito pretende-se governante, dirigente. Sancho está encarnado em Lula e sua Barataria chamada Brasil. Está em Obama. Está em toda parte. O tempo moderno é o tempo em que a multidão de sanchos clama em praça pública por sua ínsula. São os novos estadistas. Os novos príncipes. Os piores serão alçados ao poder.

Sancho e seu jumento, o mesmo jumento endeusado por Giodano Bruno, pelos franciscanos. O espírito do Renascimento. A inversão da hierarquia natural que está no âmago de toda a Bíblia, a partir do princípio fundamental de amar a Deus sobre todas as coisas. Essa história de cultivar os “idiotas”, inventada pelo franciscanismo, não tem respaldo bíblico. Tem sido o fundamento da subversão da ordem e a eleição do igualitarismo como o máximo objetivo político é seu instrumento de ação. O mal moderno.

Cervantes viu tudo isso e percebeu os desdobramentos. Por isso o livro Dom Quixote é imortal e encanta a cada geração. Ali está a realidade e a descrição da loucura da Segunda Realidade. Como Unamano certa vez escreveu, a loucura agora é a solidão; sanidade é comungar dos preconceitos da massa dos “idiotas’. O isolamento de quem permanece na realidade aparta o ser da multidão enlouquecida. A falsa sanidade é clamar por uma Barataria, a politização de tudo. O desprezo cristão pelos poderes desse mundo, sua suspeita de que nele pode residir o mal, foram deixados de lado. O poder político passou a ser o instrumento para se alcançar a perfeição.

O partido tomará o lugar da Igreja como instrumento de salvação das almas. O primeiro partido nasceu com a Reforma, essa busca desesperada dos“puros”pela perfeição. A alucinação ganhou assim roupagem bíblica. O poder eclesiástico foi fragmentado na multidão de sanchos. Santa loucura! Mas o partido já estava em embrião na alma de Felipe II. Ironicamente a subversão começou na realeza, no próprio rei.

“Loco, y no tonto”, escreveu Unamuno, referindo-se a Dom Quixote, por quem anseia para fugir da multidão de sanchos. Sim, a loucura é a solidão daqueles que se recusam a embarcar para o reino da Segunda Realidade. Com os “idiotas” marcham seus escribas. Nietzsche beijando o jegue na piazza romana, a imagem plástica mais perfeita da subserviência dos homens de letra aos “idiotas”. No caso, “loco y tonto”, na unidade da idiotice. Rocio agora pode estar encarnado em um Airbus, o transporte preferido pelos idiotas governantes em nossas plagas.

Fonte:  Nivaldo Cordeiro

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