Herói da Pátria

Nuno Álvares, herói patriota

Nuno Álvares, nosso patrono.

Quem observou bem a página do blog, viu a imagem de um homem vestido de guerreiro abaixo da foto de Ronald Reagan. Trata-se de São Nuno Álvares, santo patriota português, nosso patrono. E por que escolher como patrono um santo patriota? Simples. Para nos inspirar a amar a nossa pátria tão pouca amada, o Brasil. Saiba mais sobre este santo-herói que foi capaz de arriscar a sua vida por amor a pátria.

D. Francisco Rendeiro, O.P.

A pátria não se discute, nem se condiciona a acordos e juramentos; está acima dos direitos dos homens. Se for necessário mudam-se as constituições, alteram-se os tratados, mas salva-se a pátria.

A pátria não se discute porque não se escolhe, como não se escolhe a família em que nascemos; ama-se, defende-se e engrandece-se, à custa da própria vida, se for preciso.

Tinha então apenas dois séculos a Pátria portuguesa. Mas já possuía um património bem definido. Estava estabelecido o seu território continental. Já possuía língua própria e rica literatura. Tinha a sua Universidade como expressão da sua cultura. Tinha os seus santos, e tinha sobretudo uma grande vontade de viver.

E viveu pela espada do Condestável, porque este a amou com o mesmo amor que amava a Deus.

Creio que se pode amar a pátria sem ser santo, mas também que só os santos encontram a medida exacta do amor da pátria no amor de Deus.

Seria um erro pensar que os santos se esquecem da sua pátria. Seria erro pensar que o Cristianismo, por ser religião universal e chamar o homem constantemente à Pátria do Céu, o desintegra da Pátria da Terra. O próprio Cristo, exemplo máximo da santidade, amou a sua pátria e chorou por ela quando a viu encaminhar-se para a ruína.

O amor da pátria é uma das mais belas virtudes ensinadas pelo Cristianismo.

Santidade e patriotismo são coisas tão unidas que eu tive o atrevimento de procurar os exemplos de santidade de Nuno Álvares, não nos claustros do Carmo, mas nos campos de batalha. É mais eloquente a santidade vestida de guerreiro do que vestida de frade carmelita.

Receio de que haja quem imagine a santidade em formas tão exóticas que só se vejam noutro mundo. Quando afinal é uma coisa muito simples.

A santidade começa no fiel cumprimento dos nosso deveres cristãos e acaba numa intensa união com Deus.

Talvez esteja nesta definição a essência da santidade. O santo começa onde começa o cristão; nem pensemos que se possa separar um do outro.

Já disse que escolhia apenas dois testemunhos da santidade de Nuno Álvares, e que os escolhia nas batalhas de Aljubarrota e Valverde. Na primeira eu fixo-me no pormenor que se repete em todas as histórias. O Exército Português confessou-se, comungou e jejuou. O jejum era preceito da Igreja, a confissão e a comunhão foram por devoção.

Não faltaria decerto quem tranquilizasse a consciência de Nuno Álvares dizendo-lhe que em campo de batalha não estaria obrigado ao preceito do jejum. Mas ele não precisava de tal conselho, não queria tal dispensa. Jejuou, sem receio de ver enfraquecidas as forças para manejar a espada. Jejuou e comungou, porque sabia por experiência, costumava dizer, que da comunhão “lhe resultava todo o esforço e fortaleza com que vencia e desbaratava seus contrários”. E naquele dia não se enganou, porque com 7.000 portugueses em jejum venceu 30.000 castelhanos que talvez não fossem tão cuidadosos em respeitar o preceito da Igreja.

Da batalha de Valverde destacarei apenas o pormenor, sempre apregoado, do chefe que se ausenta no momento mais crítico da peleja, para ajoelhar e rezar.

Dizem que é gesto de cavaleiro medieval. Talvez hoje nenhum general assim fizesse. Até mesmo porque já se afirmou que o homem quando ajoelha perde um terço da sua altura. É assim que o orgulho mede o homem.

Mas alguém respondeu que nunca o homem é tão grande como quando ajoelha diante de Deus.

É doutrina do Evangelho perder para ganhar; perder altura física pode ser a condição para ganhar a altura moral.

Por isso, os séculos admiram a figura do Condestável ajoelhado entre os penedos de Valverde, em íntima união com Deus.

O gesto não é medieval, é do Evangelho, é expressivo da autêntica santidade do herói de Portugal.

Disse, a principiar, que subordinaria as minhas palavras ao tema Nuno Álvares Pereira, Sempre. Se há valores na vida humana, que transcendem os escassos limites do tempo, são precisamente o amor da pátria e o amor de Deus.

A Pátria Portuguesa tem oito séculos de história. Nasceu em Guimarães e tomou o nome desta gloriosa cidade do Porto; estendeu-se a Coimbra, Santarém, Lisboa, Évora e Algarve. Passou à África, estabeleceu-se na Guiné, em Angola, em Moçambique. Chegou à Índia, à China, à Oceânia.

Criou-a a espada do Fundador, que desceu até aos campos de Ourique, e consolidou-a a espada do Condestável, que tornou possível a era do Infante das Caravelas.

Quando olhamos, ainda que de relance, a história da nossa pátria, sentimos nobre orgulho de sermos Portugueses. Não é orgulho, é amor. E a herança mais preciosa que nos deixaram os nossos antepassados, mais do que os feitos gloriosos das batalhas e das descobertas, foi precisamente a lição do seu amor a Portugal. Os feitos têm o carácter do tempo em que se realizam. Nem sempre é preciso pegar em armas para defender a pátria, como nem sempre há ocasião de desbravar terrenos incultos; mas de uma forma ou de outra é sempre necessário que vibre nos corações um intenso amor à Pátria.

E quando penso na idade que tinha Nuno Álvares Pereira quando assumiu a defesa nacional, quando penso que o Condestável do Reino, o braço direito do Mestre de Avis, a lutar contra o poderio ambicioso de Castela, era um jovem de 24 anos; quando penso que a batalha de Aljubarrota marcou o apogeu do génio militar, numa estratégia que ainda hoje causa a admiração dos generais de todo o mundo, e quando penso que ele tinha então 25 anos, convenço-me de que não foi apenas um herói, foi um génio. E direi até que foi um autêntico dom de Deus à Pátria Portuguesa.

Em muitas outras ocasiões Portugal sentiu que tinha Deus por si, a marcar-lhe um destino e a ajudá-lo na sua realização.

Atrevo-me até a dizer que Portugal tem Deus por si a fazer milagres quando é preciso.

A Idade Média viu um milagre em Ourique. Eu creio realmente que Ourique foi um milagre, se não no sentido em que o viu a Idade Média, no sentido não menos admirável de uma ajuda extraordinária da Providência a uma nação que nascia naquela hora.

E não será milagre o génio de Nuno Álvares, o valor desse jovem de 25 anos que salva a pátria numa das horas mais graves da sua história? Terá realmente explicação natural a série de triunfos que se chama Atoleiros, Aljubarrota, Valverde, com exércitos inimigos quatro e cinco vezes superiores?

Não será milagre a história dos nossos descobrimentos, da nossa civilização, da nossa evangelização?

Milagre não é só aquilo que se apresenta com o cenário deslumbrante do acontecimento que excede as leis comuns.. Num sentido talvez mais modesto, mas não menos verdadeiro, a mão de Deus através da História portuguesa é um verdadeiro milagre da Providência.

Nuno Álvares, Hoje, foi o tema que me pediram. Pensei que deveria limitar-me a meditar os gestos rasgados do seu heroísmo e da sua virtude. Fazer a aplicação desses gestos à época conturbada em que vivemos, VV.Ex.as a farão com facilidade.

Tenho para mim que a actualidade de Nuno Álvares está no apelo que o seu heroísmo e a sua santidade fazem constantemente. A cada um de nós. Já no seu tempo ele soube galvanizar a alma da melhor juventude portuguesa. Esses moços da sua idade ouviram um dia a exposição do seu ideal, mas ouviram ao mesmo tempo a exposição das dificuldades que os esperavam. E todos à uma dispuseram-se a segui-lo para formar a invencível Ala dos Namorados.

A mensagem de Nuno Álvares é hoje exactamente a mesma, e os bons portugueses serão dignos dele na medida em que se dispuserem a tudo sacrificar pela Pátria.

Mas a mensagem do Condestável é ao mesmo tempo apelo ao amor de Deus.

Do acampamento de Nuno Álvares foram banidos os jogos de perdição e os elementos de corrupção dos costumes. Rezavam em comum, jejuavam, ouviam missa e comungavam. O cronista diz que me mais parecia uma comunidade de religiosos de que um acampamento de soldados. Era um santo que arrastava os outros, se não para o heroísmo da santidade, ao menos para a integridade do dever cristão.

Havemos de reconhecer que o Condestável ainda não teve a consagração que merece. As grandes praças, as grandes avenidas, têm outros nomes, não o dele. Há estátuas de figuras bem secundárias; ele não tem estátua. Até nas nossas igrejas é raro encontrar a imagem do santo herói de Portugal. Parece que ainda não o compreendemos.

Muito se enganam ao apelidar de medieval a sua vida cristã. O Evangelho não é medieval, é de sempre; e o Condestável, porque é santo, dá testemunho do Evangelho, numa actualidade impressionante.

Saiba Portugal meditar o exemplo dos seus heróis e dos seus santos; saiba meditar e seguir o exemplo deste que é dos maiores da nossa História, e Deus mais uma vez nos salvará.

D. Francisco Rendeiro, O.P., então Bispo do Algarve, no ano de 1961 – extraído do livro “S. Nuno de Santa Maria, Nuno Álvares Pereira, Antologia de Documentos e Estudos sobre a sua Espiritualidade”, selecção e apresentação de J. Pinharanda Gomes, Lisboa, Zéfiro, 2009, páginas 120 a 124.

Fonte: http://casadesarto.blogspot.com/  

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