Cultura comunista

Quando os ideólogos do governo petista falam na “administração de políticas públicas” para o fomento da cultura, a primeira providência que tomo é esconder a minha magérrima carteira. É que nesta simples conjunção de palavras – “políticas públicas”- se escamoteiam hoje todo um vasto mundo de parasitismo corporativo, dirigismo artístico, malandragem política, controle burocrático e, inevitavelmente, o aumento imediato da carga tributária para o usufruto de militantes que usam as artes como “ferramenta” ideológica da “luta social”.

Fui jornalista no Recife quando a prefeitura comunista de Miguel Arraes instituiu, em maio de 1960, o Movimento de Cultura Popular, MCP, que, a pretexto de alfabetizar adultos, visava, de fato, despertar “a consciência política das massas trabalhadoras” no intuito de fomentar a “mudança revolucionária”. Cheguei a entrevistar um dos seus fundadores, o escultor Abelardo da Hora, integrante do Partido Comunista Brasileiro, entusiasta da instrumentação da arte popular para “melhorar a capacidade aquisitiva de idéias sociais e ampliar a politização das massas, despertando-as para a luta social”. No Recife do prefeito Arraes, tal como no Brasil de Lula, a agitação esquerdista no campo cultural corria solta impulsionada pela grana extorquida da patuléia ignara.

De fato, o modelo adotado pelo MCP pernambucano – e mais tarde reproduzido e subvencionado no Rio pelo CPC da UNE (entidade, por sua vez, financiada por Jango) – era, na prática, o mesmo protagonizado pela ação revolucionária da “ujamaa”, tendência do chamado “socialismo africano” então emergente, por exemplo, na Tanzânia. Lá, nos confins do Terceiro Mundo, o então presidente Julius Nyerere, com a triste experiência da sua coletivista “ujamaa” só fez ampliar a fome e a miséria, inspirando Franz Fanon, o fanático mentor da Universidade Dar-Es-Salaam, escrever “Os Condenados da Terra” – obra virótica que pregava a “violência purgante” como força “para liberar o nativo do seu complexo de inferioridade”. Fanon era um psicopata: queria devolver a auto-estima dos africanos vertendo o sangue dos inocentes.

No Brasil atual as “políticas públicas” adotadas no campo da cultura obedecem rigorosamente aos cânones estabelecidos no 7º Encontro do Foro de São Paulo, realizado em Porto Alegre, em 1997, cujas resoluções subscrevem, em outras palavras, os postulados do velho MCP de Arraes e Abelardo da Hora. Neles, os chavões em torno do “imperialismo ianque” foram substituídos pela condenação sumária do “neoliberalismo” e o apelo da “conscientização política das massas” transformado na vigente “construção da cidadania cultural” – mas no resumo do trololó comunista os objetivos continuam sendo os mesmos: fazer das atividades artísticas e culturais um aríete para a formação e manutenção do Estado socialista.

Neste campo difuso – onde o governo socialista do PT conta com os bilionários e permanentes recursos da Petrobras e dos bancos estatais – vale tudo: criação de cursos e escolas orientados por “especialistas” cubanos, realização de filmes (milionários) de denúncia social, produção de shows e peças teatrais engajados, patrocínio de livros tendenciosos empenhados em “resgatar a verdade histórica do povo”, promoção variada de festivais, encontros, seminários e eventos incentivadores da luta de classe, financiamento de dezenas de fundações (como, por exemplo, a Perseu Abramo) voltadas diuturnamente para a consolidação da integração das esquerdas latino-americanas.

Se o amigo duvida, basta ler as atas do Foro de São Paulo: a proposta subversiva é detonar o financiamento de incontáveis “polos culturais” que inoculem na população o vírus coletivista. Para seus mentores, em nome de uma falsa “diversidade cultural”, a ordem é “contrarrestar” (palavra inexistente na língua portuguesa, importada de Cuba) os valores fundamentados “na competência, na desigualdade e no individualismo”. E, sobretudo, combater a ética do mercado exposta pela “mídia capitalista”, empenhada na divulgação do produto cultural de caráter “volátil, banal, superficial e fugaz”. (Como se a arte gerada no escuso ventre do comunismo soviético ou cubano tivesse colocado no mundo outra coisa que não lixo ideológico e propaganda barata).

Sem levar em consideração que a língua falada por aqui é a portuguesa, e que a maioria das nossas manifestações culturais – inclusive a popular – veio com o colonizador, o grande e infalível golpe para justificar a abertura dos cofres públicos é, para essa gente, “a busca da identidade nacional” – uma melopéia, sempre sonora aos ouvidos da nação ignorante e muito conveniente para se combater as manifestações culturais alienígenas, especialmente as importadas dos Estados Unidos.

Em cima de tais conceitos obscurantistas, expostos durante o XIII do Foro de São Paulo em El Salvador, ocorrido em janeiro de 2007, os dirigentes da esquerda foram intimados a encarar, para efeito de distribuição de verbas, a “função política do labor artístico para a formação de uma visão funcional da cultura”, ou seja: “a arte como ferramenta da transformação revolucionaria”.

Tal chicana ideológica, que visa influir diretamente sobre as idéias, valores e sentimentos da criatividade artística e do comportamento social, obviamente não tem nada a ver com a cultura, o saber intelectual e o esforço individual e coletivo para o aprimoramento da civilização.

Tudo não passa de um embuste fanático e desavergonhado para se criar um Estado totalitário que, no plano cultural, sabe-se, só gerou o confinamento e a prisão de milhares e milhares de artistas e intelectuais, dos quais o Prêmio Nobel Aleksander Solzhenitsyn, do “Arquipélago Gulag”, é o mais notório exemplo.

Ipojuca Pontes – Escritor, Cineasta e Jornalista.
Ex-Secretário Nacional de Cultura

Fonte: http://www.grupoinconfidencia.com.br

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