Salvando o comunismo

A carta de saudação enviada pelas Farc à XIII assembléia geral do Foro de São Paulo (www.farcep.org/ ?node=2,2513,1) é o documento mais elucidativo dos últimos tempos. Quem não a leu não mede a estreitreza dos laços que ligam o nosso partido governante à narcoguerrilha colombiana nem compreende o papel que o governo brasileiro desempenha na restauração do movimento comunista internacional.

O miolo do texto é o seguinte parágrafo: “Em 1990 já se via vir abaixo o campo socialista, todas as suas estruturas fraquejavam como castelo de cartas, os inimigos do socialismo festejavam … A desesperança se apoderou de muitíssimos dirigentes… É nesse preciso momento que o PT lança a formidável proposta de criar o Foro de São Paulo… Essa iniciativa foi uma tábua de salvação… Quanta razão havia, transcorreram dezesseis anos e o panorama político é hoje totalmente diferente.” Não há um só partido filiado ao Foro que discorde dessa afirmação: realizando uma idéia original de Fidel Castro, o PT salvou da extinção o comunismo, infundindo novas forças no corpo moribundo e habilitando-o, como se proclamou na IV assembléia da organização, a “reconquistar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu.

” Só seus adversários não querem ver isso. Têm medo de enxergar o tamanho do seu próprio fracasso. Enquanto o Foro de São Paulo crescia, a influência dos EUA no continente definhava a olhos vistos, transferindo seus meios de ação para organismos internacionais, canalizando-os em favor dos partidos de esquerda ou contentandose com a defesa de projetos econômicos que interessam menos à nação americana do que aos seus inimigos. Tão débil se tornou a diplomacia pública de Washington na região, que a propaganda esquerdista pôde se prevalecer da completa ignorância local quanto à realidade americana, atribuindo ao “imperialismo ianque” iniciativas que, do Texas ao Maine, ninguém ignora serem ameaças à soberania dos EUA.

A Alca, por exemplo. É engraçado comparar os discursos iracundos da esquerda latinoamericana contra esse “acordo imperialista” com os protestos não menos furiosos dos conservadores americanos contra esse atentado globalista aos interesses nacionais dos EUA. Alguém aí está fora de si – e não são os conservadores americanos. Mais cômico, ou tragicômico, é ver a esquerda denunciando como “ingerência americana” a presença na Amazônia de agentes do Conselho Mundial das Igrejas, que nos EUA até as crianças sabem ser uma entidade internacional esquerdista, anti-americana e financiadora de movimentos revolucionários. O primado da fantasia sobre a realidade parece que subiu às alturas de um um princípio estratégico. (23/02)

* Olavo de Carvalho
Filósofo, Escritor e Jornalista

Fonte: http://www.grupoinconfidencia.com.br

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